Vestuário em segunda mão falha na circularidade

Um estudo da Fashion for Good revela que 37% das peças analisadas em quatro países europeus não apresentavam qualquer dano, mas o sistema de segunda mão não consegue capturar esse valor, transferindo os custos financeiros e ambientais para os países importadores.

[©Unsplash-Luba Glazunova]

Intitulado “Sorting for Circularity: Project Rewear” e publicado pela Fashion for Good em parceria com a Circle Economy e retalhistas como a Adidas, Inditex, Levi Strauss e Zalando, o estudo resulta de uma iniciativa de 18 meses lançada em janeiro de 2024 e constitui, segundo os autores, o retrato mais completo até à data do sistema global do vestuário em segunda mão.

O projeto analisou 8.280 peças de vestuário em quatro países europeus, nomeadamente Lituânia, Países Baixos, Polónia e Espanha, e concluiu que 37% não apresentavam danos e 41% tinham apenas pequenas imperfeições. Ainda assim, o estado físico não é o principal fator que determina o valor de revenda, mas sim as tendências de moda e as marcas associadas às peças.

Os autores concluem que «não estamos a deitar fora coisas estragadas. Estamos a deitar fora coisas das quais simplesmente já não precisamos», apontando a sobreprodução e a rápida rotação de tendências como fatores centrais do desperdício têxtil.

O relatório denuncia ainda uma opacidade sistémica no comércio internacional de têxteis. Artigos de «má qualidade ou culturalmente inadequados» são frequentemente exportados sob o código aduaneiro HS 6309, reservado a vestuário usado, para contornar regulamentações mais exigentes em matéria de resíduos. No mercado de Kantamanto, no Gana, onde se estima que cheguem 15 milhões de peças de vestuário por semana, os comerciantes que adquirem esses fardos não têm forma de saber antecipadamente o seu conteúdo, acabando por suportar os custos financeiros e ambientais associados às peças inutilizáveis.

No que diz respeito à reparação, os resultados indicam que, num projeto-piloto europeu, apenas 18 das 164 peças analisadas alcançaram uma margem positiva após intervenção, ou seja, um preço de revenda superior ao custo total da reparação. A reparação só se revela economicamente viável em categorias de maior valor, como vestuário de exterior e denim.

De acordo com o relatório, a tecnologia surge como uma das principais alavancas de mudança. A triagem automatizada com recurso a inteligência artificial, testada num dos projetos-piloto, pode aumentar a produtividade em 40% e ampliar os lucros de uma instalação de triagem de média dimensão de zero para 6,5 milhões de euros por ano.

O relatório alerta, porém, que a expansão dos modelos de negócio de revenda não será suficiente sem uma redução simultânea da produção de vestuário novo. Sem medidas a montante que travem «o modelo extrair-fabricar-desperdiçar», a reutilização arrisca tornar-se um mercado paralelo que coexiste com a exploração ambiental, em vez de a contrariar.

Entre as recomendações constam a integração da revenda como objetivo empresarial central por parte das marcas, a introdução de taxas de responsabilidade alargada do produtor ajustadas a critérios ecológicos por parte dos decisores políticos e o financiamento transfronteiriço para apoiar os intervenientes nos países que recebem as exportações, como o Gana e o Paquistão.