Vestuário ucraniano procura investimento estrangeiro

Apesar da Ucrânia possuir a potencialidade para se tornar o principal fornecedor de vestuário localizado na Europa de Leste para a Europa Ocidental, o crescimento da indústria local está a ser prejudicado pela falta de investimento estrangeiro. No entanto, de acordo com a análise publicada pelo just-style.com, esta situação poderá estar em vias de modificar face à política no final de 2004 e à eliminação das últimas restrições aplicadas sobre o comércio com a UE (ver notícia no PortugalTêxtil).

De acordo com a opinião de consultores especializados para o sector de vestuário, a Ucrânia possui grandes hipóteses de suceder a Roménia como principal fornecedor de vestuário para a Europa Ocidental, posição que já foi ocupada pela Jugoslávia (até 1993) e depois pela Polónia (até 1999). No entanto, a indústria têxtil e de vestuário ucraniana continua a ser prejudicada por diversos obstáculos, que estão a impossibilitar a sua capacidade de crescimento. Face a esta realidade o número de trabalhadores do sector registou uma quebra dos 700.000 postos de trabalho em 1990 para menos de 200.000 actualmente, continuando-se a verificar uma quebra anual de 10.000 postos de trabalho, de acordo com a Directora do sindicato ucraniano de trabalhadores de têxteis e de vestuário, Olga Yefimenko.

Durante 2004 a Ucrânia exportou apenas 492 milhões de euros em produtos têxteis e de vestuário (dos quais 90% são relativos a artigos de vestuário) para a UE25, enquanto as exportações comunitárias para a Ucrânia cifraram-se nos 764 milhões de euros.

A principal deficiência dos produtores de vestuário ucranianos é provavelmente a falta de capital para aumentarem as suas capacidades como produtores de vestuário especializados nas actividades de corte, produção e controlo (CMT) ou para o desenvolvimento e exportação das suas próprias colecções de vestuário. É nestas áreas que a indústria local procura conquistar a atenção dos investidores estrangeiros de forma a apoiar o crescimento da indústria local.

De acordo com a Directora da associação ucraniana da indústria ligeira (representando fundamentalmente a indústria têxtil e do vestuário), Tamara Kirichenko, os valores do investimento estrangeiro estão muito abaixo do pretendido. Durante os últimos dez anos, apenas 130 empresas de corte, produção e controlo detidas na totalidade ou em parte por capital estrangeiro estabeleceram-se no país. O moderado investimento por parte dos países escandinavos e da Europa Ocidental prende-se fundamentalmente com a imagem negativa do país, associada à elevada burocracia e à existência de irregularidades. No entanto, desde a vitória de Viktor Yushchenko nas eleições de 2004, os investidores estrangeiros têm demonstrado uma maior confiança e interesse no investimento na Ucrânia.

O crescimento económico da Ucrânia tem registado uma média de 9% ao ano desde 2000, atingindo 9,4% em 2003 e 12,5% em 2004. O rendimento per capita está também a aumentar, estando prevista a adesão da Ucrânia à OMC até ao final de 2005.

Relativamente ao comércio de têxteis e de vestuário com a UE, as restrições quantitativas já foram eliminadas em 2001. No dia 9 de Março de 2005, a Ucrânia e a UE acordaram a eliminação das restrições comerciais ainda em vigor. As duas partes acordaram manter as taxas em valores reduzidos, não excedendo os 4% para os fios, 8% para tecidos e 12% para o vestuário.

Entre as vantagens do investimento na Ucrânia pode-se salientar os baixos custos de mão-de-obra, os quais apesar do rápido crescimento (os salários actuais são mais do dobro dos registados em 2000) continuam bastante competitivos. Em 2004, o salário nominal mensal para a indústria têxtil e do vestuário cifrava-se em 60,00 Euros (409 hryvia), um valor que se encontra muito abaixo da média do sector industrial cifrada em cerca de 109,00 Euros (743 hryvia). No entanto, a produtividade na indústria é ainda baixa com 0,08 euros por minuto padrão, relativamente aos concorrentes directos como a Sérvia, com 0,06 euros por minuto padrão, e a Bulgária, com 0,07 euros por minuto padrão (de acordo com os dados da Weis Consulting GmbH, divulgados pelo tdctrade.com).

Outra das vantagens apresentadas pela Ucrânia prende-se com a tradição que possui como produtor de têxteis e de vestuário. Quando fazia parte da URSS, a Ucrânia era responsável por metade da produção total soviética de têxteis e de vestuário. Com base neste historial, o país possui o sistema de fornecimento têxtil completo, desde as matérias-primas (algodão, lã, linho e fibras não-naturais) até ao vestuário em tecido acabado ou em malha, contando com uma força laboral experiente. A Ucrânia desenvolveu ainda um certo grau de especialização em artigos de maior especificidade, como fatos, gabardinas, blusas e camisas.

A proximidade com os países da UE representa uma vantagem face aos concorrentes asiáticos. No entanto, apesar da existência regular de serviços de transporte terrestre, o tempo de espera nos postos fronteiriços alarga o actual prazo de entrega para 4 a 5 dias.

No entanto, entre as desvantagens existentes, as principais estão associadas com a predominância da economia paralela (estimada por alguns analistas em 70% do PIB), a falta de claridade na legislação comercial e fiscal, a corrupção e as elevadas formalidades burocráticas.

Um dos problemas referido por praticamente todos os exportadores ucranianos prende-se com a dificuldade no reembolso do IVA após a exportação. De acordo com a legislação local, os exportadores devem receber do Estado 20% do IVA pago nas suas exportações, situação que raramente se verifica. A situação real é que os exportadores que operam legalmente pagam uma taxa de exportação de 20%, enquanto que os exportadores que recorrem à corrupção pagam taxas de exportação situadas entre os 8% e os 10%. No entanto, o Governo de Yushchenko prometeu restabelecer a ordem na economia local.

Um dos principais problemas que dificilmente poderá ser resolvido na ausência de investimento estrangeiro, prende-se com o mau estado do equipamento instalado na maior parte das empresas têxteis e de vestuário. De acordo com a Finpro (organização sedeada em Kiev para a promoção do investimento finlandês na indústria ucraniana), cerca de 60% dos equipamentos no sector do vestuário ainda são de origem russa, com idades que variam entre os 10 e os 12 anos. No entanto, esta situação está a registar uma alteração gradual, com as novas máquinas instaladas a serem principalmente de origem alemã e japonesa e verificando-se o aumento dos investimentos em sistemas CAD/CAM.

Entre os diversos exemplos de modernização empresarial é de referir o caso do produtor de vestuário Michael Voronin, localizado em Kiev, que utiliza os sistemas de CAD/CAM da Lectra, ou o caso da empresa Dana, produtora de vestuário para senhora, localizada em Kiev, que utiliza o sistema CAD da Gerber para estabelecer a comunicação com a Berghaus, um dos seus principais clientes.

Diversas empresas ucranianas estão ansiosas por capital estrangeiro para investir em novos equipamentos e novos serviços. A grande maioria quer afastar-se do negócio de corte, produção e controlo (CMT) tradicionais onde as margens permitem praticamente apenas a subsistência das empresas. Os principais objectivos dos produtores locais passam pelo design das próprias colecções e a exportação dos seus artigos com marca própria para os mercados ocidentais.

Um dos mais recentes exemplos desta estratégia surge da empresa Dana que, com o objectivo de melhorar os lucros da empresa decidiu investir na venda directa ao público com a abertura de quatro lojas comerciais, diminuindo a dependência da subcontratação como fornecedor para empresas como: Marks & Spencer, Berghaus, Danwear e Artex. Actualmente não existe uma concorrência significativa no mercado local, por isso a Dana prevê que o seu negócio de venda a retalho seja mais lucrativo do que as actividades de corte, produção e controlo.

Apesar da economia ucraniana crescer a uma passo acelerado, o poder de compra da maior parte dos 48 milhões de consumidores locais continua a ser muito baixo. Em 2004, o PIB per capita foi estimado em 1.324 dólares. Responsável por 13% a 17% do total das despesas por agregado familiar, o vestuário representa uma parte significativa dos hábitos de consumo dos ucranianos, principalmente no caso do sexo feminino. Em 2004, o mercado interno de vestuário foi estimado em cerca de 1,4 mil milhões de euros.

No entanto, cerca de 70% dos ucranianos ainda adquire o vestuário em mercados ao ar livre. Nestes mercados a oferta é fundamentalmente composta por produtos provenientes de produtores asiáticos, artigos importados da Rússia e da Turquia, assim como imitações de marcas ocidentais. Por ouro lado, no centro de Kiev encontram-se diversas marcas de gama alta como Dior, Pierre Cardin, Christian Lacroix, Armani e Escada.

Desde 2000 que o sector da venda a retalho tem registado alterações significativas com diversas cadeias ucranianas e russas de lojas de vestuário a aparecer, ocupando uma quota de mercado estimada nos 2%.

Em Dezembro de 2004, o grupo têxtil ucraniano Tekstil-Kontact abriu um centro comercial para vestuário em Kiev (designado por “Alta Centre”), representando um novo conceito de venda a retalho para o mercado ucraniano. O “Alta Centre” possui uma área comercial de 23.500 m2, sendo ocupado por retalhistas que comercializam vestuário importado e onde alguns dos principais designers ucranianos possuem as suas lojas. De acordo com o Director-geral da Tekstil-Kontact, Aleksandr Sokolovskiy, a empresa planeia a abertura de mais 10 novos centros comerciais de vestuário durante 2005, três dos quais localizados em Kiev.