China versus África do Sul: a guerra dos têxteis?

Iniciado durante uma visita oficial à África do Sul por parte do primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, o acordo celebrado entre a China e a África do Sul para limitar o fluxo de importações chinesas de têxteis e o vestuário que entram no maior centro africano de produção de vestuáriooferece uma esperança para a indústria têxtil da África do Sul, que perdeu postos de trabalho e unidades de produção devido às importações de produtos baratos com origem na China. Os pormenores do acordo têm ainda de ser finalizados entre os dois governos, mas segundo foi referido pelos responsáveis do departamento de comércio e indústria da África do Sul, vai envolver a limitação das exportações chinesas com destino à África do Sul em 31 categorias de produtos, incluindo t-shirts, vestuário em tecido e lençóis de cama, até ao final de 2008. Estas restrições fazem parte de um acordo mútuo, estabelecido entre os dois países, sobre a promoção do comércio bilateral e a cooperação económica, que também lida com questões relacionadas com a assistência técnica, o investimento e a promoção do comércio, assim como a cooperação ao nível alfandegário. Riscos elevados Muito se encontra em jogo para a indústria da África do Sul. Perto de 200.000 pessoas estão empregadas nos sectores de vestuário, têxtil e calçado do país, para além dos postos de trabalho existentes nas empresas de design e nos fornecedores directos. Entre os principais retalhistas locais encontram-se nomes como Truworths, Edcon, Woolworths, Mr Price e Foschini. A Truworths subcontrata perto de dois terços do seu vestuário na África do Sul e o restante da China e da Índia. As importações sul-africanas de vestuário com origem na China registaram uma subida de 480% em termos de valor, entre 2003 e 2005, contribuindo para a eliminação de 62.000 postos de trabalho, de acordo com os dados apresentados pelo Southern African Clothing and Textile Workers Union (SACTWU). Segundo a opinião do secretário-geral do SACTWU, Ebrahim Patel, este acordo vai ajudar a recuperar uma parte do mercado interno da África do Sul. Para além da menor concorrência ao nível interno, Patel refere que a desvalorização do dólar, em conjunto com o acordo em perspectiva, poderá atrair mais investimento externo à África do Sul, tornando o país mais atractivo como centro de produção para as cadeias internacionais de retalho, que procuram diversificar as suas fontes. O rand sul-africano perdeu mais de 20% em valor ao longo do ano, o que vem beneficiar as empresas locais que se encontram extremamente pressionadas ao nível das exportações com destino aos EUA e à UE. O SACTWU está também a promover o festival de moda da Cidade do Cabo, o qual apresenta o melhor da moda da África do Sul e trabalha com as empresas locais para as apresentar aos clientes internacionais. O festival desempenha um papel significativo na promoção de todos os aspectos da indústria da moda da África do Sul e promove em exclusivo os produtos sul-africanos. Indústria local debilitada As exportações chinesas de têxteis com destino à África do Sul têm sido responsabilizadas pelo debilitar da indústria têxtil e de vestuário no país, a qual tem assistido a significativas perdas de postos de trabalho e ao encerramento de diversas empresas. O primeiro-ministro chinês Wen Jiabao referiu que a China está disposta «a tomar medidas de auto-restrição para assegurar a estabilidade», assumindo o compromisso de aplicar medidas para restringir as exportações chinesas de têxteis para a África do Sul com o objectivo de assegurar a estabilidade dos mercados têxteis neste país. Este compromisso para restringir as exportações de têxteis e de vestuário surge na altura em que o Governo de Pequim avisou a indústria têxtil do país de que vai precisar de se adaptar a um iuan mais forte. Esta valorização na moeda poderá ter repercussões significativas num sector que apoiou o seu desenvolvimento com base numa moeda subvalorizada.