Primark avança para a independência

A Associated British Foods anunciou a decisão de avançar com a separação do seu negócio de retalho do negócio alimentar, num processo que deverá ficar concluído até ao final de 2027, numa altura em que anunciou novo crescimento das vendas da Primark.

[©Primark]

A decisão surge na sequência de uma revisão aprofundada da estrutura do grupo, iniciada em novembro de 2025, e contou com o apoio da Wittington Investments, principal acionista da ABF, que pretende manter uma posição maioritária tanto na Primark como na futura entidade alimentar, que continuará a designar-se Associated British Foods (ABF).

Segundo a administração, a separação permitirá uma maior especialização estratégica e uma proposta de valor mais clara para investidores. A operação dará origem a duas empresas independentes e cotadas em bolsa, com os atuais acionistas a manterem participações em ambas. Entre os principais benefícios apontados estão uma supervisão mais alinhada com as dinâmicas específicas de cada setor, maior transparência e uma responsabilização mais direta perante acionistas com interesses distintos.

«O conselho terminou a revisão da estrutura e concluiu que a separação da Primark é a melhor forma de maximizar os retornos de longo prazo para os acionistas, refletindo a dimensão atual da Primark e a necessidade de uma melhor compreensão do negócio alimentar», afirma Michael McLintock, presidente do conselho de administração da ABF. «As oportunidades tanto para a Primark como para a FoodCo são consideráveis e acreditamos firmemente que cada uma prosperará como entidade independente», acrescenta.

Com 486 lojas em 19 mercados, um volume de negócios de cerca de 9,5 mil milhões de libras (10,96 mil milhões de euros) e mais de 83 mil colaboradores, a Primark tem sido um dos principais motores do grupo.

Para George Weston, CEO da ABF, «este é um passo importante na evolução da ABF. Para o nosso negócio alimentar, a separação permitirá uma melhor compreensão da amplitude e força do nosso portefólio diferenciado e das suas oportunidades de crescimento a longo prazo enquanto único produtor alimentar no FTSE100. Para a Primark, permitirá criar uma estrutura de governação adequada para maximizar o futuro potencial da sua marca, forte proposta ao consumidor e oportunidades em mercados existentes e novos», sublinha.

A operação deverá ser concretizada através de um dividendo em espécie e implicará custos únicos estimados em cerca de 75 milhões de libras, além da diminuição de sinergias com um custo anual inferior a 45 milhões de libras. Ambas as empresas deverão integrar o índice FTSE 100 após a sua admissão à bolsa de Londres.

No plano executivo, George Weston deverá assumir a liderança da área alimentar, enquanto Eoin Tonge será designado CEO da Primark. A atual liderança manter-se-á durante o período de transição para garantir a estabilidade do processo.

Crescimento no primeiro semestre

Nas primeiras 24 semanas do ano fiscal, a retalhista de moda registou um crescimento de 2% nas vendas, impulsionado sobretudo pela expansão da rede de lojas, num período marcado por um contexto de consumo desafiante na maioria dos mercados.

A Primark beneficiou da abertura de novos espaços comerciais, que contribuíram com cerca de 4% para o crescimento das vendas. No mercado britânico, o desempenho foi positivo, com as vendas comparáveis a aumentarem 1,3%. Já na Europa Continental, as vendas comparáveis recuaram 5,6%, refletindo também o facto de as iniciativas de revitalização estarem ainda numa fase inicial de implementação.

A ABF destaca sinais encorajadores no Reino Unido, onde a aposta na melhoria da oferta, perceção de preço e envolvimento digital já começa a dar frutos. Estas iniciativas estão agora a ser replicadas na Europa, com a expectativa de contribuírem para uma melhoria do desempenho ao longo dos próximos períodos.

Para o conjunto do ano, a Primark antecipa que a expansão da rede na Europa, EUA e através de franchising continue a ser um motor relevante, devendo contribuir com cerca de 4% para o crescimento das vendas em 2026.

O arranque da coleção primavera-verão revelou-se positivo em março, mas abril trouxe um abrandamento, com impacto do conflito no Médio Oriente no comportamento do consumidor.

«Continuamos a prever que a margem de lucro operacional ajustada para o conjunto do ano se situe em cerca de 10%. Com base na informação atualmente disponível, esperamos que os impactos nos custos decorrentes do conflito no Médio Oriente sejam controláveis em 2026, graças às nossas estratégias de cobertura e medidas de mitigação. No entanto, mantemo-nos atentos a uma eventual deterioração adicional do consumo e aos impactos de mais longo prazo nos custos, nomeadamente ao nível da energia, transporte e matérias-primas têxteis, que dependerão da duração da disrupção», conclui a ABF.