A ITV holandesa e a Modint
A proverbial máxima de investir mais a jusante da produção -na marca e no retalho -e subir na cadeia de valor, que Carlos Tavares tem apregoado para o sector do têxtil e vestuário português, não podia estar mais presente no espírito empresarial da ITV holandesa. Quando o Jornal Têxtil (JT) aceitou o convite da principal associação holandesa para observar a sua ITV, constatou que «a Holanda tem muito boas marcas», como salientou logo na primeira intervenção Han Bekke, director-geral da Modint (Dutch Trade Association for Fashion and Interior Textiles),slogan que poderia servir de mote à mostra de empresas visitadas, dada a sua clara aposta na marca própria, no design próprio e no retalho. Fundada em 2000 depois da fusão de três das maiores associações, da Fenecon, da NKC e da NTC , a Modint é a associação mais representativa das empresas do sector, com 800 membros, entre produtores, importadores, agentes e retalhistas, totalizando 3 biliões de euros de facturação. Com 60 funcionários, a Modint é uma das maiores associações europeias deste sector, e uma das fundadoras da Euratex. É uma associação privada, sem participação pública e tem duas empresas de serviços financeiros e de gestão para os seus associados, através das Modint Business e da Modint Credit & Finance.Han Bekke revela ao JT que 2003 foi um ano de recessão, em que houve um decréscimo económico de 0,8 por cento, um decréscimo do consumo de vestuário e calçado de 1,2 por cento (0,5 por cento em 2002), e um decréscimo de consumo de bens duradouros de 2,5 por cento (dados da consultora holandesa GfK). Houve um decréscimo da produção de vestuário, uma transferência de produção para países de baixo custo, um aumento do desemprego no sector, um aumento das exportações de vestuário de 7 por cento (95 por cento para a UE, sobretudo Alemanha, Bélgica e França) e diminuição das importações (34% provenientes da Ásia), de 0,7 por cento. O ano também foi marcado por algumas importantes fusões e aquisições. Os segmentos de vestuário com maior crescimento tem sido ainda o de senhora e ultimamente o de criança, realçando igualmente que o sector aposta cada vez mais nocasualwear. Esta associação tem tido um importante papel nas negociações de concertação social, pois «depois de anos seguidos de crescimento, em 2002 a conjuntura económica complicou-se e decidimos reunir com os sindicatos, com um Governo na altura socialista e muito gastador, e uma taxa de desemprego de 5%, para negociar o que poderiam ser os aumentos salariais na altura se queriam permitir a sobrevivência das empresas. E assim foi, eles foram razoáveis, e os aumentos não foram tão elevados quanto inicialmente queriam, o que também permitiu que houvesse menos desemprego». Aponta a cooperação como uma das lacunas do sector a suprir com a urgência, mas «é difícil neste sector, onde as pessoas teimam em lets do it my way».Como as condições de trabalho estão na ordem do dia em quase todos os países produtores, «estamos a trabalhar agora numa norma para os produtores controlarem mais eficientemente as condições da produção dos seus subcontratados», revela Han Bekke, e especifica que «a Gaastra e a Quelle estão a trabalhar num acordo de compra com produtores que trabalhem sob determinadas condições de trabalho». Ainda no âmbito das questões europeias actuais, Han Bekke afirma que «somos contra a formação futura de uma etiqueta europeia. Creio que o consumidor não se preocupa com a etiqueta europeia, ou com a sua origem, só dá realmente importância ao preço e ao design». Questionado sobre o que se espera do sector depois de 2005, no primeiro ano de comercialização mundial sem quotas, Bekke crê que «os custos de trabalho e logísticos serão mais baixos e a qualidade vai ser superior. Teremos criadores de todo o mundo a competirem, incluindo da China e da Índia, mas também teremos um mercado de contrafacção muito maior, e devemos então tomar as devidas precauções». Esperando até então que a ITV holandesa se prepare em termos de eficiência, o director salienta que «não queremos proteccionismo, nem quotas». «Se houver mais membros na OMC, e se respeitarem as suas regras, todos ganharão…», conclui o director-geral da Modint.O Amsterdam Fashion InstituteO AMFI- Amsterdam Fashion Institute, é um instituto de moda onde actualmente 1300 alunos, dos quais 80 estrangeiros (um português), podem tirar um bacharelato em Fashion Technology, ministrado por 80 professores, «com contratos de curta duração para haver grande rotatividade e renovação», sublinha Pauline Terreehorst, a directora, ao Jornal Têxtil. Fruto da fusão de duas anteriores escolas de moda, o AMFI pertenceà International Federation of Fashion Institutes, a que também pertencem os famigerados Institut Français de la Mode ou a London College of Fashion, funcionando no belo edifício que compraram há 12 anos à Amstel, a mais conhecida empresa cervejeira da capital holandesa. Tem tido um crescimento anual de 25% das inscrições de alunos (80 por cento dos estudantes são mulheres e 20 por cento são homens), mas estão a pensar em «tomar alguma medidas para prevenir este crescimento no futuro por falta de capacidade das instalações, pois a ideia para já é aproveitarem todas as suas potencialidades», refere Terreehorst. Com uma propina anual de 600 euros, contam com subsídios do Estado, que lhes validou o curso dada a forte componente pratica e tecnológica e com estágio obrigatório. Assim, os alunos ficam 4 meses a trabalhar nas empresas no terceiro ano, depois apresentam a tese e podem ficar lá, se for do interesse de ambas as partes. «Cerca de 75 por cento deles acabam nas empresas, e há alunos que saem daqui e montam as suas próprias empresas», refere a directora. «Actualmente muitos alunos encontram trabalho na Europa de Leste, pela componente tecnológica que neste momento procuram», acrescenta. Os alunos podem optar por uma especialização nos últimos anos em estilismo ou em gestão, através das áreas deconcept & brands, dedesign & styleou defashion management, podendo ainda o IMFI proporcionar um Master nesta última. «O curso de Gestão Internacional de Moda no AMFI é muito abrangente, apesar do destaque que colocam na componente económica e financeira da indústria têxtil, e esperarem dos estudantes o domínio das áreas mais técnicas como produção e design», refere António Campo, um estudante português do AMFI. «Há todo um trabalho técnico que desenvolvemos em cooperação com os estudantes das outras áreas do instituto, o que faz com que aprofundemos a nossa visão em relação a todos os subsectores da indústria».











