O relatório “Too Hot to Ignore: Extreme Heat in Garment supply Chains”, desenvolvido por Lucy Siers, do Stern Center for Business and Human Rights da Universidade de Nova Iorque, baseia-se num trabalho de campo realizado durante três semanas, em setembro de 2025, em 10 unidades industriais distribuídas por quatro regiões da Índia, que empregam cerca de 9.000 trabalhadores. Os investigadores realizaram entrevistas presenciais a aproximadamente 80 trabalhadores nas fábricas, 40 entrevistas fora do local de trabalho e recolheram testemunhos de equipas de gestão.
A investigação identificou quatro consequências principais do calor extremo nas unidades industriais, nomeadamente riscos acrescidos para a saúde e segurança dos trabalhadores, aumento do absentismo, redução da produtividade devido ao esforço físico e à fadiga, e degradação da qualidade da produção, associada a falhas de energia, aumento de defeitos e atrasos nas entregas.
Nas fábricas analisadas, que fornecem marcas e retalhistas como a Primark, Marks & Spencer, Uniqlo, Tommy Hilfiger e Levi’s, a produtividade diminuiu entre 3% e 10% durante os meses de maior calor, enquanto o absentismo aumentou entre 2% e 5%. Os dados das enfermarias de três fábricas mostram inclusive aumentos sazonais claros de queixas de saúde nos períodos de maior calor.
Falta de ação
O relatório conclui ainda que os fornecedores não conseguem responder sozinhos a este desafio e defende que as marcas e retalhistas de vestuário e calçado devem integrar o risco térmico na gestão das suas cadeias de aprovisionamento.
O estudo inclui ainda um inquérito dirigido a 46 marcas, ao qual responderam 17. Entre as empresas participantes, 94,1% classificaram o calor extremo como um risco moderado ou significativo para a produção, mas apenas 35,3% afirmaram exigir aos fornecedores a monitorização da temperatura ou da humidade nas áreas de produção e 37,5% indicaram questionar os fornecedores sobre o impacto destes episódios na atividade. «As marcas que não exigem aos fornecedores que meçam e reportem as temperaturas internas não têm base para avaliar o risco de calor nas suas cadeias de abastecimento», refere a autora.
O relatório sublinha que a Índia não dispõe de limites legais de temperatura para locais de trabalho. A Lei das Fábricas de 1948 exige condições de “conforto razoável”, mas sem limiares mensuráveis ou mecanismos de execução. O novo Código de Segurança, Saúde e Condições de Trabalho de 2020 introduz obrigações mais explícitas, mas ainda não foi totalmente implementado pelos estados.
A autora identifica um conflito emergente entre os objetivos de descarbonização das marcas e a proteção dos trabalhadores, exemplificando que em países como o Paquistão, fornecedores relataram pressão para reduzir o consumo energético de acordo com os objetivos de emissões âmbito 3 dos compradores, o que os levaria a considerar a desmontagem de sistemas de arrefecimento essenciais à segurança dos trabalhadores.
A conclusão central do relatório é que o problema resulta de uma falha sistémica de governação. «Os compradores globais, atuando isoladamente, nunca conseguirão fazer progressos suficientes. Abordar o calor extremo neste setor exige um modelo de responsabilidade partilhada», lê-se.
Recomendações
O relatório recomenda que as marcas e retalhistas «reconheçam formalmente o calor extremo como um risco» para a cadeia de aprovisionamento, reforcem a monitorização das condições térmicas nas fábricas, partilhem os custos da adaptação climática com os fornecedores e introduzam maior flexibilidade nas práticas de compra.
Sobre os fornecedores e produtores, a autora defende a «adoção de medidas imediatas para proteger os trabalhadores», a «implementação gradual de estratégias de mitigação do calor», bem como a participação dos trabalhadores na gestão destes riscos e a proteção dos salários durante períodos de redução da produção.
Já aos governos e entidades reguladoras, o estudo recomenda a «criação de limites de temperatura vinculativos nos locais de trabalho», a definição de orientações sobre períodos de trabalho e descanso, o alargamento dos planos de ação contra o calor às unidades industriais e o «reconhecimento do stress térmico como doença profissional».
Por fim, o relatório apela aos organismos setoriais e iniciativas multilaterais para desenvolverem orientações harmonizadas sobre mitigação do calor, promoverem a partilha de dados e integrarem os riscos associados ao calor extremo nos sistemas de governação.




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