O corpo humano como cartaz publicitário

Knowear é o ardiloso homónimo de Peter Allen e Carla Murray-Allen. O casal conheceu-se em 1998 quando estudava Desenho Industrial na Academia de Arte de Cranbrook, e criou a Knowear logo após o final dos seus estudos em 2000. A empresa agora trabalha o design de moda, de produto e de conceitos sob as marcas Knowear (moda), Anywear (design de produtos) e Somewear (design de conceitos). «A premissa subjacente a esta colaboração é uma ideologia multifacetada nascida a partir de um conceito e orientada pela produção», explica o casal. O revivalismo dos ofícios e de tudo aquilo que ainda hoje nos podem ensinar nas nossas vidas modernas e famintas de tempo não é o campo de batalha desta dupla de designers. Em vez disso, propõe-se a desenhar objectos que infligem simultaneamente um desejo «de provocar a reflexão e oferecer beleza». O impacto e as oportunidades tecnológicas que se apresentam-nos hoje inspirou a Knowear a explorar dois caminhos principais. Em primeiro, como as tecnologias nómadas redefinem as noções de espaço e, em segundo, como o corpo e a tecnologia interagem. Se acreditamos, tal como eles, que a computação dita cada vez mais as nossas opções de comunicação e que essas ferramentas vão continuar a reduzir de tamanho, então é legítimo assumir que o vestuário carece de um maior papel como portador e receptáculo de instrumentos diminutos mas transformadores da vida, tais como telemóveis, monitores da saúde, serviços de transmissão que ?necessitam? acompanhar-nos todo o tempo. Embora o futuro possa ser definitivamente diferente do presente, algumas coisas não vão provavelmente mudar- o vestuário que se adapta a essas necessidades é talvez mais um cenário igual à raça humana a adaptar-se a uma vida sem roupa. A marca Somewear criou um espaço no qual a investigação conceptual pura pode ser divulgada e experimentada. Situada talvez num futuro mais distante do que o corpo principal do trabalho dos Allen, a Somewear baseia-se nos «pensamentos proposicionais inspirados pelas tendências culturais». Dito isto, pouco resta que não seja inspirado pela observação do estado actual da sociedade. «Á mediada que a tecnologia de implante e “explante” se torna mais sofisticada, as marcas e os corpos convertem-se num só», afirma a dupla de designers. O futuro parece ser um tempo em que a marcação intrusiva do corpo é perfeitamente aceitável. «Enquanto que em 2000 colocávamos marcas no nosso corpo através do acto de vestir, em 2020 estaremos a implantar partes do corpo desenhadas que não só serão geneticamente codificadas mas também ostentarão os símbolos de marcas da empresa e do produto que os criaram», sustentam. Cartazes publicitários humanos são, basicamente, a sinistra proposta que antevêem. Embora este pensamento possa fazer a pele tremer, é verdade que a ubiquidade dos logos das marcas no vestuário e acessórios sugere realmente que, no mínimo, alguns de nós estarão dispostos a assumir um compromisso mais ?profundo? para com as suas marcas de moda preferidas. Até ao momento, a Knowear tem produzido essas imagens, como por exemplo um desconcertante logo da Apple numa barriga de grávida assim como os prováveis cenários seguintes- para a Chanel, «um implante de um padrão alcochoado aplicado num torso humano», para a MarsterCard «um substituto de implante para uma banda magnética que permita ao utilizador do cartão de crédito aceder à sua conta através da impressão digital» (com o cartão incorporado no polegar) e para a Nike «um implante especial na barriga da perna que permite ao portador melhorar a sua performance física». No centro destas propostas está uma tensão entre a natureza e a cultura. Com efeito, o projecto “Fachada de Sintético” da Knowear propõe que o resultado do estado pós-moderno seja o tratamento do corpo não como algo natural, mas sim como um produto sintético. Neste caso, os corpos transformam-se em superfícies sem valor real no seu direito próprio, sendo lousas vazias que aguardam a chegada da última coqueluche comercial. Se estas propostas podem ser consideradas demasiado radicais hoje, também a saturação de logos na vida quotidiana pareceria excessiva há 100 anos atrás. A Knowear procura sobretudo oferecer um olhar crítico sobre valores nos quais já vive, hoje em dia, uma grande parte do mundo.