Criatividade procura distribuição – parte III

As quatro questões principais:

 

1- O que se avalia numa colecção?

 

2- O que têm os portugueses neste âmbito?

 

3- O que falta?

 

4- É necessária, ou indispensável a comercialização/ rentabilização da colecção, e o eventualmass-market?

 

 

Vogue Francesa – Diane Pernet

Uma voz pessoal

 

1- Uma voz pessoal do seu criador, distintiva de tudo o resto que já se cria.

 

2-No têxtil e na moda os portugueses apenas têm uma boa capacidade de produção, pois em termos de criatividade os seus estilistas não se distinguem. Saliento apenas os sapatos.

 

3- Falta, como disse, criatividade pois já estive em eventos de moda portugueses várias vezes e o que fazem é muito parecido com o que os outros países fazem. Há no entanto uma excepção aqui em Paris, que é o trabalho de Felipe Batista (o vencedor do concurso de moda de Hyères em 2002). O país devia apostar mais na formação e internacionalização dos seus designers. O investimento não deve ser mais em termos de promoção, pois sei que os criadores portugueses têm muitos apoios, e nem sabem a sorte que têm. Digo em termos das escolas de moda, deviam contratar professores internacionais e depois porem os estilistas a viajar, talvez num estágio no fim do curso, para Milão, por exemplo.

 

4-É importante a comercialização, e sei que num dos eventos de moda do país juntam os estilistas e as empresas, mas penso que nas passerelles só deviam mostrar as suas próprias colecções, o seu lado mais criativo. Cada colecção tem peças mais arrojadas e peças menos criativas e mais vendáveis, mas na passerelle só deviam estar as mais vanguardistas.

 

Klar Text – Eugen Rapp

Promoção é essencial

 

1- Uma ideia nova, bons materiais e qualidade. Se a moda apresentada pelos designers for boa, todos repararão e se interessarão por ela.

 

2-São muito criativos e vê-se que os coordenados têm qualidade.

 

3 – Não basta serem criativos, as suas peças também devem ser vendáveis.

 

4- Sim. Mas para que tal aconteça, é essencial montar toda a máquina de promoção para poderem aparecer constantemente nas feiras, nos desfiles e nas revistas. Este passo deve ser com apoios das empresas ou do Estado, pois a maior parte não tem capacidade financeira para o fazer sozinho. Podemos constatar o mesmo problema com os jovens designer aqui na Alemanha. A comercialização virá precisamente depois dessa promoção. 

 

Centromoda On-line – Pepe Reblet

Grande futuro

 

1- Carisma, criatividade e um estilo próprio.

 

2- As características que mencionei, mas sobretudo nos designers de moda masculina.

 

3- Aos designers de moda feminina faltam as mesmas três qualidades, salvo algumas excepções.

 

4-Faz todo o sentido. A moda masculina «made in Portugal» tem um grande futuro se os designers se associarem a empresários também com futuro. E é essencial internacionalizarem-se, exportarem, para o que ao sucesso da pareceria se deve aliar um significativo investimento em marketing e publicidade. Ao que se poderá adicionar o apoio de Estado, ou de outras entidades. Esta internacionalização e o devido investimento podem até permitir a Portugal conquistar um espaço ocupado por países que já não têm nada a dizer no mundo da moda. É preciso realçar que Portugal tem bons empresários, habituados a trabalhar com as melhores marcas e com produtos de grande qualidade já há muitos anos, e agora tem designers profissionais, e ainda por cima jovens. Juntando estes aos primeiros, o país pode aspirar a um lugar destacadíssimo no mundo da moda, mas se de facto acreditarem nisso, se acreditarem neles próprios e se perderem o complexo de inferioridade. Finalmente, recordemo-nos que o Sul está na moda e é uma tendência que Portugal deve aproveitar.

 

TextilMitteilungen – Carla Wurdack

Grande futuro

 

1- Algo de novo, de criativo e de usável e comercializável.

 

2- Os autores portugueses têm muita criatividade, tem propostas muito interessantes e já se nota bastante profissionalismo. Os coordenados que conheço são muito bons, com bons acessórios, nota-se um bom uso da cor, e eu acho que se vendem.

 

3- Apenas duas críticas para dois aspectos a melhorar. Em termos de materiais as propostas não são muito diferentes das dos jovens designers dos outros países, e alguns dos coordenados não tem muita roupa, o que não só torna os desfiles aborrecidos com tantos modelos nus, como depois temos menos matéria para apreciar cada autor.

 

4- É essencial, mas é muito difícil montar a estrutura financeira necessária para conseguir vender as colecções dos designers, e é preciso ter mercado para que tal aconteça. Pelo que podemos constatar aqui na Alemanha, os designers são bons mas depois não têm capacidade financeira para ter uma loja onde possam vender as suas colecções, precisam de apoio, pelo menos no início. Estou a referir-me ao percurso dos mais conhecidos na Alemanha, que serão aí uns dez. Hoje em dia há muita roupa em todo o lado, há muitas lojas de vestuário, muitas revistas e muitas pro-postas, e é preciso ser realmente muito bom para se evidenciar neste mercado lotado, e conseguir vender. 

 

Textil Exprés – Olga Fernandez

Ideia e design diferentes

 

1- Uma ideia que seja nova, um novo design, particular, que seja marcadamente do próprio criador, que se diferencie. Os materiais também são importantes, mas os estilistas muitas vezes não conhecem a diversidade de materiais que já há pois as empresas portuguesas já produzem os melhores materiais e não os vemos nas passerelles. E depois tem de se ter sensibilidade e arte para saber manejar os tecidos. Se é uma passerelle, o criador tem de mostrar às pessoas criatividade e elegância, de preferência com um manequim que realce o produto.

 

2-Têm criatividade e tinham um grande percurso, mas neste momento o orgulho subiu-lhes à cabeça e parecem deuses, perderam a humildade. E mesmo a criatividade que os distinguia tem começado a esvanecer-se. Tenho falado com os outros jornalistas sobre as recentes colecções e ultimamente não acrescentam nada.

 

3- Para além da humildade, pois agora fazem ouvidos moucos a quem não os elogia ou os critica e deviam aprender com as criticas e com os erros que vão fazendo, falta também trabalhar a imagem.

 

4- A comercialização é importante, assim como as parcerias que Portugal tem promovido, pois dá frescura às colecções das empresas e os criadores também aprendem com os empresários.

 

Collezioni – Viviana Spinelli

Investir na formação

 

2-Tem havido muita criatividade nestes últimos anos, e os tecidos são melhores agora, mas deviam investir mais na formação e na evolução dos designers, pois nesta última edição eles já não evoluíram.

 

3-Falta essa evolução criativa, para chamar a atenção tem de se fazer algo de especial, o que não aconteceu. Há neste momento muitas colecções portuguesas que são muito parecidas com as dos estrangeiros, há que procurar a individualidade e a identidade que se perderam.

 

Global Fashion – Maite Ruiz-Atela

Materiais têm melhorado

 

2- Sobretudo criatividade, mas nota-se uma grande diferença entre as colecções de homem e as de mulher: as de mulher são mais arriscadas, mais vanguardistas. E nota-se uma evolução na escolha dos materiais, que têm melhorado nas recentes edições.

 

3- Falta uma coerência de percurso. Alguns apresentam ultimamente uma linha diferente das anteriores, sem seguir uma tendência.

                                                              

Dário Aldenecer  – Fotógrafo da Condé Nast (proprietária da Vogue)

Arriscam mais

 

Tem havido uma grande evolução. Nota-se mais garra. Os criadores arriscam mais. Há alegria nas colecções. Falta qualidade e coerência em algumas colecções de mulher. As de homem continuam ser muito clássicas. Os materiais são melhores.

 

Cassiano Ferraz – Fotógrafo de Moda

Gosto de roupa com bom corte

 

Num desfile, gosto de encontrar roupa com bom corte e bons tecidos, aliados a alguma originalidade – e de preferência roupa vestível. Muitas vezes faltam bom fabrico e bons tecidos. Vender, vender é a única forma dos criadores sobreviverem.