Inovar na sustentabilidade dá vantagem à ITV portuguesa

Estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos conclui que os produtores portugueses assumem frequentemente a iniciativa no desenvolvimento de soluções sustentáveis e aponta a colaboração, conhecimento técnico, confiança e proximidade regional como fatores de competitividade.

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Os produtores portugueses estão a assumir um papel cada vez mais relevante na inovação sustentável da indústria da moda, deixando de ser apenas executantes das estratégias das marcas para se afirmarem como parceiros no desenvolvimento de novos materiais, processos e serviços, indica o estudo Sustentabilidade na Moda: Inovação e Competitividade em Portugal, da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), da autoria de Céline Abecassis-Moedas, Laure Leglise e Mariana Pereira Silva, que foi hoje publicado.

O estudo analisa sete casos de inovação orientada para a sustentabilidade, envolvendo marcas nacionais e internacionais e produtores portugueses, nomeadamente Acatel, Casa da Malha, Inovafil, Isto., RDD, Riopele, Silsa e Somelos. Entre as soluções estudadas encontram-se algodão regenerativo, poliéster reciclado, liocel e ácido polilático (PLA), assim como processos de tingimento com microrganismos e acabamentos com menor consumo de água.

As autoras concluem que a colaboração entre produtores e marcas é determinante para desenvolver materiais e processos mais sustentáveis e reforçar a competitividade internacional da indústria portuguesa. Além disso, «ao contrário da perceção de que são as marcas que lideram a inovação na moda, o estudo mostra que são, frequentemente, os produtores que impulsionam o desenvolvimento de novas soluções sustentáveis».

A partilha de conhecimento surge como um dos elementos comuns às experiências analisadas, sobretudo nas inovações tecnologicamente mais complexas. Amostras e protótipos, ciclos de feedback e comunicação continuada entre os diferentes intervenientes permitiram testar e aperfeiçoar materiais e processos. «Os fornecedores devem também considerar a partilha de conhecimento como um pilar central da colaboração com as marcas, bem como com outros fornecedores», defendem as autoras.

A confiança e as relações profissionais anteriores assumem igualmente importância, a par da complementaridade de recursos. Equipamento especializado, experiência técnica e redes de fornecedores estão entre os ativos valorizados na escolha dos parceiros, enquanto alguns fabricantes estão também a acrescentar serviços de rastreabilidade, reciclagem ou desenvolvimento de materiais, evoluindo para uma relação mais estratégica com as marcas.

Vantagens e desafios

A concentração territorial da ITV portuguesa constitui uma vantagem. Porto, Braga, Guimarães e Famalicão representavam 87% do volume de negócios e 85% do emprego do setor em 2019. «Tem tudo num raio de 50 quilómetros. Tem o mar para transportar (…) para todo o mundo. Portanto, tem tudo», resume um dos compradores entrevistados.

Esta proximidade facilita a colaboração, a comunicação e a resolução de problemas e, segundo o estudo, pode funcionar como proteção face às perturbações em cadeias de aprovisionamento mundiais mais fragmentadas.

Entre 2010 e 2021, refere o estudo, o número de empresas têxteis e de vestuário envolvidas em I&D aumentou 153%, de 64 para 162, e o investimento atingiu 42,8 milhões de euros. Em 2020, os fornecedores portugueses aplicaram mais de nove milhões de euros em inovações orientadas para a sustentabilidade, nomeadamente em reciclagem, redução dos consumos de energia e das emissões e substituição de materiais convencionais.

Persistem, contudo, constrangimentos. O custo da I&D e das certificações pesa particularmente nas PME – que representam 99,7% das empresas do setor –, a que se juntam as dificuldades de adaptação à evolução da regulamentação europeia e a necessidade de melhorar a promoção internacional das competências portuguesas.

Um representante de uma marca internacional – as autoras do estudo entrevistaram 45 pessoas, entre pessoas ligadas aos fornecedores e aos parceiros que produzem em Portugal – «constatei que muitas fábricas não se promovem. Se olharmos para os websites, são péssimos. É muito difícil perceber o que fazem, é muito difícil navegar neles. Muitos são websites realmente antigos. Por isso, tendo em conta que as fábricas portuguesas são tão avançadas, consideraria levar isso para o próximo nível e promoverem‑se também».

Apesar de reconhecerem as limitações inerentes à análise de sete estudos de caso, as autoras destacam, nas conclusões, que «a indústria é amplamente elogiada pelos seus elevados padrões de qualidade e pela presença de um leque diversificado de fábricas, que, em conjunto, abrangem as principais etapas do processo de produção, desde o fio até à produção de peças de vestuário. Além disso, as marcas referiram frequentemente o equipamento avançado utilizado pelos fornecedores portugueses, essencial para o desenvolvimento de inovações orientadas para a sustentabilidade, aliado ao forte compromisso do setor com a transparência». Contudo, «subsistem alguns desafios, tais como o custo significativo das iniciativas de investigação e desenvolvimento, os recursos limitados para as PME e as dificuldades em adaptar‑se

à evolução da regulamentação da UE», levando as autoras a deixaram como sugestões «o reforço do apoio financeiro a inovação, a promoção da colaboração com organizações do setor e universidades, bem como a melhoria da visibilidade dos fornecedores através da promoção digital» para «contribuir para reforçar a competitividade e a resiliência a longo prazo do setor».