Ralph Lauren troca sustentabilidade por IA nos bónus

A empresa norte-americana substituiu os indicadores de sustentabilidade por objetivos relacionados com inteligência artificial no plano de incentivos de curto prazo dos seus executivos, acompanhando a crescente adoção desta tecnologia no setor do retalho.

[©Ralph Lauren]

O critério “cidadania e sustentabilidade” deixa de estar incluído no plano de incentivos anuais da Ralph Lauren, após quatro anos de utilização, passando a considerar métricas relacionadas com a utilização de inteligência artificial (IA), a par de fatores como o crescimento das vendas e os custos operacionais, avança a Reuters.

A alteração foi aplicada no exercício fiscal de 2026, que terminou em março. Segundo a empresa norte-americana, o plano de incentivos de curto prazo passou, pela primeira vez, a estar «associado a prioridades empresariais críticas que centram os nossos executivos na literacia e capacitação em IA».

A Ralph Lauren afirma ainda ter registado um «forte desempenho das nossas métricas de IA» no exercício fiscal de 2026, contribuindo para que os principais executivos recebessem os pagamentos máximos previstos nos bónus.

Uma porta-voz da empresa explica que o objetivo relacionado com a inteligência artificial reforça as «oportunidades de tirar partido da IA para melhorar o nosso trabalho». Sobre as anteriores métricas de sustentabilidade, acrescenta que estas contribuíram para progressos significativos nos objetivos da empresa e que «o nosso trabalho nesta área amadureceu e está agora operacionalizado em toda a empresa».

A utilização de inteligência artificial está também a aumentar no setor do retalho, desde as marcas de vestuário às cadeias de supermercados, nomeadamente na gestão de inventários, na definição de preços e no desenvolvimento de assistentes de compras destinados aos consumidores.

Esta aposta reflete-se igualmente nas estruturas de gestão das empresas. No ano passado, a Ralph Lauren acrescentou a referência à inteligência artificial ao título do cargo do seu diretor digital. Em agosto, a cadeia norte-americana de grandes superfícies Target nomeou o seu primeiro diretor de inteligência artificial.

Aumenta a presença da IA

Cerca de 12% das empresas do índice S&P 500 divulgaram objetivos relacionados com IA nos planos de incentivos dos seus executivos este ano, face a 5% em 2024. Apesar deste crescimento, o setor dos bens de consumo continua atrás de áreas como as comunicações e as finanças na incorporação de métricas de IA nos planos de incentivos.

Cory Morrow, sócio da consultora norte-americana Korn Ferry e responsável pela área de remuneração de executivos para os setores do consumo e do retalho, considera que a adoção destas métricas está a emergir. «A parte difícil, quando se coloca algo como a IA num plano de prémios, é quantificar o que se está realmente a medir. Ainda é relativamente novo nesta fase, por isso as empresas estão apenas a estabelecer uma base de referência para tudo o que for mensurável», refere.

Para Cory Morrow, o plano anual de incentivos de uma retalhista funciona como um «instrumento de comunicação» sobre as prioridades da empresa. Ainda assim, considera que indicadores financeiros, como o crescimento das vendas e a rentabilidade, continuarão a representar a maior parte dos planos de incentivos.

Já Matteo Tonello, responsável pela área de análise comparativa de dados e benchmarking do Conference Board, classifica a decisão da Ralph Lauren como «notável» entre as empresas do retalho e dos bens de consumo, mas ressalva que, nesta fase, não parece indicar uma mudança generalizada no setor.

Uma análise da consultora Pearl Meyer a 2.500 declarações apresentadas pelas empresas aos acionistas este ano conclui que apenas 2% das empresas cotadas em bolsa, considerando todos os setores, incorporaram a IA nas estruturas de incentivos dos seus executivos.

Patrick Haggerty, diretor-geral da Pearl Meyer, considera que a Ralph Lauren está «provavelmente adiantada no que diz respeito ao que está a fazer».