Durante a convenção anual conjunta da International Textile Manufacturers Federation (ITMF) e da International Apparel Federation (IAF), produtores de algodão e representantes de instituições e marcas internacionais apelaram a uma reinvenção industrial baseada no crescimento económico com baixas emissões de gases com efeito de estufa, na produção circular e numa distribuição mais justa do valor, avança o Just Style.
Face aos custos crescentes associados às exigências climáticas, os líderes do setor lançaram um apelo unânime: a competitividade futura depende da sustentabilidade e da descarbonização.
O International Cotton Advisory Committee (ICAC) apresentou novas iniciativas para permitir que milhões de pequenos agricultores participem nos mercados de carbono e na agricultura regenerativa. «O nosso objetivo é ajudar os agricultores a ganhar mais não só através de maiores colheitas, mas também através da captura de carbono. Juntos, estes fatores podem triplicar o rendimento dos pequenos produtores e tornar a produção negativa em carbono», afirmou Eric Trachtenberg, diretor executivo do ICAC.
Na Índia e nos Camarões, o ICAC está a testar sistemas de créditos de carbono que recompensam os agricultores por práticas como compostagem, uso de biocarvão e gestão integrada de pragas. Os projetos-piloto em África já aumentaram os rendimentos em até 40% e melhoraram a saúde dos solos e a retenção de água.
No Brasil, Marcelo Duarte Monteiro, diretor de relações internacionais da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (ABRAPA), destacou que mais de 90% dos produtores utilizam inovações agrícolas, como a monitorização da irrigação por satélite e o recurso a biopesticidas, e que 92% do algodão é cultivado com água da chuva.
«A agricultura regenerativa é realmente o caminho a seguir. Aumenta os rendimentos, reduz custos e melhora a saúde do solo, diminuindo a dependência de fatores importados», sublinhou Marcelo Duarte Monteiro. O diretor de relações internacionais da ABRAPA acrescentou ainda que a produção de algodão é mais eficiente do que se pensa, salientando que «as pessoas costumam dizer que são necessários 20.000 litros para produzir um quilograma de algodão. O número real, com base nos dados do ICAC, é de cerca de 1.600 litros, e 75% desse volume provém da água da chuva».
Na Europa, a preocupação recai sobre regras demasiado complexas. «A Europa percebeu que, se avançarmos demasiado depressa rumo à sustentabilidade, arriscamos perder a nossa indústria», alertou Dirk Vantyghem, diretor-geral da Euratex.
Segundo Dirk Vantyghem, a estratégia têxtil da UE, adotada em 2022, vai introduzir 16 regulamentos sobre design, resíduos, rastreabilidade e diligência devida até 2029, mas a Comissão Europeia já procura equilibrar objetivos ambientais com resiliência industrial. «Precisamos de uma regulamentação inteligente e exequível, não de normas impossíveis de cumprir. Se os fabricantes europeus têm de seguir regras de sustentabilidade rigorosas, as importações também têm de as cumprir», afirmou o diretor-geral da Euratex.
Sustentabilidade asiática
De acordo com Yan Yan, diretora do China National Textile and Apparel Council (CNTAC), a China reduziu a intensidade das suas emissões em mais de 60% desde 2015. «O nosso setor costumava simbolizar a poluição. Agora faz parte da transição estruturada da China para o crescimento de baixo carbono», indicou.
Na Indonésia, Navdeep Sodhi, consultor da Gherzi Textil Organisation, observou que «isto não é desglobalização, mas sim reglobalização. O comércio está a reorganizar-se em torno da sustentabilidade e da integração regional. A Indonésia tem uma segunda oportunidade se se modernizar agora». Com três milhões de empregos e 11 mil milhões de dólares em exportações, a indústria têxtil e do vestuário indonésia, enfrenta, no entanto, dificuldades com equipamentos obsoletos e políticas inconsistentes.
Navdeep Sodhi identifica cinco tendências que estão a remodelar a indústria: maior procura por parte dos consumidores; novos polos produtivos em economias emergentes; normas obrigatórias de sustentabilidade; cadeias de valor digitalizadas; e integração vertical, da fibra ao retalho.
Para competir, salientou o consultor da Gherzi Textil Organisation, a Indonésia necessita de investir em tecnologia limpa, logística e formação profissional. «Os países que combinarem sustentabilidade com eficiência liderarão a próxima vaga da indústria global de manufatura», evidenciou.
Para competir, o país precisa de 15 mil milhões de dólares em novos investimentos até 2030, estima Prashant Agarwal, diretor-gerente adjunto da Wazir Advisors, metade dos quais destinados à renovação de maquinaria, com o objetivo de elevar as exportações a 40 mil milhões de dólares e criar cinco milhões de empregos.
Entre as empresas que já adotaram um modelo sustentável está a PT Pan Brothers Tbk, que integrou a automação, as energias renováveis e a redução de resíduos em todas as suas fábricas. Para Anne Patricia Sutanto, vice-presidente executiva da empresa, a responsabilidade ambiental e social «não é uma pressão das marcas. Fazem parte dos nossos valores». A empresa, que emprega 28 mil pessoas, maioritariamente mulheres, coopera com a International Labour Organisation (ILO) em projetos de inclusão e educação comunitária. Apesar do potencial, a instabilidade regulatória continua a preocupar os investidores e Anne Patricia Sutanto avisa que «a indústria precisa de previsibilidade» para poder expandir-se com confiança.
Do lado das marcas, Azlina Sulaiman, diretora de assuntos governamentais e públicos da Nike, defende uma maior coerência entre as políticas comerciais e os objetivos de sustentabilidade. «A Nike tem fornecedores em 37 países, através de 541 fábricas que empregam mais de um milhão de trabalhadores. Precisamos de regras consistentes que permitam o desenvolvimento da produção sustentável», declarou, acrescentando que «os acordos de compra direta de energia tornariam a produção mais ecológica e resiliente».




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