«Olhamos para a sustentabilidade mais como uma preocupação»

Fundada em maio de 1986, a Filasa tem apostado em artigos sustentáveis, sendo as fibras recicladas um dos recursos que usa há vários anos para criar fios mais amigos do ambiente. Uma mais-valia da empresa, como refere a administradora Fátima Antunes, que se junta à flexibilidade e rapidez, permitida pelos seus recursos internos.

Fátima Antunes

As fibras recicladas integram a nova coleção da empresa, que se pauta pela inovação a que a empresa já habituou os seus clientes, conseguida graças à tinturaria própria, à tecnologia de ponta, ao know-how dos recursos humanos e à qualidade inerente aos produtos e aos serviços prestados, como enumera Fátima Antunes.

Como surgiu a aposta nos reciclados dentro da Filasa?

Já trabalhamos há bastante tempo as fibras recicladas, até porque uma grande fatia da nossa produção é dedicada à sustentabilidade. Trabalhamos fundamentalmente algodões orgânicos em misturas com algodão reciclado. Não temos as máquinas para reciclar, compramos o algodão reciclado; trabalhamos também bastante com poliéster reciclado e com todas as outras fibras com menor pegada ambiental, como o liocel. Vamos tendo sempre uma preocupação bastante grande para que sejam fibras sustentáveis. Estamos com alguns ensaios e alguns desenvolvimentos de diversas fibras para serem apresentadas na Première Vision, com incidência na biodegradabilidade. A nossa preocupação não passa só a nível da sustentabilidade e a nível da reciclagem, mas também a biodegradabilidade que as fibras possam ter.

Têm alguma iniciativa para dar uma nova vida aos vossos desperdícios?

Fazemos o aproveitamento dos cortes dos roupões e da roupa de cama, que entregamos a empresas de reciclagem. Essas empresas transformam em rama e depois nós usamos, em mistura com rama virgem para lhe dar resistência, em fios.

Sente um aumento de procura por fios com este tipo de fibras, nomeadamente as recicladas?

Há, de facto, uma procura muito maior. A partir do momento em que grandes grupos como a Inditex e a Next querem ter, até 2023, os artigos que estão a comercializar só assentes em produtos sustentáveis, a procura acaba por crescer bastante. Os algodões orgânicos estão a preços incomportáveis, nem conseguimos ter as quantidades que precisamos – usamos algodão BCI (Better Cotton Initiative), que tem como objetivo melhorar as práticas de produção de algodão a nível mundial, ou de Fair Trade. A Filasa foi a primeira empresa em Portugal a aderir à iniciativa BCI. Temos também as certificações GOTS, Oeko-Tex, OCS e GRS.

A sustentabilidade já é negócio?

Olhamos para a sustentabilidade mais como uma preocupação do que como um negócio, porque se não vendermos produtos orgânicos, reciclados ou sustentáveis no geral, estamos a vender artigos convencionais. Mas a nossa preocupação passa por podermos colocar no mercado os produtos que sejam mais amigos do ambiente e aqui temos também a preocupação com as águas, porque temos uma tinturaria com 36 máquinas onde a nossa preocupação passa pela redução do consumo e pelo tratamento da água através da nossa ETAR.

As fibras sustentáveis estão em destaque na nova coleção da Filasa para a primavera-verão 2023?

Sim, na Première Vision vamos apresentar uma coleção com uma incidência cada vez maior a nível das fibras biodegradáveis. A nossa coleção assenta bastante na sustentabilidade dos produtos e depois temos algumas misturas interessantes, como com SeaCell.

O que motivou a decisão de estarem na Première Vision?

Pensámos bastante e chegámos junto dos nossos clientes, quer cá em Portugal, quer também em Espanha, para ver até que ponto é que havia uma representação da parte deles. Reparámos que estavam bastante divididos, mas encontrámos, mesmo assim, uma quantidade superior dos que iam marcar presença do que aqueles que estavam indecisos e que não iam. E também achámos que é altura de começarmos a ter o contacto físico com os clientes e a entrar um pouco na normalidade.

De que forma apresentaram as coleções no ano passado, sem as feiras?

Durante este tempo em que não foi possível apresentar fisicamente, tivemos uma divulgação através de um QR Code e de um filme, que mandámos para todos os nossos clientes para que eles pudessem visualizar algumas tendências daquilo que estávamos a fazer a nível de misturas, a nível das fibras, dos fios que estávamos a produzir.

Como está a inovação integrada no negócio?

Há cerca de cinco anos fizemos uma aposta forte na investigação e desenvolvimento de novos produtos, uma atividade em que estamos certificados. E cada vez mais clientes procuram este departamento para desenvolver produtos inovadores, onde além de investigarmos novos materiais e misturas, fazemos pesquisa, em conjunto com os nossos clientes, para que os produtos finais sejam uma realidade. Também temos parcerias nesta área. Fizemos, por exemplo, uma parceria com a Universidade do Minho, em que criámos um fio condutor para ser integrado em roupa de cama de criança que alertava os pais quando havia humidade, como urina ou muita transpiração. Esta é, sem dúvida, uma área onde vamos apostar cada vez mais.

A Filasa celebra, em 2021, 35 anos de atividade. Quais foram os momentos mais marcantes neste percurso?

Ao longo destes anos passamos muitas dificuldades, mas com enorme sacrifício temos conseguido manter-nos. Foi sempre uma empresa muito bem estruturada, o que lhe permitiu aguentar as diversas tempestades que enfrentou. A Filasa foi criada para responder às necessidades da Lasa e desde logo fez um forte investimento nas instalações em máquinas de fiação open-end, o que permitiu apostar na diversidade de produtos. E foi crescendo de forma gradual, no sentido de dar as melhores respostas às necessidades dos clientes. Entretanto, investimos também na produção de fios penteados compact e airjet, sendo que estes últimos podem ser produzidos em diversas fibras e misturas e são fios isentos de piling, o que evita a operação de gazar os tecidos para a estamparia digital.

Quanto aos momentos marcantes, talvez possa apontar a instalação da cogeração, porque a energia é muito cara no nosso país. Fizemos estudos há já alguns anos para a montagem de uma instalação fotovoltaica, mas os paybacks eram ainda relativamente longos – hoje a realidade é outra, o investimento é bastante mais compensador, dado que os materiais tiveram uma forte descida de preço. Porém, na minha opinião, a cogeração continua a ser um melhor investimento, pois permite-nos fazer o aproveitamento da energia térmica sob a forma de água quente e vapor, que são fundamentais para a tinturaria. Além disso, produz energia 24 horas por dia, enquanto o fotovoltaico não produz à noite.

Outro momento foi a montagem da tinturaria, porque se tivéssemos uma fiação só a vender fio cru, nunca podíamos ter os serviços que temos para os nossos clientes. Na altura, a esmagadora maioria das fiações estava dedicada à comercialização de fios crus e não tinha tinturaria. Foi o meu pai que viu pela primeira vez o sistema a trabalhar numa fábrica em Itália, numa fiação com uma pequena tinturaria só de máquinas pequenas. Podemos dizer que em Portugal, na altura, não existia nada semelhante e penso que fomos um pouco inovadores. Mas, na altura, o meu pai sabia que uma tinturaria só de máquinas pequenas, de 10, 20 e 30 quilos, não seria rentável. Pesou a intenção de querer prestar o serviço aos clientes da Filasa, fornecendo assim pequenas quantidades de fio tinto, um serviço que era difícil de arranjar no mercado na altura. A tinturaria nasceu com 12 máquinas e hoje tem mais de 30 com capacidades diversas, que permitem responder ao mercado em fio tinto com quantidades a partir de três quilos, tendo máquinas de maior capacidade que variam dos 100 aos 800 quilos.

O que mudou no negócio nestas mais de três décadas?

O que evoluiu ao longo deste tempo, quer em quantidade, quer em diversidade e rapidez de execução, foi o nosso stock service. Possuímos, dentro de portas, três tipos de máquinas adequadas para fabricar praticamente todos os fios que os nossos clientes nos pedem, podendo ainda recorrer ao nosso stock permanente, onde temos uma lista enorme de qualidades – fios de algodão, com ou sem flama, misturas de fibras, mesclas e fantasias – e NE’s, desde o NE 3 ao NE 50. E acabámos de implementar um stock service de fios tintos NE 20, 24 e 30 Penteado nas cores mais consumidas pelo mercado: branco, bege, azul-marinho e preto.

Quais são os principais mercados da Filasa?

O mercado doméstico é o mais importante, com cerca de 70%. Depois é a Europa. Estamos a fazer todos os esforços para conseguirmos aumentar a nossa quota de mercado, tanto para a Europa como para outras regiões.

O facto de trabalharem sobretudo para o mercado interno criou problemas adicionais no ano passado?

Não fugimos à regra de termos tido uma diminuição da nossa capacidade produtiva. Parar completamente nunca o fizemos, tivemos uma redução da produção, mas trabalhamos bastante para tecelagem e os têxteis-lar tiveram, em alguns casos, até crescimento. Mas houve uma redução ao nível de todos os departamentos.

Esta primeira metade do ano foi melhor?

Estamos com um crescimento em relação aos últimos anos. Este crescimento que estamos a ter, e que se está a verificar não só a nível da Filasa mas como de todos os fiandeiros em Portugal, tem muito a ver também com a redução que está a existir por parte dos fios importados, devido aos problemas de transporte. Os custos dos transportes aumentaram muitíssimo e a instabilidade e o incumprimento das chegadas fazem com que agora dividam o risco e, por isso, as pessoas que eram capazes de importar o fio todo, acabam por ter cá pelo menos parte do seu consumo, para não correrem o risco de atrasos e os preços impossibilitarem-nas de cumprir com os prazos que têm. Portanto, nota-se um aumento da procura interna. Claro que isto não vai ser sempre assim, mas as fiações estão a passar um momento bastante bom com a ocupação da produção.

Isso faz com que as expectativas para o resto do ano sejam positivas?

Sim, penso que se vai manter assim. Pelo menos até ao final do ano, os transportes estão caríssimos.

Fala-se atualmente da deslocalização da produção de Portugal para países com custos de contexto mais baratos. É algo que equaciona?

Não. Apesar das muitas dificuldades, nunca pensamos nisso. A fiação é uma indústria que está na base da pirâmide do sector têxtil e, por esse motivo, as pressões ao nível do preço sentem-se muito mais nesta área do em qualquer outra da nossa fileira. Não é por acaso que as fiações no nosso país estiveram, até há muito pouco tempo, em vias de extinção. Primeiro, porque é uma indústria de capital intensivo. Depois, não temos margem de negociação nas matérias-primas, porque são commodities cotadas em Bolsa. E para além disso, a energia tem um peso enorme na estrutura de custos e, como sabemos, Portugal é um dos países ao nível europeu com a energia mais cara. Todos estes fatores, para além de outros, são efetivamente desmotivadores para a manutenção de uma fiação no nosso país, mas a verdade é que na génese da Filasa está um projeto industrial vertical, o qual, em determinado momento, deu lugar a uma unidade que, principalmente pela sua qualidade, diversidade de produtos e forma de servir o cliente, vive hoje para o mercado e, nesse sentido, apesar de todas as dificuldades, estamos cientes da nossa importância e da nossa responsabilidade como uma das maiores referências em termos de fiação no panorama nacional.

Quais são as grandes mais-valias da Filasa?

A Filasa assume-se hoje como uma referência incontornável do sector graças ao esforço e competência de gerações de colaboradores que souberam sempre transmitir um élan ganhador. Esta cultura moldada por experiências e competências muito diversificadas é o principal capital da Filasa e é isso que transmite a força capaz de assegurar um percurso vencedor face aos desafios nos mercados nacional e internacional. Os clientes procuram na Filasa um serviço de excelência e um produto de qualidade feito à medida das suas necessidades, produzido com as melhores matérias-primas e tecnologia de ponta, adaptando-nos sempre, pois cada cliente tem as suas especificidades, às quais estamos preparados para responder. Ao nível do serviço, a resposta pronta é fundamental. Não seria a primeira vez, por exemplo, que entregamos fios numa tecelagem a meio da noite, para que não parassem a produção. Isso só é possível em empresas onde o compromisso com o seu cliente é total. Além disso, a garantia e a assistência pós-venda são duas áreas onde os clientes sabem que podem contar com a Filasa, no sentido em que dispomos de laboratórios equipados com a melhor tecnologia têxtil e, graças igualmente aos nossos técnicos altamente especializados, estamos sempre disponíveis para ajudar os clientes que necessitem, por exemplo, de analisar um tecido para saberem que fios e misturas os compõem e assim poderem reproduzi-los para os seus clientes.

Que metas coloca para a empresa?

Continuarmos a ser uma referência para os nossos clientes no serviço e na qualidade dos produtos e atingirmos uma faturação no mercado externo que justifique os investimentos que pretendemos fazer. Já temos experiência e sabemos que exportar fio é mais difícil do que exportar produto acabado, principalmente para clientes que ainda não conhecem a nossa qualidade.

Como vê o futuro da fiação em Portugal?

É uma visão bastante sombria, no entanto procuramos ter sempre alguma esperança, no sentido em que essencialmente fatores exógenos de competitividade sejam ajustados. Somos confrontados de forma contínua com aumentos variadíssimos, de várias espécies, que têm efeitos nos nossos custos, mas que infelizmente não conseguimos repercutir nos preços de venda. E o preço foi, é e será sempre o elemento mais valorizado pelos clientes. É nossa obrigação trabalharmos arduamente para que a nossa unidade produtiva seja o mais eficiente possível a todos os níveis. No entanto, há custos de contexto que não há forma de os evitar e quando confrontados com concorrentes internacionais que, como se não bastasse terem a matéria-prima à porta da fábrica e subsidiada, beneficiam de sistemas fiscais mais justos, de energia mais barata, de custos de mão de obra que não são sequer comparáveis aos nossos e, ainda, de um sistema monetário que lhes permite ajustar a moeda de acordo com os seus interesses, sentimo-nos prejudicados. A verdade é que, por muito eficientes que sejamos, torna-se muito difícil competir com essa realidade. Para agravar todo este quadro, no contexto que esses países dispõem de todas estas ferramentas, a UE nada faz para proteger a sua indústria, mesmo depois de assistirmos a situações como vimos na fase inicial do covid, em que não havia máscaras, EPI’s ou lençóis para os hospitais. É fundamental que os decisores políticos entendam de uma vez por todas que quem joga o mesmo jogo deve fazê-lo com as mesmas regras, e não na situação que, por exemplo, encontramos na indústria têxtil e no nosso caso da fiação, onde estamos a competir num contexto de completa desigualdade.