Sustentabilidade desafia ITV portuguesa

As empresas vimaranenses Fermir, Somelos, Têxteis Penedo e Trimalhas reuniram-se em Guimarães para debater inovação, circularidade e sustentabilidade na ITV, defendendo maior valorização do setor, redução do desperdício e adaptação às exigências europeias.

Joana Campos Silva, Isabel Loureiro, Alberta Marimba, Daniela Xavier, Sandra Ventura e Carolina Pinto

Sob o tema “Inovação e Sustentabilidade na Indústria Têxtil e do Vestuário na Capital Verde”, a ModaPortugal Talks, integrada na programação de Guimarães 2026 – Capital Verde Europeia, decorreu no dia 22 de maio, no Laboratório da Paisagem, revelando um setor em transformação, mas confrontado com dificuldades de captação de talento e um esforço crescente de certificação que nem sempre encontra equivalência nas exigências impostas aos concorrentes internacionais.

Dalila Sepúlveda, diretora do Departamento de Ambiente da Câmara Municipal de Guimarães, contextualizou a dimensão do problema à escala global e local, apontando que, a nível mundial, a indústria têxtil é responsável por cerca de 10% das emissões globais de carbono e consome aproximadamente 92 mil milhões de metros cúbicos de água. Em Guimarães, «cerca de 11% da composição física dos resíduos urbanos correspondem a têxteis pós-consumo», afirmou, defendendo que estes materiais representam «um recurso com elevado potencial de reintegração na economia circular» e não um resíduo sem valor.

Dalila Sepúlveda

A diretora do departamento de ambiente da Câmara Municipal de Guimarães sublinhou ainda que prolongar a vida de uma peça de vestuário em apenas seis meses pode significar «a poupança entre 1.000 e 1.700 litros de água» e uma redução de 3 a 5 quilogramas de emissões de carbono, evitando uma nova produção industrial completa. O município tem desenvolvido projetos concretos de circularidade, incluindo a reutilização de têxteis pós-consumo recolhidos em escolas, a produção de tote bags e mantas a partir desses materiais e uma parceria com o estabelecimento prisional local para a recuperação e valorização de resíduos têxteis.

Isabel Loureiro

Isabel Loureiro, membro da direção de Guimarães 2026 – Capital Verde Europeia, acrescentou uma perspetiva que coloca a responsabilidade diretamente nas empresas. «Quando estávamos a contabilizar as emissões de Guimarães como um todo, percebemos que 94% das emissões provêm da atividade extramunicipal, sendo a maior parte da responsabilidade dentro do setor privado da indústria», esclareceu, sublinhando que tudo o que as empresas fazem, incluindo ao nível da logística e da cadeia de valor, tem impacto na qualidade de vida dos cidadãos.

Isabel Loureiro recordou ainda que a economia circular não é um conceito novo para o setor. «A primeira vez que ouvimos, numa rede europeia, o conceito de economia circular foi em 2015, quando a Comissão Europeia começou a usar o chavão da economia circular. E, portanto, ninguém sabia o que era, mas muitos já faziam aquilo que se diz economia circular. Não, se calhar, pelo motivo que hoje fazemos, mas por outros motivos, nomeadamente pelo motivo do custo das matérias-primas e o custo do desperdício», referiu.

Clientes à frente da legislação

A relação entre as exigências do mercado e o quadro regulatório europeu foi um dos temas abordados, com as empresas a reconhecer que são frequentemente os clientes, e não a legislação, a ditar o ritmo da mudança.

Daniela Xavier, diretora-geral da Fermir, assumiu que «o processo de gestão ao nível da sustentabilidade é mais orientado pelo cliente do que propriamente pela legislação». A empresa, que tem uma «exposição considerável ao grupo Inditex», estabeleceu como meta a redução da pegada de carbono em 4,2% até 2027, uma exigência que vai «muito além da legislação europeia».

Esta pressão, reconheceu a diretora-geral, acaba por funcionar também como uma vantagem competitiva, uma vez que «é um processo de aprendizagem. No fundo, estamos sempre à frente», o que «permite depois alavancar e entrar noutros mercados».

Sandra Ventura, responsável de I&D da Têxteis Penedo, ilustrou como a inovação e a sustentabilidade sempre caminharam lado a lado na empresa, muito antes de se tornarem uma obrigação. O Cork-a-Tex, um fio revestido com cortiça, começou a ser pensado em 2013, «quando ainda não se falava de economia circular e sustentabilidade», por razões simultaneamente económicas e ambientais.

Já Alberta Marimba, diretora comercial da Somelos, trouxe ao debate uma perspetiva semelhante, sublinhando que a utilização de fios reciclados, hoje apresentada como inovação de mercado, é uma prática corrente há várias décadas. «Na Somelos, fazem-se fios reciclados há mais de 50 anos, só que não se chamavam reciclados, eram aproveitamentos de desperdícios», observou, acrescentando que a narrativa em torno da sustentabilidade transformou a perceção de práticas há muito enraizadas na indústria.

Quanto à concorrência internacional, a diretora comercial da Somelos evidenciou que «a qualquer empresa portuguesa é exigida um sem-fim de certificações e aquilo que é exigido aos outros não está em linha com o que nos é exigido a nós». Alberta Marimba considera que Portugal é atualmente «o forte da indústria têxtil europeia», mas que esse estatuto implica uma carga regulatória que, por exemplo, os concorrentes asiáticos ou turcos não enfrentam, criando «uma luta desigual» também ao nível do preço.

Carolina Pinto, do departamento comercial da Trimalhas, apontou a comunicação como uma resposta possível a esta pressão. «Podemos fazer um bom produto, mas se não soubermos comunicar, os benefícios não vão chegar ao cliente», clarificou, defendendo que a diferenciação passa por saber articular a história da marca, o impacto ambiental e a funcionalidade do produto junto do consumidor final.

Pessoas, talento e responsabilidade social

O debate sobre sustentabilidade alargou-se à dimensão social das empresas, em particular à dificuldade crescente de atrair e reter talento para uma indústria que continua a ser percebida como pouco apelativa pelas gerações mais jovens.

Daniela Xavier descreveu que a Fermir enfrenta atualmente um paradoxo porque «os jovens não estão à procura de trabalho nem de emprego, estão à procura de desafios e de satisfação imediata». A empresa responde apostando na multidisciplinaridade das equipas para garantir continuidade operacional, mas reconhece que a rotatividade se tornou uma realidade com a qual tem de aprender a conviver.

Também Alberta Marimba admitiu que o recrutamento de perfis especializados se tornou um desafio, por exemplo para montador de teias, que exige cerca de 10 anos de experiência. «Nós, quando introduzimos alguém para ser tecelão, queremos que esta pessoa venha a ser um montador de teias. E 10 anos é um tempo de vida gigante, é uma monstruosidade. Como é que isso pode ser atrativo para alguém jovem?», questionou. A empresa procura responder com boas condições de trabalho, da estabilidade e da identificação com os valores da organização.

No mesmo sentido, Carolina Pinto defende uma maior aproximação dos jovens à indústria têxtil e do vestuário através da inovação e da valorização das carreiras no setor, rematando que «funcionários felizes são funcionários produtivos».