Na audiência, realizada na passada terça-feira, Yinan Zhu, diretora jurídica da Shein para a divisão da Europa, Médio Oriente e África, não garantiu aos legisladores britânicos que os produtos da empresa não contêm algodão proveniente da região chinesa de Xinjiang, uma zona que, alegadamente, é palco de trabalhos forçados entre a população uigure, aponta o Just Style.
Confrontada com uma série de perguntas dos deputados, nomeadamente no que diz respeito às preocupações com a mão-de-obra forçada levantadas pelos defensores dos direitos humanos, a advogada admitiu as suas limitações na resposta, afirmando que a Shein não tem fábricas próprias, mas que «os fornecedores com quem trabalhamos estão sediados na China, no Brasil e na Turquia», e que desconhece se estes fabricantes independentes recorrem ao algodão de Xinjiang.
No entanto, durante a sessão, Yinan Zhu salientou que o código de conduta dos fornecedores e as normas de abastecimento responsável da Shein implicam a existência de um «processo de diligência devida» com uma lista de «rescisões imediatas e violações de medidas corretivas» relativas ao trabalho forçado, trabalho infantil e questões éticas, e que «não só os fabricantes contratados precisam de assinar [o código de conduta], como também precisam de compreender a importância desta questão».
IPO em risco
Especialistas consideram que a falta de transparência da retalhista chinesa sobre o uso do algodão de Xinjiang na sua cadeia de aprovisionamento «poderá travar as suas ambições de oferta pública inicial». Depois de ouvir novamente Yinan Zhu rejeitar comentar este tópico, Liam Byrne, presidente do comité dos negócios e do comércio, responsável pela audiência, sublinhou que «para uma empresa que vende mil milhões de libras aos consumidores britânicos, e que pretende entrar na Bolsa de Valores de Londres, a comissão ficou bastante horrorizada com a falta de provas que nos forneceu».
Neil Saunders, analista de retalho da GlobalData, explica, citado pelo Just Style, que a recusa em responder às perguntas «vai solidificar a ideia de que existem aspetos pouco éticos na sua cadeia de fornecimento. Pode ser problemático em termos de oferta pública inicial, pois aumentará o escrutínio e a pressão sobre a conformidade com os regulamentos e a ética». No entanto, no que diz respeito aos clientes, ressalta que «apesar de a comparência da Shein perante os deputados não ter sido convincente, as pessoas vão olhar e abanar a cabeça, mas poucas vão mudar os seus hábitos».
Apesar das várias alegações sobre a utilização de algodão proveniente de trabalho forçado, a Shein já afirmou que exige aos fabricantes contratados que adquiram algodão apenas de regiões aprovadas, e que adota uma política de tolerância zero para com a mão de obra forçada, indica a Reuters. Porém, distanciar-se publicamente deste algodão pode ter repercussões, como aconteceu com a empresa japonesa Uniqlo, que enfrentou críticas e boicotes dos consumidores chineses.
Em declarações ao Just Style, Alex Mason, sócio do escritório de advocacia Browne Jacobson, detalha que «este inquérito destaca um desafio crítico que as empresas enfrentam no ecossistema da cadeia de fornecimento global: a falta de transparência. Investir na otimização da cadeia de fornecimento e na conformidade ESG não se trata apenas de mitigar os riscos, trata-se de gerar valor a longo prazo. Ao fazê-lo, não só satisfarão as expectativas crescentes dos consumidores e das entidades reguladoras, como também garantirão o sucesso e a resiliência a longo prazo».
No mês passado, a Shein criou dois órgãos consultivos, compostos por profissionais internacionais experientes, para fornecer à equipa executiva da retalhista com sede em Singapura orientações e contributos estratégicos para promover os seus objetivos de responsabilidade empresarial.




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