Integração estratégica

A seguir ao trigésimo aniversário, celebrado em 2003, o ano de 2004 começou em grande para a Lectra. Ao adquirir a Investronica Sistemas e segundo dados apresentados porDaniel Harari, director geral da Lectra, a empresa vê confirmada a sua liderança mundial no sectorde desenvolvimento e distribuição de software e equipamento de CAD/CAM para a ITV. Nesta entrevista, Daniel Harari comenta a estratégia para o futuro, que pretende misturar, nas doses certas,prudência e ambição.

Jornal Têxtil (JT)– Qual o objectivo da aquisição da Investrónica Sistemas por parte da Lectra, quatro anos depois da vossa última operação externa de crescimento?

Daniel Harari (DH)– De facto, as últimas aquisições da Lectra datam do período de 1998-2000, quando adquiriu três especialistas em design, nomeadamente a Computer Design Inc., nos EUA, a Colorado International, em França e a Prima Design Systems,em Hong Kong. Não fez mais aquisições desde então. Mas esta estratégia tem uma razão deser. Até ao rebentamento da bolha da Internet, os valores das empresas eram altíssimos. Então, enquanto a maior parte das companhias viam o seu valor de mercado descer vertiginosamente, as companhias que não faziam parte do mercado de acções demoraram algum tempo a notar que as suas capitalizações haviam caído ainda mais. Hoje em dia atingimos um equilíbrio, em que os valores das companhias, tal como calculados pelos seus accionistas, correspondem ao valor das mesmas para a Lectra. As condições do mercado melhoraram nos meses recentes, a Lectra conseguiu estabelecer um bom plafond, tendo gerado 34 milhões de euros, nos dois anos transactos. Estavam criados os meios para esta aquisição, que consolidará a nossa posição cimeira a nível mundial. Actualmente, depois da aquisição da Investronica Sistemas, somos três as empresas significativas a competirem no sector: a Lectra, a Gerber Technology e a Assyst-Bullmer. Antes da aquisição da Investronica Sistemas pela Lectra, os nossos lucros eram superiores em 30% aos da Gerber. Agora situam-se 80%o acima, com mais de 16.000 clientes.

Esta é a maior aquisição que a Lectra já fez.

JT- Como decorreu, na prática, esta operação?

DH-A Lectra já vinha dando sinais de crescimento há vários meses e identificámos duas categorias de empresas que nos interessava adquirir: ou um competidor significativo (os analistas simularam a possível compra ou da Gerber Technology ou da Investronica Sistemas) e/ou empresas a actuarem em nichos tecnológicos. Em 6 de Setembro de 2003 contactámos os gestores da Induyco, os únicos accionistas da Investronica Sistemas, com uma oferta para comprar a Investronica Sistemas. O negócio ficou concluído em quatro meses. Esta iniciativa pertenceu 100% à Lectra, sem a participação de nenhum banco de investimento.

JT- Porquê a Investronica Sistemas?

DH- As duas empresas têm uma cultura similar. A Investronica Sistemas é um competidor agressivo, com uma boa qualidade tecnológica e com preços do mais baixo que se praticava no mercado. Por outro lado, à primeira vista a Lectra e a Investronica Sistemas servem o mesmo mercado, mas na realidade actuam em diferentes segmentos, o que permitirá à Lectra alargar a sua gama de produtos, cobrir uma rede mais vasta de mercados e responder ainda mais eficientemente a necessidades específicas dos seus clientes. Também não podemos deixar de referir que a Investronica Sistemas está focalizada num determinado número de países cujo mercado é muito interessante para a Lectra, particularmente Espanha e Itália, a Europa do Leste, por exemplo na Bielorússia e na Rússia, e a América do Sul, especialmente no Brasil. Adicionalmente, esta aquisição irá aliviar a pressão competitiva no mercado europeu e permitirá extrair sinergias de duas equipas diferentes.

JT- Qual a história da Investronica Sistemas, que agora também faz parte da história da Lectra?

DH- A Investronica Sistemas foi fundada para suprir as necessidadesem tecnologia CAD/CAM da Induyco. A Induyco é um dos principais fabricantes de vestuário europeus, com ligações próximas ao retalhista número um de Espanha, o El Corte Inglés. Na altura da formação da Investronica Sistemas, a Gerber era a única empresa com actividade no sector em Espanha, mas os seus preços eram muito altos e serviam mal as necessidades da Induyco. Assim, a Induyco decidiu começar a comercializar os seus próprios produtos CAD/CAM, e foi essa postura de desenvolvimento interno que deu origem à Investronica Sistemas.

JT- O que nos pode dizer em relação aos detalhes da operação financeira de aquisição?

DH- O custo da transacção, cerca de 51.5 milhões de euros, será pago em quatro fatias, aproximadamente 13 milhões de euros cada uma, após se completar a transacção, em 30 de Junho de 2004, 2005 e 2006. Isto será pago com dinheiro e fundos correntes na tesouraria da companhia. Não haverá recurso a financiamento bancário nem tão pouco diluição para os accionistas da Lectra. Os detalhes financeiros da operação compreendem a aquisição de todas as acções da Investronica Sistemas em troca de seis milhões de euros em dinheiro e de um milhão de acções da Lectra, perfazendo um total de cerca de 12.25 milhões de euros, com base nos valores de fecho para a Lectra em 31 de Dezembro último, juntamente com o reembolso de 39.2 milhões de euros do empréstimo da Induyco à Investronica Sistemas. Deixando de lado este empréstimo, o balanço da Investronica Sistemas é ligeiramente positivo. A Induyco passou a ser accionista da Lectra e comprometeu-se a permanecer como tal até Julho de 2006.

O Good Will, antes de ajustamentos contabilisticos, é baixo relativamente ao valor empresarial, cerca de oito milhões de euros. As regras contabilísticas da Lectra são muito conservadoras, muito mais do que as estipuladas nas recomendações francesas e dos standards internacionais da IAS, no que concerne à operação. Segundo as normas contabilísticas da Lectra, o Good Will deverá corresponder a, aproximadamente, 25 milhões de euros. A Lectra possuía liquidez para a operação na ordem dos 50 milhões de euros, deixando uma margem para outras aquisições.. Os lucros gerados pela Investronica Sistemas – espera-se que gere entre 15 e 25 milhões de euros – servirão para pagar os últimos dois investimentos, fazendo com que a compra seja muito vantajosa em termos financeiros.Os resultados financeiros da Lectra e da Investronica Sistemas estão consolidadas desde 1 de Janeiro de 2004.

JT- Quais as medidas práticas previstas para a integração?

DH- Toda a equipa da Investronica Sistemas, incluindo a gerência, integrará a Lectra. Fernando Alonso, CEO da Investronica Sistemas, juntar-se-á ao comité executivo da Lectra, e integrará um grupo com a responsabilidade de supervisionar a integração, também constituído por Daniel Moreau, Jérôme Viala e Corinne Barbot-Morales, com a minha liderança. Na prática esta integração concerne principalmente a dois países, Espanha e Itália, que entre representam a maior parte da equipa de trabalho da Investronica Sistemas. A Lectra também planeia olhar estabelecer formas de optimizar as equipas de produção e pesquisa/desenvolvimento entre Madrid e Bordéus. Os gastos supérfluos irão descer naturalmente e os custos promocionais e de marketing serão restruturados e repartidos.

JT- O que implica esta aquisição para os clientes da Investronica Sistemas?

DH- Primeiro quero sublinhar que não haverá cortes em termos de emprego. Depois, a Lectra compromete-se a garantir a manutenção do equipamento, aplicando as mesmas regras em vigor na Lectra, juntamente com a continuidade do equipamento e linhas de software. A gama de serviços disponíveis reflecte o valor acrescentado que a Lectra pode oferecer a estes clientes, confirmado por uma taxa de renovação na ordem dos 98 %. A curto prazo, a Lectra planeia comercializar duas ofertas sob duas marcas diferentes. A médio prazo, a companhia irá manter o melhor das duas tecnologias. A Lectra irá manter as marcas Lectra e Investronica Sistemas.

JT- Quais os principais objectivos estratégicos da Lectra, a médio prazo?

DH-A Lectra espera duplicar os seus lucros durante os próximos cinco anos, chegando a um crescimento anual de 15 por cento. As sinergias entre as duas companhias deverão começar a dar frutos em 2005 e 2006. Os resultados em 2004 dependerão na velocidade de integração entre a Investronica Sistemas e no comportamento do dólar norte-americano. Os dois maiores entraves ao crescimento presente são a incerteza sobre a paridade euro/dólar, que afecta directamente os ganhos, arrastando para baixo a competitividade corporativa e acelerando o ritmo da deslocalização e a incerteza económica, que inibe os gastosem tecnologia. No entanto, ao mesmo tempo, a deslocalização cria uma necessidade tecnológica, que prediz investimentos futuros. De facto, as empresas não podem adiar indefinidamente os seus investimentos tecnológicos, sob pena de perderem a sua vantagem competitiva. Resumindo, os principais objectivos estratégicos da Lectra permanecem inalterados. Pretende tornar-se número um nos EUA. Lembro que antes da Lectra adquirir a Investronica Sistemas, os lucros provenientes dos EUA eram já praticamente iguais aos da Gerber Technology. A Lectra é número um na China com 35 por cento do mercado, 1300 clientes e 125 empregados, mas pretende fortalecer a sua liderança neste país e responder a uma potencial da procura de equipamento neste território, onde se prevê que as vendas de novos equipamentos em 2004 excedam os valores para França. Também pretende acelerar o desenvolvimento das operações com grandes empresas. A Lectra já conseguiu importantes avanços com a Boeing, Zodiac, La-Z-Boy, LVMH, Russell, Sara Lee, Sears, Toyota, Wal-Mart, e outros.

JT- A Lectra planeia efectuar outras aquisições?

DH- Sim, esperamos que os próximos dois anos sejam um período favorável para uma consolidação do sector. A Lectra espera realizar novas aquisições, no entanto irá concentrar-se em empresas que operem em nichos de mercado, desenvolvendo uma tecnologia com qualidade, mas que não tenham recursos e organização para a comercializar numa escala mundial.