Heimtextil maximiza a casa

Têxteis técnicos que transportam para o interior a linguagem do outdoor, materiais que assumem a sua construção e superfícies capazes de estimular os sentidos fazem parte do conceito Home-Maxxing, que norteia as tendências da feira de têxteis-lar em 2027.

Hyper Presence [©Buro Belén]

Depois da inteligência artificial ter ocupado um lugar central na reflexão da Heimtextil 2026, a plataforma de design Alcova, responsável pela curadoria das tendências pelo terceiro ano consecutivo, vira agora as atenções para uma dimensão mais humana. O ponto de partida, apresentado hoje num webinar transmitido para todo o mundo, é um paradoxo: queremos que a casa seja um refúgio da pressão quotidiana, mas estamos simultaneamente a transformá-la num espaço onde até descansar pode ser medido, acompanhado e otimizado.

«Todos sentimos cada vez mais a necessidade e o desejo de abrandar, de nos desligarmos e de olhar para a casa como uma forma de escapar às pressões da vida quotidiana. Por outro lado, paradoxalmente, a casa tornou-se talvez um dos lugares onde essa pressão é maior», explicou Joseph Grima, cofundador da Alcova.

Entrando nas tendências de wellness maxxing, routine maxxing, looks maxxing ou mesmo sleep maxxing que se multiplicam nas redes sociais, a lógica de maximizar o desempenho chega ao espaço doméstico, onde a casa é chamada a fazer mais, seja com maior eficiência energética, equipamentos inteligentes ou sistemas permanentemente ligados.

Há, no entanto, uma reação em sentido contrário, «a ideia de procurar uma válvula de escape, de abrandar e talvez regressar a práticas arcaicas, como escrever cartas numa máquina de escrever ou ouvir música em vinil, formas de escapar a um mundo onde tudo é tão rápido e conveniente», afirmou Joseph Grima.

Desta tensão emergem três grandes direções: Staged Competence, Inside, Out e Hyper Presence.

Staged Competence

É uma tendência que transporta para o interior doméstico a linguagem do vestuário técnico e do outdoor. Tecidos de elevado desempenho, referências a equipamentos desportivos, elementos funcionais e grafismos técnicos passam a integrar mobiliário, estofos e outros produtos de decoração.

«Tudo no nosso quarto, na casa de banho, no mobiliário e nos têxteis para a casa é, de alguma forma, concebido como se tivéssemos de estar preparados para uma catástrofe meteorológica ou para algo que normalmente aconteceria no exterior», enquadrou Valentina Ciuffi, cofundadora da Alcova.

Staged Competence

Até a informação técnica se transforma em decoração, com códigos, símbolos, etiquetas de grandes dimensões e micrografismos semelhantes aos encontrados nas fichas de especificações de equipamentos a surgirem como elemento decorativo. «Aquilo que foi pensado e desenhado para transmitir informação técnica é agora estético e, na realidade, utilizado de uma forma que já não significa nada», apontou.

Também os sistemas de som de elevada potência estão a ganhar protagonismo nos interiores, enquanto, no sentido inverso, painéis acústicos destinados a proteger a casa do ruído são transformados em objetos decorativos, revestidos com tecidos e assumidos como elementos do espaço.

Inside, Out

Esta tendência propõe uma inversão da lógica tradicional dos interiores, tornando visível aquilo que antes ficava escondido. «Num mundo dominado pela IA e por caixas negras, uma estratégia dos objetos passa por mostrar o seu interior, mostrar o mecanismo, mostrar aquilo que habitualmente está escondido», revelou Valentina Ciuffi.

Em vez de disfarçar os elementos funcionais, o design coloca-os em primeiro plano. Entre os exemplos apresentados pela Alcova estão equipamentos eletrónicos transparentes, que deixam ver os componentes interiores, mas também objetos de carácter mais artesanal, nos quais materiais convencionais, como o couro, são mantidos unidos por clips e juntas metálicas visíveis. Noutros casos, o próprio esqueleto do mobiliário permanece exposto ou pode ser revelado pelo utilizador através da abertura do revestimento.

Inside, Out

A lógica estende-se igualmente aos têxteis e à moda, com peças parcialmente abertas ou concebidas para revelarem aquilo que existe no interior. A Alcova identifica ainda experiências em que materiais associados a outros contextos são transferidos para o espaço doméstico, como tendas de campismo transformadas em objetos para a casa e vestuário, ou equipamentos médicos convertidos em elementos de iluminação.

«Historicamente, tudo o que era técnico devia estar escondido», recordou Joseph Grima. Esta tendência, acrescentou, é «uma forma de reconhecermos as coisas, sermos honestos e transparentes sobre elas, em vez de tentarmos escondê-las».

Hyper Presence

Em sentido quase oposto surge Hyper Presence, uma tendência que procura recuperar a ligação física ao espaço através dos materiais.

«Reflete este apetite que temos pelo cru e por interfaces não filtradas – ou pela ausência de interfaces –, regressando a uma espécie de honestidade material», indicou Alice Moretto, da Alcova.

Textura, peso, envelhecimento, luz e aroma tornam-se centrais, enquanto o luxo passa a estar menos associado à abundância e mais à seleção criteriosa dos materiais.

«Quando temos menos objetos, vivemos realmente com eles e reparamos neles. O segredo está em selecionar cuidadosamente aquilo que colocamos no espaço», sublinhou.

Hyper Presence

Linho simples, superfícies deliberadamente cruas, materiais que envelhecem e registam a utilização ou soluções que respondem naturalmente às condições ambientais exemplificam esta direção. Entre os casos apresentados está um «têxtil de madeira», extremamente fino, capaz de absorver humidade e adaptar-se à superfície onde é colocado, modificando-se também através da utilização e do tempo.

«É sempre uma contrarreação ao aumento da digitalização, que nos leva de volta àquilo que nos dá uma sensação de ligação, ao que parece mais humano e mais próximo de nós», resumiu Alice Moretto.

Têxteis humanizam a tecnologia

Para a Alcova, as três tendências não são contraditórias, mas coexistem no mesmo espaço doméstico. Uma casa pode integrar domótica e sistemas de áudio de alta performance e, ao mesmo tempo, reservar zonas sem dispositivos ou privilegiar materiais crus e objetos de baixo teor tecnológico.

Neste cenário, os têxteis ganham um papel particularmente importante. «Os têxteis são realmente importantes neste momento, sobretudo no design de interiores e no ambiente doméstico, porque são uma forma de humanizar e suavizar tudo isto», destacou Joseph Grima. «O têxtil é uma forma de compensar esta deriva tecnológica que a casa sofreu», acrescentou.

Já ao nível da sustentabilidade, embora o conceito não surja de forma independente, está integrado nas tendências, até porque, como salientou Joseph Grima, «está a emergir uma nova linguagem e parte do que a impulsiona é a necessidade de compreender os materiais de uma forma diferente e de incorporar os fluxos de materiais de outra maneira, que não passe simplesmente por usar e deitar fora, mas por regenerá-los continuamente».

As tendências terão um espaço dedicado durante a Heimtextil, que se realiza de 12 a 15 de janeiro de 2027.

Alice Moretto, Joseph Grima e Valentina Ciuffi