Reciclagem têxtil enfrenta barreiras ao financiamento

Apenas três dos 13 processos de reciclagem da fibra à fibra avaliados pela Accelerating Circularity não apresentam riscos considerados impeditivos para o financiamento, num setor condicionado por limitações industriais e comerciais.

[©Accelerating Circularity]

O relatório “Systemic Bankability of Textile-to-Textile Recycling” avalia oito tecnologias, sete de reciclagem e uma de triagem e pré-processamento, desdobradas em 13 processos de reciclagem da fibra à fibra face a 12 fatores de risco que condicionam o financiamento comercial.

Segundo o estudo Sorting for Circularity Europe, citado no relatório, apenas 23% dos têxteis pós-consumo recolhidos são adequados para reciclagem da fibra à fibra. A Accelerating Circularity indica que quanto mais os processos se aproximam de uma maior circularidade, através da utilização de misturas, vestuário pós-consumo e produção de materiais equivalentes às fibras virgens, maior é o número de fatores de risco identificados.

Dos 13 processos, apenas três não apresentam qualquer fator de risco considerado impeditivo para financiadores comerciais ou seguradoras, nomeadamente a reciclagem mecânica de resíduos pós-industriais e pós-consumo e a despolimerização industrial de poliamida. De acordo com a Accelerating Circularity, estas tecnologias abrangem, contudo, uma parcela limitada do fluxo de têxteis pós-consumo. A reciclagem mecânica tem um potencial máximo de 6,6% desse fluxo, enquanto a despolimerização de poliamida tem um potencial de 0,4%.

A avaliação abrange 12 fatores, incluindo a segurança do abastecimento de matéria-prima, o desempenho dos processos, a construção e conclusão das fábricas e a sua operação e manutenção, a garantia de compra da produção e a coordenação entre as diferentes etapas da cadeia de valor. Considera ainda a dependência de políticas públicas, a clareza regulamentar, o licenciamento e a transferência do risco associado ao desempenho das unidades industriais, sendo que este último fator é considerado impeditivo para o financiamento em sete dos 13 processos tecnológicos avaliados.

Entre as tecnologias mais bloqueadas estão a reciclagem termomecânica de misturas de fibras e a reciclagem de poliamida a partir de vestuário, ambas com oito fatores de risco considerados impeditivos para o financiamento comercial.

O relatório conclui ainda que a subvenção ao investimento, atualmente o instrumento mais utilizado no setor, não elimina nenhum dos fatores de risco identificados a nível sistémico. Embora reduza o montante de dívida necessário para construir uma unidade industrial, não transfere os riscos associados à procura, aos custos ou ao desempenho da fábrica.

«As barreiras à reciclagem da fibra à fibra à escala são comerciais e não técnicas, e os instrumentos para as resolver já funcionam noutros setores. Este enquadramento mostra a cada parte envolvida na decisão de financiamento onde está realmente o risco e quem está em posição de o transferir», afirma Edd Denes, diretor-executivo da Accelerating Circularity.

Entre os instrumentos considerados mais importantes estão as metas obrigatórias de conteúdo reciclado para as marcas, que podem estimular a procura e reduzir a desvantagem de preço das fibras recicladas face às virgens, e as metas de reciclagem para produtores, destinadas a melhorar a coordenação da cadeia e o aprovisionamento de matéria-prima.

O relatório propõe ainda garantias públicas de desempenho para fábricas pioneiras, uma vez que o risco associado ao desempenho é considerado impeditivo em sete dos 13 processos. Entre as restantes soluções estão mecanismos públicos para estimular a procura, através de preços mínimos ou compras centralizadas, e a contratação pública de produtos têxteis, como fardamento, vestuário de trabalho e hospitalar, com requisitos de conteúdo reciclado.

Para as marcas e retalhistas, a Accelerating Circularity recomenda a agregação da procura através de contratos de compra vinculativos, o financiamento da triagem regional através de sistemas de responsabilidade alargada do produtor, a criação de uma especificação normalizada para a matéria-prima e protocolos de qualificação tecnológica por processo.