Campeonato Mundial de Futebol impulsiona reciclagem têxtil

A sustentabilidade está a ganhar um novo protagonismo na competição, com a maior parte das seleções nacionais, incluindo a portuguesa, que entra hoje em campo, a usarem equipamentos produzidos com fibras recicladas.

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Cerca de 75% das seleções participantes, ou 37 das 48 equipas presentes na competição, utilizam equipamentos fornecidos pela Nike, Adidas e Puma que incorporam, total ou parcialmente, poliéster reciclado proveniente de resíduos têxteis.

A aposta representa uma evolução significativa face às primeiras iniciativas de utilização de poliéster reciclado da indústria. Durante anos, a principal matéria-prima reciclada usada foi o plástico proveniente de garrafas PET pós-consumo. Contudo, esta solução enfrentou críticas por competir com outros fluxos de reciclagem já estabelecidos e por gerar fibras difíceis de reciclar novamente no final da sua vida útil.

Nos últimos anos, a reciclagem têxtil da fibra à fibra ganhou escala comercial graças ao aumento do investimento, à expansão da capacidade industrial e aos compromissos assumidos pelas grandes marcas de vestuário e desporto. O Campeonato Mundial de Futebol surge agora como a mais visível demonstração desta mudança.

Nike, Puma e Adidas na vanguarda

A Nike equipa 12 seleções nacionais, incluindo Brasil, Inglaterra e França, com equipamentos produzidos através da sua tecnologia Aero-FIT, desenvolvida a partir de resíduos têxteis reciclados a 100%.

Na apresentação da nova coleção de equipamentos para as federações patrocinadas pela marca, a empresa norte-americana destacou o carácter pioneiro da iniciativa. «Os equipamentos e as coleções de treino Aero-FIT são o primeiro vestuário de performance de elite da Nike produzido a partir de 100% de resíduos têxteis», sublinhou a empresa.

Além da incorporação de matéria-prima reciclada, a Nike destaca que o têxtil foi desenvolvido para garantir elevados níveis de respirabilidade, leveza e regulação térmica, características essenciais para a competição de alto rendimento.

A Puma surge logo a seguir em termos de incorporação de conteúdo reciclado. A marca alemã fornece os equipamentos de 11 seleções nacionais, entre as quais Portugal, Marrocos e Gana, utilizando poliéster reciclado proveniente de resíduos têxteis em pelo menos 95% da composição dos equipamentos.

O material é produzido através do programa Re:Fibre, que utiliza vestuário usado, peças defeituosas, excedentes de produção e desperdícios industriais como matéria-prima para a criação de novas fibras de poliéster.

A seleção portuguesa estreou este ano os seus novos equipamentos desenvolvidos pela marca alemã, depois da parceria entre a Federação Portuguesa de Futebol e a Puma anunciada em 2024. A incorporação de matérias-primas recicladas enquadra-se na estratégia de circularidade da empresa e no objetivo de reduzir a dependência de recursos virgens.

«Com a nova camisola Portugal 2026, quisemos captar a profunda ligação do país ao oceano e trazer essa energia para o campo. O padrão inspirado nas ondas e a paleta forte em vermelho e verde reflete uma equipa que nunca para de avançar, alimentada por paixão e coragem. Da nossa malha de performance Ultraweave à iniciativa de sustentabilidade Re:Fibre, todos os detalhes foram pensados para dar aos jogadores e aos fãs uma camisola que não só parece poderosa como realmente significa alguma coisa», detalhou, na apresentação, Marco Mueller, diretor sénior de gestão de linha de produto de vestuário de performance

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A Adidas, responsável pelos equipamentos de 14 seleções, incluindo Argentina, Espanha e México, também incorporou poliéster reciclado proveniente de resíduos têxteis na sua plataforma Climacool.

Embora a empresa não divulgue a percentagem exata de conteúdo reciclado presente nos equipamentos utilizados pelas seleções, a iniciativa integra a meta da Adidas de atingir 10% de matérias-primas recicladas de origem têxtil até 2030.

Performance validada

Para além dos volumes utilizados durante a competição, especialistas do setor consideram que o verdadeiro impacto do Mundial poderá estar no sinal enviado ao mercado.

Historicamente, a reciclagem têxtil da fibra à fibra enfrentou um obstáculo: as marcas exigiam provas de desempenho dos materiais, enquanto os recicladores hesitavam em investir sem garantias de procura futura.

Sarah Needham, diretora de parcerias na Textile Exchange, considera que a utilização destes materiais por algumas das maiores marcas mundiais pode ajudar a desbloquear esse ciclo.

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«Uma das peças mais importantes é dar esse sinal ao mercado dos recicladores de que isto é algo em que grandes organizações estão preparadas para investir e colocar numa arena muito pública», aponta ao Financial Times. «Precisamos dessa procura estável para que as pessoas possam avançar com confiança na transformação sistémica do setor», acrescenta.

A responsável acredita também que a visibilidade do futebol pode ajudar a aproximar os consumidores do conceito de reciclagem têxtil. «Não sei até que ponto o adepto médio de futebol está familiarizado com a reciclagem têxtil da fibra à fibra, mas esta é uma oportunidade para aumentar essa consciencialização», considera.

A adoção de poliéster reciclado proveniente de resíduos têxteis assume particular relevância por ocorrer num dos segmentos mais exigentes da indústria do vestuário.

Os equipamentos de competição necessitam de combinar resistência, leveza, respirabilidade e conforto térmico, requisitos que durante anos dificultaram a entrada de materiais reciclados de nova geração neste mercado.

No caso da Nike, garante Janett Nicol, vice-presidente de vestuário e de inovação avançada no estúdio de criação digital da Nike, o material «tem uma performance muito próxima da qualidade do [poliéster] virgem, que acreditamos que pode ser uma mudança fundamental para a indústria, assim como para o desporto».

Após o Campeonato Mundial de Futebol, a Nike planeia inclusivamente lançar a tecnologia Aero-FIT no atletismo, basquetebol e ténis.

Para Andreas Dorner, diretor-geral da recicladora turca Re&Up, um dos principais fornecedores da Puma para o programa Re:Fibre, o Mundial demonstra que essas barreiras técnicas estão a ser ultrapassadas.

«Se mostrarmos ao mercado que é possível, mostramos que o desempenho já não é um problema», resumiu ao Business of Fashion.