ModaPortugal Skills III impulsiona transformação

O projeto formou mais de 2.400 trabalhadores de 31 empresas portuguesas da indústria do vestuário, superando as metas previstas e contribuindo para mudanças em eficiência, sustentabilidade e digitalização.

Promovido pelo CENIT – Centro Associativo de Inteligência Têxtil, no âmbito do Sistema de Incentivos à Qualificação de Recursos Humanos do Compete 2030, o projeto decorreu entre abril de 2024 e outubro de 2025 e apoiou 31 PME, abrangendo 2.452 trabalhadores, face aos 1.852 inicialmente previstos. No total, foram realizadas 307.922 horas de formação, ministradas pelo Modatex, distribuídas por 91 cursos e 14 áreas temáticas, incluindo eficiência e produtividade, transição verde e digital, inteligência artificial, internacionalização, vendas online, comunicação e marketing digital e liderança e motivação.

De acordo com o relatório de avaliação do projeto, elaborado pelo Centro de Estudos de Gestão e Economia Aplicada da Universidade Católica Portuguesa, em colaboração com a Faculdade de Economia da Universidade do Porto, o projeto superou as metas de empresas e trabalhadores abrangidos, embora tenha realizado uma carga horária de formação ligeiramente inferior à prevista.

Na talk “Capacitação para a Internacionalização”, inserida no ModaPortugal Talks, Alexandre Freitas, diretor executivo do CENIT, destacou dois resultados do estudo. «94,7% dos formandos consideraram-se mais aptos após a frequência das ações de formação e 93,3% das empresas participantes referem ter implementado alterações organizacionais associadas a estas ações formativas. Mais do que os números em si, estes resultados ajudam-nos a perceber uma coisa essencial: quando a formação está próxima da realidade das empresas, dos seus processos e das suas pessoas, pode traduzir-se em mudanças concretas. E mostra-nos também que este é um trabalho que está longe de estar concluído. As próprias empresas continuam a intensificar e identificar necessidades de capacitação em áreas tão distintas como as técnicas e a organização da produção, as competências digitais, a transição verde e as chamadas soft skills», sublinhou.

Segundo Bernardo Marques, coautor do relatório de avaliação do ModaPortugal Skills III, a avaliação combinou questionários online a 30 empresas e a 1.890 formandos, com sete entrevistas a PME participantes.

A formação esteve sobretudo concentrada na eficiência e produtividade, que representaram cerca de 60% das horas realizadas. A transição verde ganhou, contudo, peso face ao previsto, com as horas dedicadas a esta área a ficarem cerca de 50% acima das inicialmente previstas. Já a digitalização permaneceu menos prioritária, tendo sido realizadas apenas cerca de um terço das formações inicialmente previstas nesta área. Na transição verde, 27 referiram alterações, incluindo redução do desperdício, auditorias internas para monitorização de consumos, critérios mais rigorosos na aquisição de equipamentos e desenvolvimento de produtos com materiais reciclados ou destinados ao reaproveitamento.

Entre os testemunhos recolhidos, destacam-se ganhos de eficiência no chão de fábrica e a redução de peças com defeito em «mais de 70%» numa das empresas visitadas. Noutra, a formação serviu para validar e avançar com a criação de uma linha própria de têxteis produzidos a partir de materiais reciclados ou reaproveitados, uma ideia que a empresa já tinha antes da ação formativa. No plano digital, uma empresa de confeção para private label, com cerca de 50 trabalhadores, eliminou por completo o papel na sala de corte, num processo de formação que, nas palavras de Bernardo Marques, «catalisa, arranca com o processo e acompanha a empresa neste caminho».

Capacitação continua necessária

A avaliação conclui que a formação teve impacto também na organização das equipas. Segundo os testemunhos recolhidos, a maior polivalência entre secções permitiu criar capacidade de substituição para responder a situações de absentismo, enquanto a formação ajudou ainda a identificar trabalhadores com potencial para progressão para funções de gestão intermédia.

Apesar dos resultados positivos, 29 das 30 empresas que responderam ao questionário indicaram continuar a ter necessidades de formação. As técnicas e organização da produção permanecem como principal prioridade, enquanto a transição digital surge já como a terceira área mais procurada.

Bernardo Marques partilhou ainda sugestões de melhoria apontadas pelas empresas para futuras edições, nomeadamente a criação de formações interempresas para funções muito especializadas, a concentração das sessões no tempo para acelerar a aplicação dos conhecimentos e o acesso mais célere aos incentivos financeiros.

A equipa de avaliação defende, em particular, uma maior articulação entre capacitação e investimento. «Criar-se um produto, um apoio, um incentivo em que as duas componentes de formação e investimento estivessem de mãos dadas», propôs Bernardo Marques, referindo-se à necessidade de apoiar simultaneamente a formação e a transição digital das empresas.

Face às duas edições anteriores, o ModaPortugal Skills III aumentou em 63,2% o número de empresas apoiadas, em 42,7% os trabalhadores abrangidos e em 48,5% as horas de formação. A satisfação manteve-se elevada, com 28 das 30 empresas que responderam ao questionário a declararem-se satisfeitas ou muito satisfeitas e 24 afirmaram que recomendariam sem hesitar a participação no projeto.

Para Alexandre Freitas, os resultados devem servir também para preparar a próxima fase da indústria. «Se queremos uma indústria portuguesa da moda mais internacionalizada, capaz de conquistar novos mercados, chegar a novos clientes e reforçar a sua posição nos mercados onde está, temos necessariamente de continuar a investir naquilo que sustenta esta competitividade, o conhecimento, as competências e as pessoas», salientou.