Chineses mudam a casa

As influências ocidentais estão a mudar o mercado de interiores da China. No entanto, as marcas precisam de estar atentas às singularidades locais: os consumidores chineses são jovens, estão à procura de uma combinação de estética e conforto e, embora partilhem valores coletivos, as opiniões diferem quando se trata de decoração, dependendo do estrato social e das preferências pessoais.

As plantas de interior, flores, velas e acessórios inteligentes são as tendências de design de interiores emergentes entre os consumidores chineses, segundo o portal de tendências WGSN.

Importância social

Para os consumidores chineses, uma casa significa propriedade e representa um investimento. É também um indicador de riqueza e estrato social.

Ainda que a expressão “fangnu” (escravo hipotecário) sugira que as opiniões em relação às altas hipotecas estão a mudar, indicando que o aluguer é cada vez menos um estigma social, as atitudes mainstream não deverão desaparecer no curto prazo.

Os pagamentos elevados de hipoteca significam que aqueles que vivem com um salário modesto na China não têm rendimento disponível para mobiliário de qualidade, pelo que socializar em casa é raro entre este grupo de consumidores, embora continue a ser comum nas famílias mais abastadas. A etiqueta da hospitalidade dita que, por exemplo, os anfitriões apresentem somente o melhor aos seus convidados.

No entanto, à medida que os consumidores ficam com mais rendimento disponível, as atitudes e prioridades sofrem alterações e o sector de retalho de interiores vai crescendo.

A importância social de jantar fora com os amigos também ajudou a transformar a atitude do consumidor chinês em relação à decoração de interiores. A exposição a restaurantes bem decorados que dependem da sua estética para atrair clientes aumentou as expectativas de design de interiores entre os consumidores.

Os indicadores de mercado para a crescente importância dos interiores incluem o lançamento da marca JNBY Home, juntamente com a expansão do conceito Nordic by Nature Vero Moda, na qual os bens de consumo são vendidos lado a lado com artigos de moda.

Costumes

Os costumes e hábitos chineses diferem do Ocidente e podem ditar diferenças de comportamento importantes em relação à decoração de interiores. Na China, os sapatos exteriores nunca são usados dentro de casa. Em vez disso, os chinelos são usados para conforto, limpeza e bem-estar, uma vez que os chineses acreditam que os pés frios são prejudiciais à saúde.

Faz parte da tradição que os convidados levem comida como presente para partilhar quando estão de visita a casa de um amigo ou familiar – as frutas frescas são comuns.

Os chineses costumam tomar banho à noite e as famílias de baixo rendimento sem instalações adequadas usam muitas vezes duas bacias para tomar banho.

Os alimentos desempenham um papel central na cultura chinesa e muitos dos objetos domésticos mais comuns são encontrados na cozinha. Estes incluem os wok, chaleiras elétricas e panelas a vapor. As máquinas de leite de soja e os espremedores são também populares. As cozinhas fechadas são tradicionais, embora as cozinhas open-space estejam na moda entre os consumidores urbanos de classe A. Fornos e máquinas de secar a roupa são comuns entre os chineses que vivem em cidades de primeira linha e abraçaram um estilo de vida mais ocidental, especialmente em Xangai.

Outras características comuns incluem prateleiras de secagem para dias chuvosos, camas de bambu para o verão, aquecedores e ventiladores elétricos. Em Xangai, embora as temperaturas desçam abaixo de zero no inverno, o aquecimento central não é habitual. Em vez disso, muitas casas têm ar condicionado.

Apesar de preocupações com a poluição do ar serem notícia, na China, as janelas das casas são muitas vezes abertas para “toufeng” (ventilação, permitindo a renovação de ar). Muitos chineses não podem pagar ou simplesmente não querem comprar filtros de ar.

Entre os jovens que abandonaram a cidade-natal em busca de oportunidades de emprego, o arrendamento de casa é uma prática comum. A decoração do apartamento é muitas vezes garantida pelo senhorio, fazendo com que este grupo de consumidores não faça muitas aquisições neste segmento de artigos.

O que há de novo

Entre os consumidores chineses de decoração de interiores há ainda um interesse crescente por plantas de interior (particularmente terrários e suculentas) e flores frescas cortadas. As velas de marcas internacionais conhecidas, como a Diptyque, também fazem parte das suas preferências. Estas podem agora ser encontradas em Taiwan, no espaço multimarca 10/10 Apothecary. Como evidência da sua popularidade, a Diptyque tem atualmente 75.500 seguidores na plataforma digital Sina Weibo, enquanto a 10/10 Apothecary agrega já mais de 20.000.

As cadeiras de massagem são já comuns entre os consumidores abastados da geração X e consumidores boomer com casas grandes. A casa inteligente é, de resto, uma área de interesse crescente, embora esteja nos seus estágios iniciais. Procurando capitalizar com esta tendência, a empresa chinesa de eletrónica Xiaomi apresentou, a propósito, a aplicação Mi Home para uma gama de produtos domésticos inteligentes.

Outras considerações

Na China, três gerações de uma família vivem muitas vezes sob o mesmo teto (avós, pais e netos). Financeiramente conservadores, os avós boomers são habitualmente os proprietários ou os responsáveis pelo pagamento da renda de casa. Como resultado, exercem uma influência considerável nas tomadas de decisão em relação à casa e podem ser uma barreira para a adoção de novas decorações.

O adiar do casamento, por sua vez, tem permitido que os consumidores urbanos solitários tenham mais rendimento disponível para investirem na decoração da casa. A renovação de uma casa nova ou existente antes do casamento é também comum entre os chineses.

Devido ao problema da poluição na China, os consumidores abastados ou de classe média estão cada vez mais dispostos a gastar em materiais não tóxicos e naturais para a decoração dos ambientes para os mais pequenos.