ITV da Tunísia lança-se na transição verde

O projeto de transição ecológica pretende tornar a indústria têxtil e de vestuário do país mais inovadora, inteligente e ecológica e facilitar o cumprimento dos requisitos internacionais de sustentabilidade.

Demco [©Demco]

O projeto, liderado pela Fédération Tunisienne du Textile et de l’Habillement (FTTH) começou em abril e tem como objetivo, segundo o Just Style, reciclar 90% das águas residuais da indústria, reduzir a pegada de carbono das empresas em 30%, utilizar eletricidade 100% renovável, diminuir os resíduos sólidos têxteis em 50% e certificar 100 empresas têxteis segundo as normas de gestão ambiental e energética da Organização Internacional de Normalização (ISO) até 2030.

Representando 1.600 empresas, a FTTH lidera a iniciativa em parceria com o Programa Global Têxtil e Vestuário (GTEX) do Centro de Comércio Internacional (ITC) das Nações Unidas e o Centro Governamental Neerlandês para a Promoção de Importações (CBI), além de vários ministérios, incluindo o ministério de ensino superior e investigação científica.

Uma das maiores preocupações é a exposição da Tunísia ao Mecanismo de Ajustamento das Fronteiras de Carbono da União Europeia (UE), que, a partir de 2026, aplicará um preço ao carbono emitido durante a produção de bens intensivos em carbono que entram no bloco europeu. Em 2022, 98,1% da eletricidade tunisina provinha do gás natural, o que pode impactar negativamente as exportações para a UE.

«As pessoas perceberam a necessidade de trabalhar de forma ecologicamente responsável porque veem que cada verão aqui é, cada vez mais, infernal», afirma, ao Just Style, Rim Jelassi, coordenadora geral da FTTH

O projeto também pretende fomentar uma economia mais circular, promovendo a cooperação entre empresas para estimular a criatividade e a inovação na resolução de problemas na produção de moda. Segundo Rim Jelassi, é essencial aumentar o capital humano da indústria para criar soluções inovadoras e reduzir o impacto ecológico.

Karim Ksontini, da Unidade de Apoio à Formação e Empregabilidade (UAFE) da FTTH, destacou a necessidade de «mudar a mentalidade dos produtores e colaboradores» nas empresas mais pequenas e no sector público, enfatizando uma abordagem abrangente de educação e formação. «É uma visão 360º», sublinha.

Empresas maiores já estão a implementar mudanças significativas para responder às exigências de qualidade e sustentabilidade dos clientes. Johnny De Meirsman, presidente da Demco, que produz 3 milhões de pares de jeans e 12 milhões de peças de malha por ano, já utiliza um sistema de branqueamento com ozono para jeans, eliminando agentes de branqueamento à base de cloro e o uso de pedras artificiais em vez de pedra-pomes da Turquia.

«Um CEO responsável respeita o direito internacional, respeita os seres humanos e o ambiente e dedica-se a melhorias contínuas», refere Johnny De Meirsman, acrescentando que compreende a relutância de outros países em fazer estas mudanças na indústria «porque estes investimentos custam e…as [taxas] de juros estão muito altas».

Outro exemplo é o envio de resíduos da Demco para a unidade de reciclagem da Société Industrielle des Textiles (Sitex), localizada a apenas 10 quilómetros, em Ksar Hellal. Haythem Haddad, vice-diretor industrial da Sitex, indica que a procura por denim reciclado tem crescido desde 2016, com clientes como Inditex e Tommy Hilfiger. A empresa também planeia instalar um sistema de tratamento de água em 2026 e pretende ser 50% dependente de energia solar até 2035, aumentando a sua capacidade de produção de 8 milhões para 12 milhões de metros de tecido por ano.

Estas iniciativas podem ajudar a indústria de vestuário da Tunísia a atrair mais clientes europeus, especialmente após a pandemia ter aumentado a atratividade do país como fornecedor nearshore, resume Johnny De Meirsman.