Biomateriais ganham protagonismo

Botas de micélio, acessórios em pele de peixe e objetos produzidos com conchas de ostras integraram uma exposição no Nationalmuseum, em Estocolmo, evidenciando a crescente relevância dos materiais de base biológica na indústria da moda.

[©Axfoundation-Kristian Eddé]

O programa Future Materials da fundação sueca Axfoundation procura valorizar recursos locais e atualmente subutilizados, incluindo biomassa agrícola e recursos marinhos, através da colaboração entre investigadores, empresas e especialistas para desenvolver soluções comercialmente viáveis para sistemas de materiais sustentáveis.

A exposição Built Different, integrada na Stockholm Fashion Week, reflete, de acordo com a Axfoundation, o interesse crescente por alternativas aos materiais de origem fóssil, num contexto em que a produção e o consumo de recursos continuam a aumentar e a pressionar os sistemas ambientais. Segundo a fundação sueca, a transição para uma economia circular de base biológica exige uma utilização mais eficiente dos materiais existentes, bem como o desenvolvimento de novas matérias-primas concebidas para integrar fluxos circulares.

[©Lars Dittrich]
A Axfoundation convidou designers a trabalhar com recursos inovadores da agricultura e do oceano, explorando o seu potencial para a moda e o design. Entre os projetos apresentados destaca-se uma bota produzida a partir de micélio pelos designers Lars Dittrich e Marie De Ryck, acessórios em pele de peixe desenvolvidos por Daniel Ankarstrand, calçado em lã concebido por Philip Remus, mobiliário em junco criado por Harry Parr-Young, painéis tricotados em lã sueca por Bogil Lee e objetos produzidos com biocompósitos de conchas de ostra por Sean Barrett. Já o trabalho do designer Kevin Mukuri, desenvolvido em colaboração com a Axfoundation, explora a aplicação de materiais emergentes nórdicos em peças de vestuário.

Para a fundação sueca, o desenvolvimento destes materiais responde simultaneamente a desafios ambientais e industriais. «O futuro do design sustentável não pode ser construído com poliéster. Está a surgir uma nova geração de materiais de base biológica, que abre possibilidades completamente novas para a forma como a moda, os produtos e os interiores podem ser concebidos e produzidos», afirma Hanna Hobohm Skoog, diretora do programa Future Materials da Axfoundation.

[©Axfoundation-Philipp Resmus]
Um dos exemplos explorados pelo programa é o aproveitamento da ostra-do-Pacífico, espécie invasora que se disseminou pela costa ocidental da Suécia. O projeto EcoOyster procura demonstrar como a colheita em larga escala pode responder simultaneamente ao impacto ecológico da espécie e à necessidade de novas fontes de matéria-prima. «As ostras do Pacífico têm potencial tanto como alimento como como material, mas sem estruturas para a colheita e o processamento em grande escala, perdem-se os benefícios ecológicos e circulares», afirma Veronica Öhrvik, gestora de projetos de Future Foods na Axfoundation. No âmbito deste projeto, estão a ser desenvolvidos produtos alimentares a partir da carne da ostra e, paralelamente, a Axfoundation está a explorar o potencial das conchas como matéria-prima, tanto através de testes práticos, como em colaboração com estudantes de design da Universidade de Malmö.

A transição para estes materiais é também enquadrada numa perspetiva de competitividade e gestão de risco empresarial. «Está a tornar-se cada vez mais crítico para as empresas eliminar gradualmente a sua dependência de recursos fósseis e utilizar os materiais de forma mais eficiente. Ao mesmo tempo, as perturbações nas cadeias globais de aprovisionamento estão a aumentar, a par da futura escassez de recursos estratégicos. Isso está a impulsionar a necessidade de abastecimento e produção locais», resume Hanna Hobohm Skoog.