Mais criatividade na ModaLisboa

Terminou no domingo a 22ª edição da ModaLisboa que, desta vez, convidou também alguns estilistas internacionais. Durante quatro dias, a moda nacional desfilou no Armazém Térlis, em Alcântara, marcando as tendências do próximo Outono/Inverno.

 

Classificada por muitos como uma “feira de vaidades” a ModaLisboa preocupa-se, talvez em demasia, com o social à volta do evento em detrimento do que deveria estar realmente em destaque: a moda portuguesa. E esta, merece realmente reconhecimento, pois vai evoluindo cada vez mais, provando que os portugueses quando querem, sabem fazer e fazem bem. Mas, os resultados seriam, certamente, mais notáveis se houvesse uma maior preocupação em elevar a criatividade da moda portuguesa em vez da criatividade pública da sociedade.

 

Apesar disso, os estilistas nacionais estavam, após os momentos iniciais de tensão que antecedem cada um dos desfiles, contentes com o resultado do seu trabalho, que começa a pouco e pouco a ser reconhecido, quer nacional, quer internacionalmente. Até porque a imprensa internacional presente mostrou-se na sua maioria entusiasmada com as colecções nacionais, tendo ficado a opinião de que a moda portuguesa tem, realmente, pernas para andar. Cara Scouten, da revista francesa “Officiel”, esteve pela primeira vez na ModaLisboa e ficou agradada com o que viu. «Gostei muito de alguns criadores como Felipe Oliveira Baptista e Alexandra Moura». Já Oliver Rauh, jornalista “freelancer” diz ter gostado de Osvaldo Martins, pois mostrou «nesta passerelle como se pode juntar a criatividade com a parte comercial de uma colecção». Ruth Marshall, do site WGSN salienta que «a moda portuguesa está de parabéns». Por seu lado, Michael Dye, editor de moda da revista “Vogue” italiana acha que há ainda muito a fazer. «Os desfiles precisam de ser mais bem coordenados e grande parte das colecções apresentadas não são muito comerciais, o que a meu ver é um erro porque a moda é um negócio e tem de ser encarado como tal. Vi muitas roupas que não consigo imaginar quem as vai comprar», refere. 

 

As estrelas na passerela

 

A abrir mais uma edição da ModaLisboa esteve Dino Alves com uma aposta forte nos contrastes, dando uma imagem simultaneamente suave e agressiva. Os comprimentos são variados e as linhas justas e volumosas. A cor marcou esta colecção feita de peças meticulosamente decoradas.

 

Seguiu-se Louis da Gama com um “Tesouro Antigo”. Este foi o tema escolhido pelo estilista português sediado em Londres, que nos mostrou uma colecção com uma forte influência estética “vintage”. Estampados floridos e muita cor deram vida à colecção de Louis da Gama.

 

A primeira colecção completamente masculina, surge agora, pela mão de Pedro Mourão. Este criador apresentou-se com as formas clássicas da alfaiataria portuguesa, aplicando-lhes alguns detalhes de autor e de novos materiais. O preto e o branco foram as cores de eleição de Pedro Mourão.

 

Sempre marcados pela sofisticação aparece a dupla Alves/Gonçalves com uma colecção muito feminina e inspirada nos anos 50. Destacam-se os vestidos de musseline e seda com pregas e os casacos cintados por fitas. Manuel Alves e José Manuel Gonçalves apostam, neste Inverno, em cores como o branco, bege, verde, laranja, azul, lilás, dourado, amarelo, vermelho e preto.

 

A primeira noite terminou depois com a inauguração da exposição retrospectiva de Glória Coelho, uma inspiração da moda brasileira, e que encerrará, hoje, dia 31 de Março.

 

O segundo dia de desfiles deu a conhecer as colecções de Luís Buchinho que se apresentou num estilo “vintage”, onde não faltaram os bordados manuais e as várias aplicações em cabedal e mouleton. O estilista realçou as formas arredondadas que se transformaram em silhuetas elegantes e anatómicas. As tonalidades escolhidas são suaves, destacando as várias tonalidades de cinza, branco, salmão, castanho e preto, em conjunto com alguns toques de vermelho.

 

A jovem Alexandra Moura optou por um jogo de silhuetas esguias e redondas e simultaneamente leves e pesadas. As pregas estão de volta nesta colecção, assim como a sobreposição de peças e tecidos. O cinza, o preto, o bege e o branco estiveram em força, contando com alguns apontamentos de amarelos e vermelhos. O conforto da lã, algodão e malha tiveram primacia na escolha da jovem estilista.

 

As artes como a moda, o cinema, música e teatro inspiraram Miguel Vieira, que brindou os presentes com um jogo de cores, elegância e irreverência. Vestidos sensuais que deixam a imaginação fluir e smokings delicados fizeram uma homenagem aos anos 30. As sedas, cetins e lã pura tiveram o papel principal nesta colecção, ao lado de cores como o preto, rosa, lilás, amarelo, branco, azul, verde e dourado.

 

A fazer jus ao tema desta edição da ModaLisboa, a Lion of Porches encerrou o seu desfile com cinco estrelas. Lúcia Moniz, Miguel Ângelo, Lurdes Norberto, Paulo Pires e Astrid Werdning desfilaram para esta conhecida marca portuguesa, desenhada pela inspiração de Júlio Torcato. Destinada a um espírito jovem e desportivo a Lion of Porches desenvolveu uma colecção inspirada na bandeira inglesa e nas cores vermelho, navy, cru, cinza e bordeaux. A descontração dos coordenados sentia-se até no público através da música “Are you ready for love” de Elton John, que levou, até, à criação de algumas coreografias na assistência.

 

O encerramento dos desfiles de sexta-feira coube assim, a outro dos convidados especiais, o designer brasileiro Reinaldo Lourenço. Uma colecção inspirada na caça, com o rigor das calças, vestidos e casacos em tecidos castanhos e cinzas contrastava com a leveza e fluidez dos tops e vestidos cobertos por fios de musseline. O destaque desta colecção foi ainda para as t-shirts estampadas com a figura de um cão em pose de grande caçador e para a montagem de peças em pele e couro à base de rebites, ilhoses e argolas.

 

O fim-de-semana teve início com o desfile de Anabela Baldaque que nos guiou até ao universo das histórias de encantar para crianças, com personagens que nos fazia lembrar a Branca de Neve, o Capuchinho Vermelho ou a A Bela Adormecida. As formas eram arredondadas e longas e os detalhes como o godé, as pregas, os franzidos e os trespasses davam à roupa um ar vincadamente feminino.

 

Por sua vez Maria Gambina apresenta-se num estilo muito “sportswear”, e como ela refere retirou a «poeira dos discos, das medalhas olímpicas e dos básicos». As aplicações e os acessórios prateados davam à colecção um ar eterno, contrastando com as cores vivas, como o amarelo, vermelho e azul, que se iam ao mesmo tempo, associando ao preto, branco e camel.

 

A outra marca presente nesta edição foi a estreante Globe Line que se mostrou ousada e atrevida. A pensar no ambiente urbano a colecção da Globe jogou com a mistura de silhuetas onde as formas e os pormenores desportivas se cruzavam com silhuetas mais volumosas. Os casacos eram curtos e cintados e as saias rodadas e assimétricas. No que se refere às cores, a Globe oferece ao próximo Inverno uma paleta completa que vai desde o preto, cinza e castanho aos beges, verdes azuis, rosas e laranja.

 

Segue-se um dos mais esperados desfiles da 22ª edição da ModaLisboa. Fátima Lopes enche a sala e mais uma vez não desiludiu. Inspirada no surrealismo a criadora aposta nas assimetrias e jogo de volumes. As peles não faltam nesta colecção assim como um micro vestido de brilhantes Swarovski.  

Ana Salazar jogou, por sua vez, com a oposição masculino/feminino e com o contraste das silhuetas. O cetim e a seda também foram tecidos de eleição da estilista, formando silhuetas amplas, geométricas e moldadas. Não faltaram os acessórios em pele.

 

José António Tenente inspirou-se numa “conversa de amigos” e apresentou uma colecção baseada em uniformes. A oposição luxo/decadência deu aos coordenados de Tenente uma imagem de «antigos palácios que guardam preciosidades com as marcas de algum abandono». Os materiais são quentes e confortáveis e misturam-se com as cores outonais.

 

A passerela é depois preparada para Felipe Oliveira Baptista, a grande expectativa destes quatro dias dedicados à moda. De nacionalidade portuguesa, mas a viver em Paris, Felipe foi já aplaudido pelos mais importantes meios de comunicação dedicados à moda. O jovem criador apresentou a sua “bau collection A.W. 04/05” com uma multiplicidade de propostas de cores neutras e tecidos maleáveis, maioritariamente em jersey. O trabalho consistiu numa manipulação de 10 peças básicas, distinguindo-se peças curiosas que resultaram de quartos de círculo de tecido dobrados e manipulados de várias formas. Com algumas peças sem nenhum elemento decorativo, Felipe Baptista propõe a cada cliente a transformação da peça ao seu estilo.

 

O último dia abriu com a «exuberância no fetiche humano» de Osvaldo Martins, que marcou esta ModaLisboa com a sobreposição de volumes e comprimentos e os contrastes de brilhos e opacos. A vivacidade das cores como os amarelos, verdes e rosas fazem parte da criação de Osvaldo.

 

Lã e cetim foram os materiais eleitos por Lidija Kolovrat na sua colecção “Derelict de luxe”. Um conjunto de silhuetas fluídas e cores naturais formam coordenados repletos de pormenores delicados criados nas lãs e cetins. 

 

Nuno Gama apresentou uma colecção de estilo contemporâneo adaptável a várias ocasiões. O bom corte e o conforto das peças são elementos essenciais para este criador.

 

Outro dos momentos mais esperados pelo público da ModaLisboa era o desfile de Nuno Baltazar, que depois de vários anos de trabalho ao lado de Paulo Cravo, apresenta-se pela primeira vez a solo. Dando seguimento à sua inspiração cinematográfica, Nuno Baltazar escolheu o filme de Stephen Daldry “As Horas”, baseado no romance homónimo de Michael Cunningham. O personagem Virginia Wolf, interpretado por Nicole Kidman deu vida à colecção, tendo sido apresentados na passerela “looks” antagónicos e fortemente influenciados pelos anos 20 e 50.

 

Entretanto, a parisiense Sonia Rykiel encerrou estes quatro dias dedicados à moda. As camisolas de malha às riscas e os biquinis em strass, assim como os vestidos ligeiros em seda, crepe e chiffon com estampados primaveris e bordados encantaram a audiência.