Elaborado pela Norion Consult e pela Encompass Consulting, com apoio do Governo da Finlândia, o estudo intitulado “Unlocking the Potential of Circular Textile Value Chains in Kyrgyzstan and Uzbekistan”, resulta de um inquérito a 134 empresas, 96 do Uzbequistão e 38 do Quirguistão, complementado por entrevistas e visitas de campo nos dois países.
O relatório conclui que a adoção de práticas de economia circular permanece fragmentada no Uzbequistão e no Quirguistão e é motivada sobretudo por razões económicas e operacionais. Existe apenas um grupo reduzido de empresas pioneiras, sobretudo de maior dimensão e orientadas para a exportação, que apresenta níveis de maturidade significativamente superiores.
Para avaliar a evolução das práticas circulares, o estudo introduz o Circular Transformation Index (CTI), um indicador que mede a adoção de práticas circulares ao longo da cadeia de valor. No Uzbequistão, 54% das empresas inquiridas apresentam um CTI baixo, 23% um nível médio e 23% um nível alto. No Quirguistão, o nível de maturidade é predominantemente baixo. Cerca de 71% das empresas inquiridas têm menos de 100 trabalhadores e apenas cerca de 13% atingem os níveis mais elevados do CTI, associados também a empresas de maior dimensão e exportadoras.
O documento identifica a eficiência energética como a prática circular mais disseminada nos dois países, enquanto aponta a gestão de resíduos e as soluções de fim de vida como os elos mais fracos.
No Uzbequistão, 41% das empresas inquiridas utilizam matérias-primas certificadas e 82% aplicam princípios de design orientados para a durabilidade e reciclabilidade. Cerca de 49% reutilizam ou reciclam resíduos de produção e 39% reciclam resíduos para produzir novos materiais. Apenas 18% selecionam materiais recicláveis ou reutilizáveis e 21% aplicam medidas básicas de eficiência de recursos.
Quanto aos resíduos pré-consumo, estes representam, no Uzbequistão, entre 15% e 20% da produção de têxteis e são atualmente destinados maioritariamente a aterro. O país está a desenvolver instalações de valorização energética de resíduos com uma capacidade combinada estimada em cerca de 3,6 milhões de toneladas por ano.
No Quirguistão, a gestão dos resíduos permanece informal. Só em Bishkek, a capital, são geradas até 80 toneladas diárias de resíduos têxteis, sendo grande parte encaminhada para aterro ou queimada sem triagem. Entre 15% e 20% dos resíduos são reaproveitados para produtos secundários, como materiais de enchimento.
Em entrevistas citadas no relatório, produtoras têxteis uzbeques justificam a prioridade dada ao preço e à disponibilidade em detrimento da sustentabilidade. «O que importa é o preço baixo e o fornecimento estável. Os clientes não vão pagar mais», revela um responsável. Outra empresa associa a qualidade à competitividade nos mercados externos, declarando que «se a qualidade descer, não vamos entrar nos mercados estrangeiros».
Dois pontos de partida
O estudo identifica diferenças estruturais entre os dois países. No Uzbequistão, a indústria têxtil e do vestuário é verticalmente integrada e orientada para a exportação, criando oportunidades para ampliar tecnologias eficientes em termos de recursos e reforçar os sistemas de rastreabilidade, certificação e reciclagem.
O país conta com mais de 12 mil empresas de indústria ligeira e a produção do setor deverá ultrapassar os 10 mil milhões de dólares (cerca de 8,59 mil milhões de euros) em 2025. A fibra de algodão representa entre 65% e 70% da matéria-prima total, com uma produção anual de cerca de um milhão de toneladas, enquanto os têxteis sintéticos e com mistura de fibras são importados da China, Coreia do Sul e Turquia.
No Quirguistão, o setor do vestuário é dominado por pequenas e médias empresas e caracteriza-se pela flexibilidade e pelo modelo CMT (corte, confeção e acabamento). O país conta com cerca de 900 empresas registadas e emprega entre 300 mil e 400 mil pessoas, dependendo de têxteis importados, com cerca de 80% provenientes da China e da Turquia. Segundo o estudo, o setor quirguiz pode desenvolver a circularidade através de medidas práticas, incluindo a melhoria da eficiência no corte, a separação de resíduos, a reparação, a reutilização e a valorização criativa.
Legislação avança a ritmos diferentes
No Uzbequistão, um decreto, assinado em dezembro de 2022, estabelece metas para 2030, incluindo uma redução de pelo menos 30% da intensidade energética do PIB e uma quota superior a 30% de eletricidade proveniente de fontes renováveis.
Foi também criada uma Agência da Economia Circular, sob a tutela do Ministério da Ecologia, que está a desenvolver mecanismos de incentivo, incluindo um fundo de subsídios para projetos de poupança de água e energia. Quanto à responsabilidade alargada do produtor, o relatório indica que foi introduzido para embalagens de plástico em 2024, estando prevista a sua extensão a produtos têxteis.
No Quirguistão, está em vigor o Programa de Transição para uma Economia Verde até 2030 e foi criada uma Taxonomia Verde nacional, cujo objetivo central é definir e classificar tecnologias, bens e serviços ambientalmente sustentáveis, para orientar o investimento. A legislação específica sobre resíduos têxteis e economia circular permanece, contudo, em discussão.
Financiamento e reciclagem nas prioridades
O estudo identifica como principais barreiras os custos elevados das tecnologias de tratamento de águas e eficiência energética, a ausência de infraestruturas de reciclagem e de sistemas de recolha e devolução, a fraca monitorização de produtos químicos nos processos de tingimento e acabamento e o acesso limitado a financiamento verde, sobretudo para pequenas e médias empresas. O relatório assinala ainda uma fraca disponibilidade de dados estatísticos sobre os volumes de resíduos têxteis.
Entre as prioridades recomendadas estão a criação de quadros de economia circular integrados nas estratégias industriais nacionais, incluindo mecanismos de responsabilidade alargada do produtor e requisitos de ecodesign; a criação de incentivos financeiros específicos; o investimento em infraestruturas de reciclagem e ferramentas digitais de rastreabilidade de materiais; o apoio às PME e às empresas lideradas por mulheres; e o reforço da cooperação regional entre o Uzbequistão e o Quirguistão para harmonizar normas e ganhar escala.




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