Má qualidade dos resíduos ameaça reciclagem têxtil na Alemanha

A deterioração da qualidade dos têxteis usados está a colocar sob pressão o modelo económico do setor, com os empresários a defenderem uma quota obrigatória de 30% de fibras produzidas a partir da reciclagem de têxteis para criar mercado.

[©Unsplash-Eric Prouzet]

A recolha de têxteis usados na Alemanha está em valores máximos, mas o aumento dos volumes está a ser acompanhado por uma deterioração da qualidade e por custos crescentes de triagem e tratamento. Uma combinação que, segundo o novo estudo têxtil 2026 da bvse – Bundesverband Sekundärrohstoffe und Entsorgung e.V., uma associação empresarial alemã ligada aos setores da reciclagem, matérias-primas secundárias e gestão de resíduos, está a levar o setor a um «ponto de viragem» e a ameaçar a viabilidade económica.

Entre 2018 e 2023, o volume recolhido aumentou cerca de 50 mil toneladas, para 1,3 milhões de toneladas. A subida, contudo, não se traduziu numa maior disponibilidade de materiais de qualidade para reutilização ou reciclagem, refletindo sobretudo o aumento do consumo e ciclos de utilização mais curtos.

«Temos não só mais têxteis usados para tratar, como recebemos cada vez menos qualidade, cada vez menos artigos reutilizáveis e cada vez mais materiais cuja triagem, reciclagem ou eliminação acarreta custos», explica Marwin Gedenk, presidente da bvse.

A percentagem de materiais estranhos e contaminantes, que em 2018 rondava 10,8%, situa-se atualmente entre 15% e 20%. Na prática, até um em cada cinco quilos recolhidos tem de ser separado logo no ponto de recolha e encaminhado para eliminação, com custos para os operadores.

Reutilização perde terreno

A deterioração da qualidade está igualmente a alterar o destino dos materiais. Entre 2018 e 2023, a percentagem destinada à reutilização caiu de 62% para 44%, enquanto a reciclagem aumentou de 26% para 35%. Já a valorização energética passou de 12% para 21% em cinco anos.

«A reutilização continua a ser a via de valorização mais adequada do ponto de vista ambiental. No entanto, está a perder importância devido à diminuição da qualidade e ao desaparecimento de mercados de escoamento», reconhece Marwin Gedenk.

A dimensão do problema ficou patente numa análise prática realizada no âmbito do estudo. Os investigadores separaram manualmente 780 quilos de materiais provenientes diretamente de contentores de roupa usada. Do total, apenas 45,3% correspondiam a vestuário, 7,7% a têxteis-lar e 13,7% a calçado. Outros 11,1% foram classificados como materiais para reciclagem, 1,4% eram embalagens e 20,5% correspondiam a resíduos têxteis ou indiferenciados. A análise aprofundada de 1.494 artigos revelou ainda outro obstáculo à circularidade: 62,6% das peças de vestuário de camada única continham componentes não têxteis, como fechos de correr, botões, rebites ou aplicações.

Para a bvse, estes resultados demonstram que uma parte significativa dos problemas enfrentados na reciclagem começa ainda na fase de desenvolvimento do produto. «Muitos problemas de reciclagem surgem logo no design do produto», sublinha Marwin Gedenk.

A associação defende, por isso, que os produtores tenham de demonstrar, antes da colocação dos produtos no mercado, que os têxteis são efetivamente recicláveis em condições industriais reais, situação em que o Passaporte Digital do Produto deverá assumir um papel importante.

Modelo económico sob pressão

A deterioração dos fluxos recolhidos tem também consequências económicas. Tradicionalmente, as receitas obtidas através da comercialização de artigos em segunda mão de melhor qualidade ajudavam a financiar a recolha, triagem e tratamento dos restantes materiais.

Esse equilíbrio está, segundo a bvse, a desaparecer, porque além da menor qualidade dos artigos recolhidos e da instabilidade dos mercados de segunda mão, os operadores enfrentam custos superiores com mão de obra, energia, transporte e eliminação.

«Um sistema de valorização de materiais financiado predominantemente pelas receitas está a transformar-se progressivamente numa atividade de gestão de resíduos que acarreta custos», aponta o presidente da bvse.

Para inverter a situação, a bvse apresenta três medidas consideradas interdependentes. A principal é a introdução de uma quota obrigatória de 30% de incorporação de matérias-primas recicladas provenientes de processos de reciclagem da fibra à fibra. A associação considera que uma obrigação deste tipo criaria procura estável para as fibras recicladas e daria aos investidores e operadores maior segurança para avançarem com novas capacidades industriais de reciclagem.

A segunda medida passa pela obrigatoriedade de comprovar a reciclabilidade dos produtos em condições industriais antes da sua colocação no mercado e, por último, a associação propõe um modelo de triagem em duas fases, sendo a primeira manual, orientada para identificar artigos com potencial de reutilização, e uma segunda para os materiais sem condições para uma nova utilização, já automatizada ou semiautomatizada para fazer a separação por tipo de fibra e outras características relevantes para a reciclagem.

A Responsabilidade Alargada do Produtor (RAP) é apontada pela associação como o principal instrumento para financiar a transição, mas a bvse alerta que o sistema não deverá limitar-se ao registo dos produtores e à gestão administrativa, mas para ter recursos para financiar diretamente as etapas onde se concretiza a circularidade, incluindo recolha, triagem orientada para a qualidade, separação automatizada dos materiais e reciclagem.

«O setor está preparado para seguir este caminho. Já investe atualmente na recolha, triagem e reciclagem. O que já não pode continuar a suportar sozinho são os custos resultantes de produtos com vidas úteis cada vez mais curtas e cada vez menos recicláveis», conclui Marwin Gedenk.