«Há muitos anos que fazemos isto, não é novo para nós»

Liderada pelos sócios-gerentes Rui Gomes e Catarina Gomes, a J. Gomes quer continuar a inovar e a mostrar que existem soluções nacionais para o problema dos resíduos têxteis.

Rui e Catarina Gomes

As décadas de experiência da J. Gomes na reciclagem foram interrompidas em 2022 por um incêndio que obrigou a uma paragem prolongada na produção e a um investimento à volta de cinco milhões de euros para que a empresa voltasse a laborar. Atualmente com cerca de 30 trabalhadores, a J. Gomes destaca-se pela capacidade de selecionar os desperdícios provenientes de empresas de diferentes áreas da cadeia de valor têxtil e pela sua fiação de cardados, capaz de dar resposta a clientes das mais diferentes áreas, das meias aos têxteis-lar, passando pelo vestuário e o automóvel. Atualmente está a investir em novos equipamentos para aumentar a sua capacidade, como indicaram ao Jornal Têxtil os sócios-gerentes Rui Gomes e Catarina Gomes.

Como é que começou a empresa?

Rui Gomes – A empresa foi constituída pelo meu pai. Eu trabalho aqui desde os 14 anos, por isso já há 39 anos. Inicialmente fazíamos só a reciclagem têxtil, depois, já comigo, começámos a desenvolver a fiação e, neste momento, temos fios, temos têxteis-lar, temos camisolas. Hoje é fácil vender reciclado, mas há uns anos, no início não era fácil. Não era muito aceitável fios reciclados.

Que tipo de resíduos reciclam?

Rui Gomes – Fazemos a reciclagem de pré-consumo. É o desperdício das confeções, o desperdício das fiações, das tecelagens, nós recolhemos esses desperdícios todos, selecionamos por cor e por qualidade, depois reciclamos o que conseguimos com reciclagem mecânica. O que dá para fazer fio, fazemos fio e depois fazemos os artigos finais e, também, vendemos fio para clientes. Do que não dá para fio, fazemos matéria-prima para tecido não-tecido, para fazer enchimentos, isolamentos, essas coisas.

Tem havido uma maior procura por parte das empresas da indústria têxtil e vestuário para reciclar os seus desperdícios?

Catarina Gomes – As empresas estão-se a adaptar e está tudo ainda muito confuso.

Rui Gomes – Há procura, mas quando chegamos ao orçamento, ainda há uma parte das pessoas que pensam que, por ser reciclado, tem de ser mais barato. Mas há muito trabalho até termos um fio. A nossa fiação, de cardado, por exemplo, é muito mais cara do que o open-end, que faz muitos quilos por dia até com pouca mão de obra. Aqui não. São muitas máquinas grandes com mão de obra e, por isso, tem um custo muito mais elevado.

Catarina Gomes – Há mais mão de obra, há mais capacidade de armazenagem, porque os pavilhões custam dinheiro – temos duas unidades de 3.500 metros quadrados cada. Falamos todos muito de sustentabilidade, mas falamos só no sentido lato da palavra. Temos de estar dispostos a que a sustentabilidade consiga vingar e vingar é encontrar o equilíbrio entre as reservas naturais do planeta e a consciencialização de que quando vendemos, todos os pontos foram pagos com um valor justo.

Que oferta de fios 100% reciclados têm?

Rui Gomes – Temos algodão que reciclamos e acrescentamos um poliéster também reciclado, temos outros que são algodão/lã.

Catarina Gomes – Usamos algodão, lã, poliéster, poliéster/lã. Por exemplo, tratamos o resíduo do Grupo Paulo de Oliveira, que é maioritariamente poliéster/lã com elastano. Temos também o primeiro fio a nível nacional que foi certificado pela V-Label que é 100% reciclado e 100% vegan. A empresa é certificada e a rastreabilidade está garantida.

Rui Gomes – A nossa fiação é diferente. O open-end faz fios mais finos, nós temos até ao número métrico 16. E conseguimos fazer fio com elastano, porque temos um processo diferente. Num open-end, pode bloquear o rotor e não anda. Aqui vamos adaptando as nossas máquinas e os nossos processos para que as coisas funcionem. Temos, por exemplo, uma matéria-prima da Riopele com elastano que já reciclamos e vamos fazer fio. Temos fios onde metemos elastanos e, se não dissermos, ninguém descobre que está lá.

Catarina Gomes – Mas não é o reciclado que tem de se adaptar ao cliente. É o cliente que tem que se adaptar ao reciclado.

Qual é atualmente a capacidade produtiva da empresa?

Rui Gomes – Na reciclagem temos uma capacidade muito grande que ainda não estamos a usar completamente. Depende muito das matérias, mas por turno conseguimos fazer entre duas e três toneladas, o que faz com que se trabalharmos por três turnos, possa ficar entre nove a 10 toneladas diárias. Na parte da fiação, fazemos à volta de 600 quilos com a máquina que temos, mas pode chegar a 1.200 quilos se forem fios grossos. Depois do incêndio, ainda não temos a fábrica a 100%, mas está previsto duplicar a capacidade – já temos o contínuo montado, temos a bobinadeira e agora vai chegar um novo sortido. E se calhar, daqui a meio ano, vamos pensar em montar outro sortido, pela procura que temos. Se hoje tivéssemos três máquinas a funcionar, tínhamos trabalho para as três.

Há soluções em Portugal para responder a um eventual aumento da procura causado, por exemplo, pela legislação europeia na área da reciclagem?

Rui Gomes – Há soluções. Podem é não ser conhecidas – damos a conhecer o que se faz lá fora e não o que se faz cá dentro. Há muitos anos que fazemos isto, não é novo para nós. Ainda há pouco a televisão deu exemplos de Itália. Mas aqui fazemos coisas tão boas ou melhores do que eles e se calhar até com melhores condições de trabalho.

Catarina Gomes – A reportagem da RTP mostrou as pessoas a escolher sentadas no chão. Os nossos colaboradores que fazem esse tipo de trabalho têm umas bancadas ergonómicas com tapetes rolantes. Há 48 anos era plausível ser assim, hoje em dia não. Se aquela reportagem tivesse sido feita em Portugal, o ACT, no dia a seguir, estava a fechar a empresa. O trabalho de escolha é digníssimo, mas não no chão e naquelas condições. O Rui criou até máquinas para se adaptarem ergonomicamente às pessoas.

A inovação é uma prioridade?

Rui Gomes – Sim. Temos máquinas que adaptamos e modificamos. Temos um sortido que comprei em Itália, velho, mas foi todo automatizado, só o corpo da máquina é que é velho – já não é preciso desapertar o carreto para acertar o número, basta ir ao computador para escolher mais fino ou mais grosso.

Para além dos fios, têm igualmente lançado coleções e projetos próprios na área dos produtos finais. Quais os objetivos dessas investidas?

Catarina Gomes – Em junho fizemos a Re-Use Box, com uma escola pré-primária do nosso concelho que ganhou o primeiro prémio da Turma Imbatível do Lidl. As crianças levaram roupa em fim de vida e foi transformada em meias, os meninos vieram cá ver o processo para terem esse conhecimento. Este projeto esteve também no primeiro congresso de sustentabilidade organizado pela Grace, com os lanyards a serem devolvidos no final. E há mais empresas que querem a Re-Use Box, porque a Re-Use tem tudo o que os ESGs devem ter. Tem o ambiente, tem o social e tem a governança. É as empresas darem e depois fazerem um artigo que devolvam à sociedade mais necessitada. E nós conseguimos fazer um fio com que se faz um cobertor e que vai abraçar alguém numa noite fria.

Rui Gomes – Também temos meias, mantas, que são feitas em parceria com a Burel Factory, e mais recentemente lançámos uma coleção de roupa, a Ri-peter. No fundo é para mostrar que realmente se consegue fazer artigos de qualidade.

Quem é que procura a J. Gomes?

Rui Gomes – Vamos fazendo um pouco de tudo. Temos muitos clientes de meias, clientes de camisolas, têxteis-lar também já temos dois clientes e para lanifícios também. Temos ainda o sector automóvel – recebemos todos os resíduos da Borgstena, por exemplo, que está já a incorporar o nosso fio nos tecidos deles. Acabamos por fazer um bocado para todos os segmentos.

A reciclagem pós-consumo está nos vossos horizontes?

Rui Gomes – Pensamos nisso, mas são investimentos grandes e se não houver alguma ajuda, será difícil. Para o pós-consumo vai ter que haver aqui uma ajuda, porque é muito caro. É preciso tirar os botões, os fechos, as etiquetas… É um projeto que pode vir a ser implementado ou não.

Quais são as expectativas de negócio para o futuro?

Rui Gomes – São boas. Temos qualidade, fazemos bem feito, tentamos fazer o melhor. Desde que a gente trabalhe, goste do que faz e se dedique, acho que se consegue sempre.

Como veem o panorama da reciclagem têxtil em Portugal?

Catarina Gomes – Acho que com os recicladores todos, cada um na sua área, Portugal está no bom caminho para tratarmos os nossos resíduos e, até quem sabe, ficarmos pioneiros nalgum produto que consigamos patentear e vender para o resto do mundo, para resolver o problema da indústria têxtil e de moda. Portugal está bem preparado para tratar o resíduo que é feito em Portugal.

Rui Gomes – Talvez não tenhamos ainda a capacidade toda, mas se calhar o Estado, em vez de financiar coisas novas que ninguém sabe o que está a fazer, fazia melhor em apoiar quem está no mercado e tem o conhecimento.

Catarina Gomes – Era apoiar os cinco recicladores que temos em Portugal, aproveitar o know-how destas empresas.

Rui Gomes – Quase todos fazem coisas diferentes e há mercado para todos. Acho que, entre todos, conseguimos.

Catarina e Rui Gomes