Algodão de Xinjiang encontrado em têxteis em todo o mundo

Apesar da proibição de importação, o algodão alegadamente produzido com mão de obra forçada na China continua a circular nos mercados mundiais, tendo sido encontrado em vestuário e calçado.

[©Pixabay-Mam Yang]

Um estudo recente da empresa de testes de isótopos Stratum Reservoir e do laboratório de DNA Applied DNA Sciences revelou que vestígios de algodão proveniente de Xinjiang, uma região no extremo oeste da China ligada a trabalho forçado, foram encontrados em 19% de uma amostra de artigos vendidos por retalhistas americanos e mundiais no ano passado. Esta descoberta destaca os desafios contínuos em cumprir a lei dos EUA destinada a bloquear as importações de algodão ligadas ao trabalho forçado na China.

Os investigadores analisaram amostras de vestuário, cotonetes e sapatos de grandes retalhistas e plataformas de comércio eletrónico, mas recusaram-se a nomear os retalhistas cujas mercadorias foram testadas, sublinha a Reuters.

Os cientistas utilizaram testes isotópicos, uma técnica que pode ligar o algodão a áreas geográficas específicas, analisando a concentração de elementos estáveis, como carbono e hidrogénio, presentes tanto na cultura quanto no ambiente em que foi cultivado. O objetivo foi identificar vestígios de algodão provenientes de Xinjiang.

Em 2021, os EUA promulgaram uma lei para proteger o mercado de produtos potencialmente contaminados por violações dos direitos humanos em Xinjiang, onde o governo dos EUA afirma que a China está a cometer genocídio contra os muçulmanos uigures. A China nega qualquer abuso na região, que é a principal produtora de algodão.

Apesar dos esforços legislativos e das iniciativas de organizações comerciais para manter produtos feitos com trabalho forçado fora da cadeia de aprovisionamento dos EUA, o estudo mostra que a nova lei não está a ser completamente eficaz.

Um relatório federal publicado em 2022 estimou que o algodão de Xinjiang representou cerca de 87% da produção da China e 23% da oferta mundial em 2020 e 2021. Países como o Vietname, o Camboja e o Bangladesh, grandes produtores mundiais de vestuário de algodão e bens de consumo, ainda importam grandes quantidades de tecidos acabados da China, que muitas vezes chegam aos EUA na forma de vestuário fabricado por fornecedores desses países.

Dos 822 produtos testados entre fevereiro de 2023 e março de 2024, 19% continham vestígios de algodão de Xinjiang. Dos itens com resultado positivo, 57% apresentavam rótulos a indicar que a origem da mercadoria era apenas dos EUA. Além disso, dois terços dos artigos que testaram positivo mostraram que o algodão tinha sido misturado com algodão e matérias-primas de outras regiões fora de Xinjiang.

A Applied DNA Sciences, uma das empresas envolvidas no estudo, não quis fazer comentários à Reuters sobre que marcas e retalhistas foram analisados, tendo apenas informado que comprou produtos dentro dos EUA e de marcas de comércio eletrónico que enviam para o país.