Vestuário reciclado aproxima o sourcing dos EUA

Os retalhistas dos EUA que procuram vestuário fabricado a partir de matérias-primas recicladas estão a depender mais de países próximos de casa para responder às necessidades de aprovisionamento, em detrimento de países mais longínquos, nomeadamente da Ásia.

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O estudo, realizado por Sheng Lu, professor do departamento de moda e estudos do vestuário da Universidade do Delaware, nos EUA; teve por base uma análise estatística de 3.307 peças de roupa escolhidas aleatoriamente produzidas com matérias-primas recicladas à venda no retalho americano entre janeiro de 2019 e agosto de 2022.

Uma das conclusões é que os retalhistas americanos aprovisionaram-se de vestuário feito de têxteis reciclados de diversos países. «As amostras de vestuário vieram de 36 países, incluindo economias desenvolvidas e em desenvolvimento na EU, América, Ásia e África», indica Sheng Lu. «Contudo, refletindo a composição única da cadeia de aprovisionamento de vestuário fabricado com materiais têxteis reciclados, os padrões de sourcing dos retalhistas americanos para este tipo de produto são bastante diferentes do vestuário novo convencional», escreve.

Segundo o professor, enquanto a grande maioria, ou seja, mais de 90% do vestuário novo convencional nos EUA veio de países em desenvolvimento em 2022, de acordo com os dados da UNComtrade, apenas 43% das amostras, ou 1.408 peças, obtidos de materiais reciclados foram aprovisionadas em países em desenvolvimento. De igual modo, os retalhistas americanos parecem menos dependentes da Ásia quando compram vestuário feito de materiais reciclados (41,9%) e usam, em vez disso, sourcing de proximidade da América (30,1%) mais frequentemente, sobretudo aprovisionamento doméstico nos EUA (14,8%).

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Uma segunda conclusão do estudo é que os retalhistas americanos parecem criar sortidos de produtos diferenciados para produtos importados de países desenvolvidos e em desenvolvimento quando aprovisionam vestuário à base de materiais têxteis reciclados.

Entre as amostras fabricadas com materiais reciclados, os que são importados de países em desenvolvimento, em média, incluem uma mistura mais vasta do que os das economias desenvolvidas. Da mesma forma, as importações de países em desenvolvimento também se concentram em produtos relativamente mais complexos de fazer face aos dos de países desenvolvidos. «A maior capacidade de produção de vestuário dos países em desenvolvimento, incluindo as unidades de produção disponíveis e mão de obra qualificada, comparativamente às economias desenvolvidas pode ter contribuído para o padrão», sustenta Sheng Lu.

Por outro lado, provavelmente por causa dos custos de produção mais altos nos países desenvolvidos, o preço médio no retalho das amostras aprovisionadas em países desenvolvidos foi consideravelmente mais elevado do que os dos países em desenvolvimento. No entanto, salienta Sheng Lu, «não há provas evidentes de que os retalhistas americanos usaram os países desenvolvidos primariamente como bases de sourcing para artigos de luxo ou premium e que usaram os países em desenvolvimento apenas para artigos direcionados para o mercado de massas ou de preços baixos».

Europa procurada para luxo e sofisticação

A localização geográfica dos países, pelo contrário, revela ser um fator estatisticamente significativo no caso dos artigos com matérias-primas recicladas aprovisionadas por retalhistas americanos. As importações da Ásia focam-se em categorias de produto complexas e uma combinação de produtos mais diversa, para os mercados de massa e de preços mais baixos, as importações da América, tanto do Norte, como do Sul e Central, concentraram-se em categorias de produto simples, como t-shirts e meias, com uma diversidade de produto moderada e dirigida sobretudo ao mercado de massas e de preços mais baixos, e as importações de África focaram-se em categorias de produto simples, de luxo ou premium, com preços relativamente altos, como calções de banho, e uma diversidade limitadas de artigos. Já as importações vindas da UE consistem essencialmente em artigos de luxo de preços elevados em categorias de produto sofisticadas ou com uma sofisticação média com uma grande diversidade de artigos.

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«As conclusões do estudo desmistificaram os países de origem do vestuário confecionado com materiais têxteis reciclados escondidos por detrás das estatísticas gerais do comércio. As conclusões também criaram novo conhecimento crítico que contribuiu para a nossa compreensão da cadeia de aprovisionamento do vestuário obtido a partir de materiais têxteis reciclados nos EUA e os padrões de sourcing distintos dos retalhistas americanos e fatores relevantes para este tipo de produto», explica Sheng Lu.

Os resultados mostram ainda que há uma base de aprovisionamento maior para o vestuário feito de matérias têxteis recicladas e oportunidades de sourcing promissoras, assim como que este tipo de vestuário pode ajudar os retalhistas americanos a conseguirem benefícios económicos para além dos impactos ambientais positivos. Por exemplo, ilustra Sheng Lu, «tendo em conta a composição única da cadeia de aprovisionamento e as exigências de produção, a China parece ter um papel menos dominante como fornecedora de vestuário produzido com materiais têxteis reciclados para os retalhistas americanos». Aliás, aponta, uma parte substancial deste tipo de produtos era “made in the USA” ou de destinos de sourcing emergentes no continente americano, como El Salvador ou Nicarágua, e de África, como Tunísia e Marrocos.