Russos cinzentos na passerelle

Modelos sem joias, com maquilhagens pálidas e com penteados simples desfilaram com saias e vestidos longos em tons escuros, embrulhados em camisolas e casacos grossos em cinzento nas apresentações de alguns dos mais conhecidos designers russos, que desfilaram na Semana de Moda de Moscovo, que decorreu de 21 a 25 de março. Os designers afirmaram que as cores monótonas e as coleções austeras da Semana de Moda refletem o humor atual da sociedade russa, que teve um inverno de descontentamento, cheio de manifestações em massa até e após as eleições presidenciais ganhas por Vladimir Putin. As manifestações, que começaram após as eleições parlamentares do dia 4 de dezembro e decorreram até depois das eleições presidenciais de 4 de março, levaram mesmo a “it girl” russa Kseniya Sobchak a trocar as suas roupas normalmente extravagantes e berrantes por uniformes em cinzento, preto e branco. A designer Julia Nikolaeva apresentou uma linha “sem-abrigo”, com modelos vestidos com camisolas em azul e-curo e preto, calças clássicas ou saias compridas em castanho, a saírem debaixo de caixotes ou jornais espalhados pela passerelle, cobertos por neve artificial. Na sua estreia de, Maroussia Zaytseva apresentou vestidos minimalistas dos anos 60 em cores frias, usados pelas modelos com cabelos molhados e sobrancelhas brancas. O desfile teve por base a história de uma aterragem de emergência e as modelos encarnaram o papel de sobreviventes a emergir da água gelada como zombies. «Criei as imagens na altura em que os aviões caíram, os barcos estavam a afundar-se e tudo estava horrível», explicou a designer de 17 anos. «Nesses momentos começamos a perceber que tudo é frágil. Mas na minha história, toda a gente sobreviveu, porque penso que tem de haver esperança», acrescentou. No verão passado, um barco russo chamado Bulgaria afundou-se no rio Volga, matando mais de 100 pessoas. Dois aviões caíram mais ou menos na mesma altura – um matou mais de 40 pessoas em Petrozavodsk, no norte da Rússia, em junho, e outro matou toda a equipa de hóquei no gelo do Lokomotiv Yaroslavl no aeroporto perto de Yaroslavl, na parte ocidental da Rússia, em setembro. Mesmo o guru de estilo mais extravagante da Rússia, Slava Zaytsev, avô de Maroussia, que celebrou 50 anos na semana de moda anterior, escolheu trocar este ano os seus vestidos coloridos e volumosos, muitas vezes ornamentados pelo estilo tradicional russo, que são já uma imagem de marca, por fatos de negócios cinzentos ou vestidos de noite simples em seda ou veludo para mulher e fatos em caxemira xadrez para homem. «Os clássicos são sempre de bom gosto, são sempre confortáveis e adequados», afirmou Zaytsev em relação à sua coleção, inspirada pelo designer francês Paul Poiret a quem se atribui a libertação das mulheres dos corpetes no início do século passado. Zaytsev chama à sua coleção «super-moderna, clara, viável, clássica, com muitas peças pronto-a-vestir», que, segundo indicou, fez sobretudo a pedido dos seus clientes. «Já não estou interessado em surpreender ninguém após 50 anos na moda, quero apenas fazer roupa de boa qualidade», declarou, deixando a inovação para os seus sucessores – o seu filho Yegor Zaytsev, a sua neta Maroussia, assim como muitos estudantes presentes na Semana de Moda. Os temas do protetor e do guerreiro – um homem forte – dominaram as coleções para homem, num esforço de apelar mais aos gostos dos homens locais do que ao resto do mundo. Leonid Alexeyev fez um desfile dedicado inteiramente ao vestuário de homem, oferecendo sete minutos de visuais cuidados com fatos em preto e branco – muitos em pele brilhante – complementados com chapéus cinzentos desportivos. «Nós (designers russos de vestuário de homem) estamos a abrir lentamente o segredo da alma do homem russo – uma alma pesada e complicada, mas ao mesmo tempo muito interessante», explicou Alexeyev. Embora as tendências da passerelle contradigam o estilo nas ruas de Moscovo, onde cada vez mais homens saem com calças justas, lenços, óculos de sol coloridos e malas em pele refinadas, o conservadorismo irá inevitavelmente tomar conta do mundo masculino, acredita Alexeyev. «A brutalidade está a ser procurada pelos homens locais. Eles gostam de ser duros, não gostam de parecer na moda», concluiu.