França e Itália defendem “made in”

Para ajudar os confeccionadores a lutar contra a concorrência asiática e a contrafacção, a ideia de uma etiqueta “made in France” volta a estar na ordem do dia. A União Francesa das Indústrias do Vestuário (UFIH) estuda actualmente a sua exequibilidade com as administrações em causa: Ministério da Indústria; Direcção Geral da Concorrência, do Consumo e da Repressão de Fraudes e Direcção Geral das Alfândegas. Este projecto, uma iniciativa do presidente da UFIH, Claude Tétard, poderá resultar na criação de uma “marca colectiva” já a partir do próximo ano. Esta futura “marca colectiva”, que poderá ser baptizada de “La Mode Française”, está sustentada em 2 pilares fundamentais: a criação e a produção do produto acabado. A origem do tecido, ponto crucial, não entraria em linha de conta. «A percentagem de produção francesa ainda não está definida, mas um limite mínimo de 20% poderá salvar muitos empregos na indústria do vestuário em França, seja de 30.000 a 40.000 pessoas neste momento», afirma Claude Tétard.

Também a Federação da Costura analisa actualmente o problema da etiquetagem na origem. Embora as duas iniciativas se identifiquem no fundo, a problemática e os interesses em causa são sensivelmente diferentes, as casas de luxo francesas podem vangloriar-se, a priori, de um estilo 100% francês e de uma produção menos deslocalizada. Ainda que faltem dados fiáveis neste domínio.

«Segundo o princípio comunitário, não é obrigatório indicar a origem da peça de vestuário se não houver risco de induzir o consumidor em erro», explica Sylvie Zawadzki, directora da comissão jurídica da Federação da Costura. «Em contrapartida, segundo o direito francês, é proibido utilizar uma etiquetagem que se preste a confusão (uma bandeira, um mapa, um monumento francês) se o produto não foi fabricado em França. Desejamos que os poderes públicos se posicionem de forma clara quanto à possibilidade de utilizar uma etiqueta “made in France” quando a confecção é maioritariamente realizada em França».

Também em Itália, o “made in Italy” domina a actualidade. O tema roda em todas as bocas, desde a do presidente da República Azeglio Ciampi até à do anódino homem de rua, com passagem obrigatória pelos industriais – obviamente os mais inflamados no debate. «A etiqueta por si só não é suficiente para relançar a indústria. Mas dá um contributo importante na medida em que o cliente final será responsável pelas suas compras», explica Mario Boselli, presidente da Câmara da Moda. Uma opinião partilhada por Franco Bini, vice-presidente da União das Indústrias de Prato. «É nosso dever ser transparente com o consumidor», sublinha.

Mas as opiniões estão divididas, nomeadamente entre os grandes nomes da moda italiana. Para Armani, o “made in Italy” é fundamental: «é o que explica a nossa reputação no mundo». O mesmo sustenta Valentino: «a fabricação italiana confere-nos uma vantagem inegável». Em contrapartida, a Prada considera que o local de fabricação de um produto não tem importância. «É o “made in Prada” que garante a nossa excelência». Uma opinião partilhada por outras marcas italianas, como Liu Jo, que fabrica as suas colecções pelo mundo inteiro: «Fazemos as doudones na China, os bordados na Índia… Procuramos sobretudo países que têm um real know-how num domínio. Neste momento, apenas as malhas são fabricadas em Itália», revela Marco Marchi, o patrão da marca.

Esperando uma futura adesão da Europa ao princípio da etiqueta na origem para os produtos importados, o governo italiano trabalha actualmente num projecto-lei que deverá resultar numa definição correcta do “made in”. As novas regras, que serão válidas apenas em Itália, prevêem uma utilização voluntária da marca, que terá como símbolo o homem de Vitrúvio e será somente usada nos produtos industriais totalmente fabricados em Itália ou aí terminados a partir de matérias-primas provenientes de outros países da União Europeia. Uma peça de vestuário confeccionada em Itália a partir de fios eslovacos e de tecidos franceses poderá obter esta etiqueta. Para gerir este novo sistema, o governo italiano nomeou no passado mês de Outubro um alto-comissário, Roberto Cota, que é igualmente responsável pelo combate à contrafacção.