Luxo falha na transparência

Um estudo recente analisou relatórios de grupos como o Kering, LVMH e Hermès, apresentados ao abrigo da lei francesa, e concluiu que as divulgações são vagas, inconsistentes e sem detalhes suficientes sobre as suas cadeias de aprovisionamento.

[©Kering]

A investigação, intitulada “Transparency or opacity? An analysis of luxury firms’ responses to seven years of Devoir de Vigilance mandatory sustainability risk reporting” e publicada no Social Responsibility Journal, avaliou 35 relatórios anuais apresentados entre 2018 e 2024 por grupos e marcas como LVMH, Kering, L’Oréal Luxe, Hermès e Dior, ao abrigo da lei francesa de dever de diligência.

Os autores concluem que as empresas cumprem os requisitos formais da legislação, mas falham na concretização do objetivo principal de identificar e divulgar riscos ambientais e de direitos humanos ao longo das respetivas cadeias de aprovisionamento.

«Estas empresas de luxo demonstraram todas uma conformidade técnica básica, mas os seus relatórios são vagos, inconsistentes e carecem de detalhe sobre as suas cadeias de abastecimento», afirma Claire Lindsay, coautora do estudo.

Já Candide Hammel, também autora da investigação, descreve que «apesar de sete anos de relatórios, nenhuma empresa da amostra pode ser considerada exemplar. Todas as divulgações ficaram aquém do espírito e da essência da lei. Não há evidência de que tenham mudado alguma coisa em resultado da legislação».

O estudo identifica falhas concretas na qualidade da informação divulgada. As empresas tendem a referir questões como direitos humanos, alterações climáticas e escassez de recursos em termos muito gerais, sem as definir adequadamente nem demonstrar como foram avaliadas. Em vários casos, não existe evidência de que fornecedores ou subcontratados tenham contribuído de forma significativa para os relatórios, algo que a lei pretende assegurar. Os investigadores declaram ter «muito pouca confiança» nas divulgações efetuadas.

Claire Lindsay sublinha a contradição com o posicionamento comercial do setor. «As empresas de moda de luxo vendem produtos com base na sua qualidade e savoir-faire, o que implica o recurso a artesanato especializado e artesanal. Há referências repetidas a categorias amplas como “fornecedores do resto do mundo”, sem informação sobre onde esses fornecedores estão localizados, os riscos existentes nesses países ou a forma como esses riscos estão a ser geridos. Se estas empresas têm o controlo sobre as suas cadeias de abastecimento que dizem ter, deveriam ser capazes de reportar claramente sobre estas matérias. Tiveram sete anos para demonstrar maior transparência e o que constatámos é que a substância simplesmente não existe. Em muitos casos, parece um exercício de cumprimento formal», refere a coautora.

A lei francesa de dever de diligência foi introduzida na sequência do acidente no Rana Plaza, no Bangladesh, ocorrido em 2013, e exige que as empresas reportem informações sobre mapeamento de riscos, avaliação de fornecedores e subcontratados, ações preventivas, mecanismos de alerta e monitorização. De acordo com os autores, esta lei tem servido de modelo para novas regras de diligência devida nas cadeias de aprovisionamento na Alemanha e na União Europeia.

«Se as marcas são sérias quanto à sustentabilidade e ao tratamento justo das pessoas, então o reporte público tem de nos dizer algo útil. Não deve ser apenas um conjunto de declarações breves e genéricas. E se vamos ter reporte obrigatório, é necessária uma aplicação mais rigorosa, expectativas mais claras e maior escrutínio por parte dos reguladores. Só então veremos melhorias demonstráveis no comportamento empresarial», conclui Claire Lindsay.