Bangladesh mudou (um pouco) depois do Rana Plaza

O acidente de 2013, que vitimou mais de mil pessoas, foi o motor de várias mudanças a nível laboral em grandes empresas. Mas nas mais pequenas ainda há muito a fazer.

Cinco anos depois do acidente no Rana Plaza, no Bangladesh, em que morreram 1135 trabalhadores do vestuário, continua a haver más condições de trabalho em empresas mais pequenas, avança a Reuters, que cita ativistas ligados à defesa dos direitos laborais.

Aumentar o salário mínimo, regular o horário de trabalho e fazer um mapa preciso de cadeias de aprovisionamento são alguns dos melhoramentos que apontam como sendo essenciais para que um desastre da dimensão do Rana Plaza não volte a acontecer. O colapso do edifício de oito andares, nos arreadores da capital Daca, em abril de 2013, também causou ferimentos em mais de 2000 funcionários e deu origem a uma polémica mundial em torno das condições de trabalho no país, que é o segundo maior exportador mundial de vestuário em massa (ver A luta continua no Bangladesh).

Iniciativas escassas

Michael Posner

Depois da tragédia, marcas, sindicatos e o governo lançaram iniciativas para melhorar a segurança das fábricas. No entanto, segundo um relatório que avaliou a condições de trabalho no Bangladesh, «muitos trabalhadores laboram por sua conta e risco, apesar de um grande progresso em muitas das maiores e melhores fábricas do país». Michael Posner, do Stern Center for Business and Human Rights da Universidade de Nova Iorque deu conta de algumas conclusões do trabalho «Five Years After Rana Plaza: The Way Forward». «Os trabalhadores em milhares de fábricas subcontratadas, muitos deles jovens e do sexo feminino, continuam a trabalhar em condições inaceitáveis», afirmou (ver Da fábrica para a Universidade).

Cerca de 3.000 pequenas empresas contribuem para ajudar as unidades maiores a exportar a sua produção. Para muitos negócios, o recurso à produção em unidades mais pequenas é vital para ajudar a ultrapassar pressões cada vez maiores a nível da produção. Dorothée Baumann-Pauly, uma das autoras do relatório, explica que, com a «queda dos preços e o aumento da velocidade na moda, a necessidade de trabalhar com subcontratados é maior do que nunca, apesar dos riscos envolvidos nesta prática». Entre as questões ainda por resolver estão diversas pequenas unidades que ignoram as regras de segurança e operam em edifícios inseguros, sem alarmes, extintores e saídas de emergência.

Um projeto liderado por Parveen S Huda propõe-se a mapear digitalmente as fábricas de vestuário no Bangladesh. Esta equipa vai rua a rua e conta mesmo as unidades mais pequenas, para que sejam inseridas no sistema.

«Não podemos deixar que mais de mil trabalhadores morram em vão. Ficamos com os olhos abertos para as condições extremas em que estão os funcionários, estamos a afastar-nos de focar apenas os aspetos de segurança e passamos para uma abordagem mais holística, para proteger os direitos de quem trabalha nas fábricas», adianta a responsável.

Acordos implementados

Depois do desastre, vários retalhistas estabeleceram dois acordos para melhorar a segurança: o Bangladesh Accord, em questões de segurança dos edifícios e fogos, e uma aliança para a proteção dos trabalhadores. Desde essa altura, cerca de 2.000 unidades foram inspecionadas e três milhões de trabalhadores treinados para melhorar a segurança no que diz respeito ao risco de incêndios, tendo sido resolvidos outros problemas nas unidades. Medidas como a implementação de linhas telefónicas de ajuda e a formação de comités de segurança também ajudaram a melhorar o ambiente de trabalho. «Durante anos, foi dito aos trabalhadores para não fugirem e sim ficarem para lutar contra o fogo. Agora eles sabem que têm que proceder à evacuação das instalações o mais depressa possível e que têm o direito de se recusarem a fazer trabalho inseguro», afirma Michael Bride, do Bangladesh Accord.

Ainda que haja um progresso considerável em termos de segurança, os trabalhadores da indústria de vestuário do país mantêm-se entre os que menos ganham a nível mundial, de acordo com dados da Fair Labour Association (FLA).

O salário mínimo é 66 (53,9 euros) dólares, abaixo da linha de pobreza de 85 dólares (69,4 euros) definida pelo Banco Mundial e dos 454 dólares (370 euros) estabelecidos pela aliança de trabalhadores Asia Floor Wage. Isso significa que muitos funcionários têm que trabalhar horas extra para complementar os seus salários, revela a FLA. Metade labora mais de 60 horas por semana, apesar dos efeitos prejudiciais na saúde desse tipo de atividade.

Michael Posner admite que iria custar 1,2 mil milhões de dólares (980 milhões de euros) a resolver os problemas nas unidades subcontratadas e defende que deveria ser criada uma task force para levar a cabo a sua contagem e perceber o que custaria melhorar a segurança. Além disso, reconhece, seria benéfico levar a cabo um fundo composto por contribuições das marcas, governos e diferentes instituições de caridade para ajudar a financiar as melhorias no sector, tendo em conta que são os principais compradores do vestuário barato produzido no Bangladesh.