Intitulado “Small microplastics and microfibers found in high concentrations around Kantamanto, the world’s largest secondhand textile market in Accra, Ghana: A citizen science study”, o estudo, conduzido por investigadores da Universidade da Califórnia em San Diego e da The Or Foundation, analisou a presença de microfibras têxteis e microplásticos no ar e na água junto ao mercado de Kantamanto, que recebe cerca de 15 milhões de peças de vestuário por semana provenientes de países do Norte Global.
As amostras de ar recolhidas no interior do mercado, a dez metros de altura, registaram entre 100 e 700 microplásticos por metro cúbico e entre 3 e 30 microfibras por metro cúbico. Segundo os autores, estes valores representam concentrações de microplásticos aproximadamente 100 vezes superiores às observadas em Xangai, níveis de microfibras cerca de 20 vezes superiores aos registados na mesma cidade chinesa e cerca de 125 vezes acima dos reportados nos Alpes franceses.
Nas águas da Lagoa Korle, adjacente ao mercado, foram registadas concentrações até 45 vezes superiores de microfibras e até 200 vezes superiores de microplásticos face às observadas noutras lagoas a nível mundial.
«Imaginem uma nuvem ou cúpula que permanece sobre os têxteis, por vezes movendo-se com o vento. E quando chove tudo regressa ao solo. Os primeiros 20 minutos de chuva estão carregados de microfibras», explica Dimitri Deheyn, biólogo marinho e investigador principal do estudo, ao Sourcing Journal.
De acordo com os investigadores, a atividade do mercado e a acumulação de resíduos têxteis constituem uma fonte relevante de poluição atmosférica e aquática. O estudo refere que as peças de vestuário danificadas ou sem valor comercial são frequentemente descartadas e acumulam-se em grandes montes de resíduos, podendo ser queimados para libertar espaço. A monitorização contínua da qualidade do ar revelou elevadas concentrações de partículas em suspensão nas áreas do mercado, com reduções temporárias durante os episódios de chuva. As amostras de água da chuva continham dezenas a centenas de microfibras e microplásticos, cuja concentração aumentava após períodos prolongados sem precipitação.
«Sabia que haveria partículas no ar, mas os números são muito alarmantes, especialmente quando passámos da estação seca para a época das chuvas. Temos estado a inalá-las todo este tempo», refere Joe Ayesu, responsável pela ciência cidadã na The Or Foundation e coautor do estudo.
Rasto dos resíduos
Os investigadores identificaram ainda uma ligação entre os resíduos têxteis descartados no mercado e os encontrados nas praias próximas. A análise das etiquetas de 172 peças recolhidas como resíduo em Kantamanto e de 128 peças encontradas nas praias revelou uma correspondência significativa entre as marcas presentes nos dois locais. As dez marcas mais representadas foram Marks & Spencer, Primark, George (da Asda), Tu (da Sainsbury’s), Next, Boohoo Group, F&F (da Tesco), H&M Group, New Look Group e GAP, responsáveis por até 77% dos artigos identificados no mercado e 63% nas praias.
Para Dimitri Deheyn, os resultados demonstram que os resíduos descartados no mercado acabam por chegar à Lagoa Korle e, posteriormente, ao litoral. «Isso mostra que as peças de vestuário descartadas nos mercados acabam por fazer o seu caminho através da lagoa e depois até à praia», indica. «A poluição difunde-se», acrescenta o biólogo marinho.
A The Or Foundation defende que os mecanismos de responsabilidade alargada do produtor devem acompanhar o percurso das peças de vestuário até aos seus destinos finais, contribuindo para financiar a mitigação dos impactos ambientais gerados pelo excesso de resíduos têxteis. Katia Osei, responsável pela justiça ambiental da The Or Foundation, considera que a crise ultrapassa a simples acumulação de vestuário descartado. «A crise dos resíduos têxteis é muito mais multifacetada do que imaginamos. Não se limita apenas a “há tanta roupa que não sabemos o que fazer com ela”. Este vestuário tem implicações reais na saúde de toda a população de uma cidade, até mesmo de gerações inteiras de pessoas», sublinha.
Os autores consideram que este é o «primeiro estudo a estabelecer uma relação estreita entre os resíduos de fast fashion a céu aberto e a libertação de pequenos microplásticos e microfibras para o ambiente, tanto no ar como na água». O estudo conclui que as comunidades que recebem grandes volumes de vestuário usado estão a suportar uma carga ambiental desproporcionada associada ao sistema global de resíduos têxteis, reforçando «a necessidade de enquadramentos regulamentares mais abrangentes para abordar os resíduos têxteis».




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