Sem K. Eric Dexler, a nanotecnologia teria provavelmente ficado confinada ao mundo da ficção científica ou, pior, subterrada pelo peso das instituições académicas.
Apesar de na base a ideia não ter sido sua, pois em 1959 Richard Feyman tinha já antevisto os princípios da nanotecnologia aquando da apresentação do seu artigo “Plenty of Room at this Bottom”, K. Eric Dexler trouxe a nanotecnologia até ao grande público e revelou as suas implicações positivas e negativas. Em 1981, K. Eric Dexler, retomando a visão de Robert Feyman, desenvolveu os princípios físicos dos sistemas de fabricação molecular (usando nanomáquinas para fabricar produtos com precisão atómica) num artigo publicado pela National Academy of Sciences. Este artigo gerou o interesse necessário para motivá-lo a escrever “Engines of Creation”, um tratado sobre as possibilidades da nanotecnologia, publicado em 1986. Este livro introduziu o termo “nanotecnologia” para descrever a visão de Robert Feyman e as tecnologias que poderá gerar. K. Eric Dexler pensa pequeno, incrivelmente pequeno. Tão pequeno que é necessário o mais potente microscópio universal para ver aquilo em que ele tem pensado ultimamente. O cientista passa a maior parte do tempo a ruminar sobre nanomáquinas, assembladores infinitamente minúsculos de átomos hipoteticamente capazes de desempenhar toda a espécie de trabalhos complexos. Se as teorias de Drexler puderem ser postas em prática, os seus “engenhos de criação” terão um impacto tremendo na condição humana. Por exemplo, poderão tornar os automóveis tão baratos como cerca de meio quilo de batatas, reparar a camada de ozono, eliminar o excesso de dióxido de carbono da atmosfera ou curar qualquer doença. Apesar da nanotecnologia ainda não estar preparada para construir nanomáquinas ou nanoprocessadores, hoje é já capaz de alterar eficazmente as propriedades de plásticos e têxteis, conferindo-lhes maior respirabilidade, resistência ao calor e à sujidade, protecção contra bactérias e fungos, robustez e flexibilidade, entre outras, todas com efeito permanente. Deste modo, esta tecnologia emergente está já a causar uma autêntica revolução na ITV. Embora a nanotecnologia já gere inúmeros pequenos benefícios, não está isenta de polémicas mais ou menos válidas. Na recente Nanotech 2004, que decorreu em Boston, Jeffrey Matsura, professor de Direito na University of Dayton, lançou um aviso pertinente, em especial para os investidores ávidos de novas oportunidades, sobre a forma como o grande público está hoje a perceber a nanotecnologia, cuja discussão está a adquirir contornos semelhantes aos observados com as culturas geneticamente modificadas. Com efeito, os biotecnologistas assumiram que o público reconheceria e apreciaria rapidamente o potencial da biotecnologia para melhorar a qualidade de vida. No entanto, os riscos concentraram a atenção dosmedia e de grande parte do público. Os bem-alimentados consumidores europeus encararam a sugestão de alimentos mais baratos com cepticismo. Muitos sentiram que os lucros dos OGMs derivariam para as empresas, enquanto que os riscos derivados da produção e consumo das culturas caberiam ao público. Na Europa e na América há hoje o sentimento crescente de que uma das mais importantes lições retidas da feroz oposição à biotecnologia, se o progresso da ciência avança rápido demais, e mais além dos conhecimentos actuais, é a grande pressão que haverá no que respeita à legislação. Embora a preocupação do público seja, de momento, trivial, vale a pena relembrar o poder dosmedia em inspirar receio. “Jurassic Park”, um filme baseado no livro de Michael Crichton, gerou grande interesse e preocupação em relação à biotecnologia. Ironicamente, o último volume do autor é sobre a nanotecnologia – “Presas”. E desta vez as horríveis criaturas que ameaçam a humanidade não são gigantes dinossauros, mas nanorobôs que invadem e controlam o corpo humano. As preocupações com nanorobôs que tomariam conta dos nossos corpos e de todo o planeta são absolutamente absurdas. Mas a manipulação das nanopartículas sem as devidas precauções pode representar reais perigos tóxicos, tal como mostrou Ken Donaldson, professor de toxicologia respiratória da University of Edinburgh, com os riscos gerados pela inalação das ultrafinas partículas de carbono. O progresso envolve riscos que devem todavia ser calculados e levados em conta. Do outro lado do espectro estão os “nano-entusiastas”, por vezes com expectativas demasiado altas quanto aos benefícios da nanotecnologia. Um exemplo é a já amplamente citada estimativa de que o negócio da nanotecnologia representaria, dentro de 10 anos, cerca de dois biliões de euros – um número que aparentemente surge por “geração expontânea”. Induzidos por tão elevados números, e sempre na busca da próxima grande descoberta, os capitalistas aventureiros estão a cortejar veemente os nanotecnologistas. Mas, até ao momento, há mais encontros sobre investimentos em nanotecnologia do que sérias oportunidades criadas. Muitos investidores acham que um plano de negócio é, muitas vezes, pouco mais do que o re-empacotamento de propostas de candidatura a bolsas de investigação. E muitas das empresas de topo em nanotecnologia não estão a fazer mais do que o desenvolvimento de micro-sistemas convencionais. A falta de uma definição clara de nanotecnologia está a adulterar o debate. Segundo a definição, estar-se-ia a falar de máquinas que têm componentes funcionais inferiores a 100 nm (1 nm = 0,000001 mm, isto é equivalente a um elemento 80 000 vezes menor do que um cabelo humano). Actualmente, pouco existe a esta escala. Não admira que os mais “nano-entusiastas” advoguem por uma definição que englobe tudo aquilo que envolva partículas à escala nano. Esta definição englobaria partículas utilizadas em cremes para a pele mais translúcidos e cera de ski mais deslizante. Mas também incluiria tudo o que é baseado em camadas de espessura nanométrica de materiais ou em nanotubos. O problema de uma definição tão abrangente é que não existe qualquer laço comum entre estes exemplos, quer no método de fabricação quer nos mercados a que se destinam. Outra dificuldade na definição de nanotecnologia é que, ao contrário da biotecnologia, o domínio não deriva de uma disciplina académica. Esta falta de clareza não tem impedido os EUA, a Europa, o Japão e a China de rivalizar nos gastos exorbitantes em nanotecnologia. Os políticos têm vendido com sucesso a ideia de que, à semelhança do que aconteceu com a microtecnologia no século XX, a nanotecnologia é a revolução industrial do século XXI. A corrida ao nano-dispêndio foi iniciada pelos EUA, há quatro anos, cujo governo atribuiu para 2003-2004 a “módica” quantia de mil milhões de euros. Como área prioritária de I&D no VI Programa Quadro da UE, a nanotecnologia foi dotada de um fundo de 1.300 milhões de euros até 2006. Em 2003, a McKinsey, uma empresa consultora, contou 837start-up, das quais metade nos EUA (2001: 462). No entanto, a nanotecnologia enfrenta ainda grandes reptos na sua passagem do laboratório para o vasto uso comercial. Os processos de fabricação têm de se tornar mais baratos. As preocupações sociais e ambientais devem ser tidas em consideração. Até ao momento, o investimento foi praticamente todo estatal, tendo passado, segundo a McKinsey, de 690 milhões de euros em 2000 para 2.500 milhões de euros em 2003. O desafio para as empresas e investidores é eleger o alvo. «Vão-se ganhar e perder fortunas com os nanoprodutos», afirma David Bishop do New Jersey Nanotechnology Consortium. «É o atractivo do capitalismo. Recompensará quem acertou e punirá quem errou». Os produtos podem ser minúsculos, mas as apostas são enormes.; A ironia é que a nanotecnologia está ainda muito longe das expectativas quer dos optimistas quer dos pessimistas. Em muitas novas tecnologias, é comum sobrestimar o que pode acontecer dentro de cinco anos e subestimar o que pode ocorrer dentro de 50 anos. Vários nanotecnologistas optimistas, como Don Eigler da IBM em Silicon Valley, esperam que esta regra também se aplique à nanotecnologia. No entanto, há uma enorme lacuna tecnológica entre cascatas moleculares e nanorobôs multi-funcionais. Parafraseando o célebre romance de Jane Austen, o que é indispensável é que prevaleça em cada indivíduo uma boa dose de sensibilidade e bom senso. Entretanto, o mundo pode continuar a girar.










