«Acho que vamos ter um ano melhor em 2023 do que em 2022»

Apesar de um aumento das vendas, a rentabilidade dos negócios deixou a desejar em 2022, fruto do aumento dos custos sentido ao nível das matérias-primas, da energia e dos produtos químicos. Fatores que, revela Ricardo Silva, CEO da empresa, a Tintex espera ultrapassar na expectativa de um 2023 melhor.

Ricardo Silva

Em entrevista, o CEO da Tintex, que integra também a produtora de malha circular Hata, acredita que os próximos 12 meses, em especial a segunda metade do ano, serão melhores para a empresa que lidera, que tem procurado posicionar-se junto dos decisores nas marcas de moda e inovar de forma disruptiva, tanto nos produtos como na estratégia, como é o caso da eliminação das estações nas suas coleções e, mais recentemente, da pausa na presença em feiras profissionais em favor de eventos mais intimistas para os seus clientes.

A Tintex está a afirmar-se junto das marcas de moda. O que ditou esta estratégia e que resultados têm obtido?

A estratégia já não é nova, na verdade, já é bem antiga, tem mais de 10 anos. A principal mudança, no negócio em si, é que estamos mais próximos da decisão sobre o material. Porque, por mais que queiramos, a decisão final das peças está do lado de quem as cria, dos designers, não está na indústria a 100%. Ou seja, em Portugal, somos espetaculares a produzir, neste momento, e espero que sejamos também a criar e a vender. Mas ainda falta um bocadinho. Portanto, a decisão sobre os materiais utilizados não passa por Portugal, não passa pelas confeções, porque não é o seu negócio. O seu negócio é serviço, é rigor, é qualidade, mas a escolha em si deixam-na muitas vezes, e bem na minha opinião, para os designers e para os compradores. O que nós fizemos foi tentar estar mais junto destes pontos, até porque é mais junto do consumidor final, e tanto a informação que recebemos, como a influência que podemos ter junto dos decisores, faz parte, portanto, é esse o caminho. Se bem que, e infelizmente temos de admitir, por causa desta estratégia distanciámo-nos no passado um pouco da indústria portuguesa, dos produtores. O caminho que temos feito ultimamente é estar também junto da indústria portuguesa, estreitar as relações com as confeções, com as fiações, com os produtores. Estamos mais próximos, ouvimos mais rápida e frequentemente as suas necessidades. Daí que a Hata também sirva um pouco isso, porque da forma que tínhamos o modelo de negócio montado tínhamos apenas o produto acabado. E nem todos os negócios são feitos de compra de malha acabada. Assim temos uma abrangência de oferta maior.

O que mudou no negócio da Tintex com o facto de ter a produção de malhas dentro de portas, com a Hata?

Antes da Hata era muito difícil para nós percebermos o todo, percebermos o material do início ao fim. Portanto, quando comprávamos malha em cru para as nossas coleções, tínhamos poucas especificações. Era-nos difícil desenvolver mais à medida, desenvolver produtos mais especializados. Quando começámos com a Hata foi com esse propósito, conseguirmos ter uma solução no mercado que nos conseguisse dar resposta a esta necessidade. Não tínhamos ninguém dentro de portas que percebesse do assunto, portanto, o primeiro passo foi contratar uma equipa para, primeiro, perceber e, depois, montar a empresa. E aí começámos a desenvolver de raiz e a difundir esse conhecimento também na Tintex. Hoje em dia, todos nós percebemos muito mais de malhas do que há cinco ou seis anos.

Numa vertente mais de design e produtiva, que mudanças surgiram com a possibilidade de trabalhar diretamente com as marcas de moda?

Há oportunidades diferentes. O facto de estarmos diretamente em contacto com designers, criadores, pessoas da sustentabilidade, pessoas que estão à procura de novas soluções, fibras, químicos, faz com que, primeiro, haja muito mais partilha, mais rápida e mais antecipada. Há uma tradução direta daquilo que são necessidades e daquilo que são as nossas soluções. Portanto, consegue-se criar em conjunto mais rápida e eficazmente.

A Tintex não vai participar em feiras em 2023. Porquê?

As feiras significavam proximidade, eram a forma de estar em contacto e de se conseguir perceber e comunicar necessidades e tendências. O que é certo é que à medida que se vai saturando essa experiência, o valor acrescentado de cada nova feira é menor, porque começa a haver rotina, sem muita novidade, tanto do nosso lado, até como de quem está lá à procura. Começamos a experimentar novas formas de proximidade, daí fomentar claramente mais as visitas diretas a clientes-chave e outros locais para reuniões. Por exemplo, estivemos na embaixada em Paris, criámos lá um evento mais intimista com um conjunto selecionado de marcas e vamos explorando estas novas oportunidades. O tempo que se consegue dedicar numa feira a cada um dos clientes é muito reduzido, o que significa que não conseguimos chegar ao ponto crítico da conversa – não é nos primeiros cinco minutos que se faz negócio, não é nos primeiros cinco minutos que se criam oportunidades. As feiras estavam a tornar-se superficiais. Então, decidimos em 2023 não as fazer, até para medir o impacto.

A empresa aboliu as estações das coleções. Já consegue perceber o efeito que isso teve?

Primeiro que tudo, é algo que está a ser feito não só pela Tintex, mas claramente pelo mundo todo. Dizer que não há primavera-verão, outono-inverno é dizer que estamos num mundo mais contemporâneo, mais intemporal, há peças que podem ser usadas nas várias estações e em vários momentos. Significa que o excesso de produção tendencialmente começa a reduzir, porque não se fazem produções e stocks como antigamente. No nosso caso, significa que conseguimos ser mais eficazes na produção, mais eficientes e mais focados naquilo que é o nosso ADN. Significa que temos um leque de materiais intemporais, daí o nosso plano de produto de stock service, porque é intemporal, é contínuo e é o nosso core. E vamos criando produtos à sua volta. E os clientes reagiram muito bem, na verdade. Interiorizaram bem o conceito, porque há muito mais foco, conhecem muito melhor a Tintex.

Estando tão próximo da indústria da moda, como vê a evolução do consumo e do consumidor?

O consumo modificou-se. Se nos distanciarmos, conseguimos detetar que sobretudo o tipo de fibra está a mudar um pouco. Há mais consciencialização sobre a origem. Não quer dizer que a mudança seja muito significativa, ainda se compra maioritariamente algodão em Portugal, mas começa a haver uma mudança maior para algodão orgânico, por exemplo. É um primeiro passo. Para algodão reciclado é um segundo passo. Há mais foco na forma como produzimos e isso vê-se pelo número de questionários para preencher que recebemos dos clientes, sobre consumos de água, consumos energéticos, consumos de produtos químicos. Aí é que vejo mais a diferença.

Que impacto tiveram, no negócio da Tintex, fatores como a energia e as matérias-primas ao longo deste ano?

Temos três variáveis com impacto significativo. Uma delas a matéria-prima, neste caso, o fio, de algodão, liocel, mistura destas fibras celulósicas e, muito pontualmente, alguns sintéticos. O primeiro aumento que sentimos, no nosso caso, foi nos fios. De seguida, sofremos com a energia. Tivemos subidas na ordem das cinco a seis vezes mais, o máximo foi 10 vezes. A terceira é a questão dos produtos químicos, que é mais silenciosa e foi mais devagar, portanto, não foi tão divulgado, mas também tem um impacto bastante significativo.

Como procuraram reagir a esses fatores?

Logicamente, tivemos de modificar a estrutura de preços. Tivemos aumentos de preços de venda na ordem dos 50%. Agora, há limites para tudo e toda a gente, tanto os fornecedores, como os clientes, têm os seus limites e é preciso muita sensibilidade para perceber esses limites. Conseguimos não quebrar as cadeias de valor a montante e a jusante. Isso foi um ponto. Outro ponto, tentámos focar na produção de artigos que tivessem menor impacto energético. Por exemplo, um caso prático: passamos por uma fase onde produzimos menos mercerizados e mais produtos de uma gama mais intermédia. Esta flexibilidade de produto tem existido e é bom, até porque alguns deles podem, realmente, ser trocados nas peças finais, mas tem que ser sempre feito em conjunto com os clientes diretos, com as marcas, para não causar impacto desnecessário no mercado. Na parte energética, o contrato de eletricidade vai até ao final de 2023, felizmente. O de gás terminou no final de março. Portanto, a primeira iniciativa que tivemos foi, ali por volta de fevereiro, perceber que tecnologias conseguíamos implementar para minimizar a necessidade de gás natural. A caldeira de biomassa foi a primeira – está a trabalhar desde agosto. Conseguimos reduzir o incremento do gás em cerca de 50%, mas depois a biomassa também subiu de preço. Tem de voltar a haver um ajuste. Agora começamos a jogar com novas variáveis. O preço da biomassa, o preço do gás, como é que eles se relacionam, há decisões tomadas ao dia precisamente por causa deste binómio e isso também traz um jogo diferente.

Que balanço faz de 2022?

O volume de negócios subiu para toda a gente, mas não acho que seja positivo. Subiu para toda a gente, porque também os custos subiram de uma forma desmesurada. A grande questão para todos é: conseguiram as empresas tornar-se mais rentáveis em 2022 em relação a 2021? Tenho sérias dúvidas. Estamos, neste momento, a fazer o balanço final do ano, não sinto que estamos mais rentáveis do que em 2021, até porque há muito mais volatilidade. Faturámos mais, certo. Mas também tivemos mais custos. Portanto, temos de fazer o balanço final, mas, para nós, não foi, de um ponto de vista geral, um ano positivo. Não posso dizer isso. É um ano de retoma, de retoma menos acelerada do que aquilo que era a expectativa.

Qual é a quota de exportação da Tintex?

A Tintex está com exportação direta a subir, está na ordem dos 30%.

Quais são os principais mercados?

Alemanha, Itália, EUA e Turquia.

Como evoluíram esses mercados nos últimos 12 meses?

A Alemanha subiu claramente, tomou uma maior preponderância na nossa exportação. Os EUA continuaram também bastante significativos para nós, a questão do dólar valorizar em relação ao euro era algo que esperava vantajoso, que não teve o impacto que queríamos ou que esperávamos, por questões logísticas, fechos, insegurança do mercado, provavelmente, o poder de compra lá não subiu tanto ou não retomou. Ainda tenho alguma esperança de que vá mudar alguma coisa ou que vá ter alguma continuidade no próximo ano.

A inovação tem sido uma das bandeiras. Como têm sido recebidos no mercado esses produtos?

Produtos disruptivos, naturalmente, têm um tempo de implementação mais demorado e temos de ter essa capacidade de saber esperar. Temos tido esse escalar gradual de várias linhas de novos produtos – o tingimento natural é um caso, os revestimentos têm tido também a sua reta e o seu aumento, o produto para o desporto de electroestimulação é protótipo, portanto, ainda não está no mercado, as borras do café têm o seu quê também pela colaboração em si, as alternativas ao couro não estão na fase de maturação que queremos e têm um caminho pela frente –, várias abordagens que temos feito tanto do lado do mercado, como do lado da tecnologia para escalar, mas temos de ter paciência.

Que vantagens reconhece na aposta em inovação?

Abre-nos portas em segmentos de negócios totalmente diferentes que de outra forma não teríamos. Por exemplo, no segmento da saúde, que estamos agora, com passos pequenos, a tentar explorar. Abre-nos portas no lado do negócio e abre-nos portas do lado da investigação e da inovação contínua. Também esse é um dos nossos focos, um dos nossos pilares estratégicos de atuação. Acreditamos claramente que é a porta para um futuro sustentado e sustentável.

Há novos projetos em incubação?

Bastantes. Há uma call específica para a descarbonização, lançada já há uns meses, que inclui os investimentos na otimização energética que já fizemos, à qual nos candidatámos individualmente. Depois há os PRR, aí sim, em consórcios. Uma carga de trabalho muito grande, com um potencial também muito grande, temos agora de perceber como é que vai ser o caminho. Alguns estão aprovados, já estão a decorrer. Temos várias iniciativas ligadas à área da bioeconomia do mar, da bioeconomia da floresta, da bioeconomia no geral. Também na área da digitalização de processos, na área da saúde também temos um projeto com o cluster médico, portanto, é abrangente, tem várias atividades. Temos esta série de interfaces muito alargada e isso é positivo. Dá muito trabalho, mas é positivo.

Como perspetiva 2023?

Temos ouvido vários prognósticos. Acho que vai estar muito ligado, por um lado, ao que são as condições climatéricas e isso é muito importante na nossa área, muito mais do que era antes. O estado do tempo implica duas coisas: a procura, ou seja, o consumo e os custos energéticos. Se hoje olharmos para as notícias e para a informação que há sobre o preço do gás, está intimamente ligado à expectativa de haver frio ou não em Portugal, na Europa, no geral. Portanto, é tudo muito volátil. Por outro lado, vamos estar muito influenciados pela conjuntura macroeconómica, como é que está a inflação, como é que estão as taxas de juro, isso vai ter um impacto muito grande em Portugal e na indústria têxtil. Mas acho que vamos ter um ano melhor em 2023 do que em 2022, honestamente. Não necessariamente no início do ano, mas possivelmente no segundo semestre. Até lá temos de ter muita prudência. De uma forma geral, temos de estar disponíveis para a mudança todos os dias e preparados para ter de tomar decisões rápidas. É esse o posicionamento.

 

Que análise faz do sector das malhas em Portugal?

Classifico o sector das malhas em Portugal como o número um no mundo. Acho que, realmente, temos um posicionamento muito forte na indústria criativa e produtora têxtil. Provavelmente, é mais diferenciada nas malhas do que nos tecidos, porque a escala nos tecidos tem mais preponderância. Nas malhas acho que é mais difícil e o foco, fora da Europa, está a ser muito nos sintéticos e o foco na Europa, especialmente em Portugal, está a ser nos materiais mais nobres ou mais de conforto e, aí, Portugal tomou essa preponderância e, por isso, é que somos distintos e procurados. Há muita competitividade em Portugal e é positivo para o país ter esta competitividade forte.

Que pilares sustentam o futuro desse sector, nomeadamente em matéria de inovação?

Eu estou muito focado na eficiência. Eficiência não é só produzirmos com menos recursos, mas produzirmos melhor e mais rápido. Acho que a integração das cadeias de valor, ou seja, a integração das empresas para conseguirmos uma oferta ao consumidor totalmente disruptiva é o próximo passo. Acho que estamos a caminhar para algo que já tem sido feito em muitas outras indústrias, para a servitização do produto, como a Uber ou a Airbnb fazem. Não é tanto o produto em si que está a contar, mas é a experiência que passamos com isso e, por isso, serviço. Ou seja, a rapidez, a fiabilidade, a não surpresa negativa, tudo isto acho que é o grande caminho para nós enquanto cluster têxtil português.