Capacitação acompanha a evolução da indústria

Perante os desafios da digitalização, escassez de competências, polivalência e internacionalização, a formação dos trabalhadores está a assumir um papel estratégico, como mostram a Confeções Guadalupe, a CBI, a Twintex e a Confeções Lança.

[©Confeções Lança]

A importância da formação para a transformação das empresas esteve no centro da talk “Capacitação para a internacionalização”, promovida pela ModaPortugal, que reuniu Pedro Guimarães, chefe da Unidade de Qualificação da Formação do Modatex, Joana Teodoro, cocoordenadora da licenciatura em Design de Moda da Escola Superior de Artes e Design (ESAD), Maria José Machado, administradora da Confeções Guadalupe, Paulo Júlio, diretor-geral da CBI, Vânia Correia, responsável de recursos humanos e da área social e corporativa da Twintex, e Rita Gaudêncio, diretora de recursos humanos da Confeções Lança.

Pedro Guimarães destacou o envelhecimento da força de trabalho como um dos principais desafios do setor. Com base em dados disponibilizados pela Euratex, estima-se que atualmente 45% das pessoas ativas da indústria têm mais de 50 anos, colocando pressão sobre a capacidade de transferência de competências.

A situação ganha relevância perante a aceleração da digitalização e da automação. «Como é que vamos transportar para os ativos do setor esta dinâmica que o digital está a trazer?», questionou, apelando a uma resposta assente no desenvolvimento de competências digitais e verdes, mas também em processos de upskilling e reskilling. Segundo o responsável do Modatex, cerca de 55% das empresas têm dificuldade em encontrar recursos para as áreas digital e das tecnologias de informação e comunicação.

Para Pedro Guimarães, a formação terá ainda de ser cada vez mais ajustada às necessidades concretas de cada organização. «Não há receitas generalizadas», afirmou, defendendo um trabalho «empresa a empresa» para identificar as competências necessárias à adoção de novas tecnologias e à adaptação dos trabalhadores aos novos processos.

A capacitação em contexto real foi também apontada como uma das respostas às necessidades da ITV. Entre os obstáculos identificados está, contudo, a falta de disponibilidade para a formação, tanto por parte dos trabalhadores como das empresas. «A formação profissional exige sempre tempo», sublinhou Pedro Guimarães.

Designers preparados para a mudança

Joana Teodoro sustentou, por sua vez, uma evolução do perfil de formação dos designers de moda, num contexto em que sustentabilidade, circularidade e tecnologia estão a alterar a própria natureza da atividade. «A indústria transforma a educação, mas aquilo que investigamos, que aprendemos na escola, também contribui para transformar a indústria», referiu. Para a docente da ESAD, o designer do futuro terá de combinar conhecimentos, competências e valores, com uma sólida base disciplinar e capacidade para compreender sistemas e estabelecer relações entre materiais, tecnologias, produção, mercado e a cadeia de valor. «Não se trata de saber tudo, trata-se de saber atuar na complexidade», resumiu.

A aproximação entre o ensino e as empresas surge, neste contexto, como uma condição para preparar profissionais para uma indústria que ainda está a mudar. Joana Teodoro defendeu que a formação inicial deve criar bases sólidas e desenvolver a capacidade de aprendizagem contínua, enquanto a experiência profissional permite contextualizar e atualizar conhecimentos. «O profissional faz-se através da profissão, não é propriamente na escola. A empresa é um lugar de aprendizagem», rematou.

Empresas procuram polivalência

Na mesa-redonda dedicada aos casos práticos, os representantes da Confeções Guadalupe, CBI, Twintex e Confeções Lança – que participaram no projeto ModaPortugal Skills III – convergiram na importância da formação para responder à escassez de competências e à necessidade de maior flexibilidade produtiva.

O aumento das faltas ao trabalho e a necessidade de reorganizar diariamente os postos de produção foram apontados como razões para o reforço da formação para a polivalência. Rita Gaudêncio esclareceu que a Confeções Lança tem hoje «cada vez mais faltas» e precisa de «ajustar os postos de trabalho praticamente todos os dias», pelo que a formação em polivalência «tem vindo a ajudar nesse sentido».

Na Confeções de Guadalupe, Maria José Machado descreveu a formação em contexto de trabalho como um «volte-face» na empresa. Com mais de 50 trabalhadores e cerca de 95% dos clientes nos mercados internacionais, a empresa passou a trabalhar a polivalência através da criação de equipas capazes de transitar entre corte, aplicação de fitas refletoras e inspeção de vestuário. «Felizmente o nosso absentismo não é muito elevado, mas a dinâmica do trabalho ao longo da semana, ao longo do mês e ao longo do ano varia bastante mediante o tipo de produto que temos em produção», explicou Maria José Machado.

Digitalização exige mudança cultural

A par da polivalência, a transição digital surgiu como outro dos principais eixos da intervenção formativa e Paulo Júlio colocou a transformação organizacional no centro do debate. «A formação é claramente uma das variáveis importantes para nós executarmos mudança, mas nós também sabemos que, seja qual for o setor ou a área profissional, todos gostamos de mudança desde que não seja connosco», afirmou, associando a transformação tecnológica à necessidade de uma nova cultura organizacional.

Na CBI, que produz vestuário para homem, senhora e criança, exportando para a UE, EUA, Japão e Médio Oriente, o processo passou pelo diagnóstico dos processos internos, pela concentração da informação e pela implementação de um ERP transversal às áreas comercial, logística, modelação e produção, além de ferramentas de gestão de informação no chão de fábrica. «A formação foi fundamental para disseminar esta cultura organizacional, nomeadamente neste processo de digitalização», apontou Paulo Júlio.

O diretor-geral chamou ainda a atenção para o papel das chefias intermédias. «Nós perdemos o melhor operador e ganhámos um péssimo chefe dos operadores», descreveu, criticando a prática de promover os melhores profissionais técnicos a funções de liderança sem garantir competências de gestão de pessoas.

Aprender para acompanhar a mudança

Na Twintex, que emprega pessoas de 16 países, a formação surge também associada à integração de trabalhadores de diferentes nacionalidades. Vânia Correia destacou as dificuldades relacionadas com a língua, mas sobretudo com diferenças culturais e formas distintas de trabalhar. A empresa, sediada no Fundão, recorre à formação em contexto de trabalho, acompanhamento próximo e interajuda entre trabalhadores, destacando também o papel do Centro de Migrações do Fundão no apoio à integração. «Não se trata apenas de integrar as pessoas, trata-se de construirmos uma equipa em que todos sintam parte dela», referiu.

Questionados sobre a competência mais determinante para a internacionalização nos próximos cinco anos, Vânia Correia destacou a «capacidade de aprender», num contexto em que tecnologias, mercados, clientes e profissões estão a mudar rapidamente. Paulo Júlio apontou a qualificação da gestão e das operações, defendendo que toda a organização deve conseguir «falar a mesma linguagem», enquanto Maria José Machado sublinhou a «capacidade de adaptação das pessoas» perante a evolução tecnológica.