Disputa entre Tailândia e Camboja afeta indústria da moda

Os confrontos estão a ameaçar o setor do vestuário do Camboja, ao mesmo tempo que a Next e a Inditex se recusam a assinar um acordo que visa melhorar os salários e as condições de trabalho nas suas cadeias de aprovisionamento no país.

[©IndustriALL Union]

Em declarações ao Just Style, um especialista do setor sublinha que a disputa fronteiriça entre a Tailândia e o Camboja – que se comprometeram hoje com um cessar-fogo imediato – pode afetar os trabalhadores do setor do vestuário do país cambojano, com relatos a sugerir que o conflito resultou na transferência de dezenas de milhares de pessoas para centros de evacuação em ambos os lados da fronteira.

De acordo com Neil Saunders, analista de vestuário da GlobalData, o impacto no setor de vestuário dependerá da escalada da tensão e dos combates e da sua propagação para além das áreas fronteiriças. «Se isso acontecer, algumas fábricas e instalações de produção poderão ser danificadas. No entanto, o mais provável é que haja um impacto devido à deslocação ou indisponibilidade dos trabalhadores, o que seria especialmente prejudicial para a indústria transformadora do Camboja», acrescenta o analista.

Segundo o sindicato IndustriALL, a Inditex e a Next recusaram-se até agora a assinar um acordo histórico que apoiaria a negociação coletiva para a melhoria das condições de trabalho dos trabalhadores da indústria do vestuário do Camboja, apesar de terem ajudado a desenvolver a iniciativa e se terem comprometido publicamente com práticas comerciais responsáveis.

Os Cambodia Agreements fornecem um mecanismo juridicamente vinculativo para o apoio das marcas a um modelo padronizado de Acordo Coletivo de Trabalho, desenvolvido pelos parceiros sociais cambojanos. O modelo visa subir os salários, garantir melhores condições laborais e fortalecer as cadeias de aprovisionamento. Segundo o sindicato, doze grandes marcas globais já assinaram o acordo e o IndustriALL continua a envolver-se com outras empresas que se abastecem no Camboja.

O silêncio da Inditex e da Next

Na assembleia geral anual da Next, realizada a 15 de maio de 2025, Walton Pantland, diretor de campanhas do IndustriALL, interrogou os acionistas sobre a recusa da empresa em assinar o acordo, apontando que «os baixos salários continuam a ser um desafio sistémico na indústria do vestuário, agravado pela concorrência renhida. Nenhuma marca ou operador pode resolver isso sozinho. Uma estratégia salarial sustentável e eficaz deve envolver todas as partes interessadas, marcas, empregadores e trabalhadores». Apesar de não ter fornecido uma resposta detalhada, a Next indicou que «não poderia comprometer-se» com o acordo.

Já na assembleia geral anual da Inditex, Yot Seang, representante da Coligação do Sindicato Democrático dos Trabalhadores do Vestuário do Camboja e membro do comité sindical global da Inditex, deixou também a sua preocupação. «Vários investidores manifestaram interesse no Acordo Coletivo de Trabalho e perguntaram à IndustriALL por que razão a Inditex se recusa a assiná-lo. Os investidores estão preocupados com o facto de a Inditex estar a contribuir para o aumento da desigualdade no Camboja. Como é que a Inditex justifica a sua recusa em assinar o Acordo Coletivo de Trabalho, tendo em conta o seu compromisso declarado com a liberdade de associação, a negociação coletiva e salários justos, bem com o seu Global Framework Agreement com o IndustriALL?», questionou. Embora reafirme o seu apoio à negociação coletiva, a Inditex não abordou diretamente a sua hesitação em assinar o acordo, detalha o IndustriALL.

«Como resultado da recusa da Inditex em assinar, os trabalhadores da sua cadeia de aprovisionamento não receberão os benefícios do acordo vinculativo. Ao não assinar, a Inditex parece ter decidido conscientemente negar a esses trabalhadores salários dignos e melhores benefícios», afirma Yot Seang.

Além dos aumentos salariais, o modelo de Acordo Coletivo de Trabalho do Camboja inclui disposições para a licença maternidade prolongada, introdução da licença de paternidade, melhoria dos processos de resolução de disputas, promoção de relações industriais pacíficas e incentivo ao desenvolvimento de competências.

O IndustriALL revela que várias marcas líderes aderiram ao acordo, o que já facilitou a sindicalização em várias fábricas e levou a acordos coletivos que prometem melhores salários e condições laborais.

Para Atle Høie, secretário-geral da IndustriALL, é necessário «responsabilizar as empresas pelos seus compromissos, especialmente aquelas com Global Framework Agreements. Participar em longas negociações apenas para desistir no final compromete as suas ambições declaradas. O Acordo do Camboja tem o potencial de resolver uma das principais questões da indústria do vestuário: a corrida para o fundo do poço em termos de salários. A Next e a Inditex estão a minar anos de trabalho, apesar das suas declarações públicas. As ações falam mais alto do que as palavras. Os investidores devem analisar atentamente a discrepância entre o que estas empresas dizem e o que fazem».