Projeto europeu testa pigmentos têxteis a partir de algas

O Locality estabeleceu três ecossistemas circulares de microalgas, incluindo um dedicado à identificação e desenvolvimento de estirpes capazes de crescer em águas residuais da lavagem de têxteis, com vista à produção de pigmentos.

[©Mounid]

Financiado pela União Europeia, o Locality tem como objetivo desenvolver cadeias de valor circulares e sustentáveis à base de algas, ligando parceiros industriais dos setores agrícola, têxtil e da aquacultura em países do Mar Báltico e do Mar do Norte. O conceito assenta na utilização de fluxos secundários destas indústrias para o cultivo de microalgas, reduzindo os custos do meio de cultura e produzindo biomassa para corantes naturais, alimentação e biofertilizantes.

O projeto criou três ecossistemas circulares que integram o cultivo de microalgas com subprodutos industriais. Um dos ecossistemas, na Noruega, identificou e ampliou o cultivo de estirpes de microalgas capazes de crescer em águas residuais provenientes da lavagem de têxteis na Suécia. Com a biomassa resultante, o projeto desenvolve pigmentos naturais e aditivos para a indústria têxtil.

Um relatório do Locality identifica o alginato, derivado de macroalgas castanhas, como um dos biopolímeros com aplicação no desenvolvimento de fibras como alternativa natural a materiais convencionais. Já as macroalgas e microalgas, em particular as cianobactérias, estão a ser exploradas pelos seus pigmentos, com potencial para substituir corantes sintéticos e reduzir o impacto ambiental do tingimento têxtil.

Uma formulação de corante desenvolvida pela Mounid, start-up sueca parceira do projeto e especializada em corantes e pigmentos à base de microalgas, foi testada numa instalação-piloto da Universidade de Borås, na Suécia. De acordo com o relatório, o resultado traduz-se num tom azul que adere bem a têxteis celulósicos. Os protótipos demonstram aplicabilidade real, ainda que com margem de melhoria na resistência da cor e no processo de aplicação. Entre os exemplos já produzidos pelos parceiros do projeto, o Locality destaca um quimono tingido com algas pela Mounid e um protótipo de mala em tecido tingido com o mesmo corante, associado a uma demonstração de tingimento industrial realizada na Escola Sueca de Têxteis da Universidade de Borås.

[©Mounid]
O relatório aponta, no entanto, lacunas de conhecimento, defendendo mais investigação para identificar as espécies de algas mais adequadas, otimizar os processos de tingimento e garantir que os têxteis tingidos com algas cumprem os requisitos de solidez da cor exigidos pela indústria.

Nos restantes dois ecossistemas, localizados nos Países Baixos e na Noruega, as microalgas são cultivadas a partir de diferentes correntes secundárias industriais. O sistema neerlandês utiliza água de drenagem rica em nutrientes proveniente da horticultura sem solo, enquanto o sistema norueguês recorre a efluentes da aquacultura de recirculação e da indústria de processamento de peixe para produzir biomassa destinada a aplicações alimentares e ração animal.

Segundo o projeto, em todos os três ecossistemas «foi demonstrada a viabilidade técnica do cultivo de microalgas em fluxos secundários industriais», assinalando a «transição do conceito de ecossistema circular do Locality, desde a fase de conceção até às tecnologias comprovadas».