Vestuário mortal

Cerca de um ano depois da fatídica derrocada da confecção Spectrum Sweater do Bangladesh (ver notícia PT), a notícia de várias centenas de mortos e feridos na sequência de 3 incidentes em diferentes empresas de vestuário deste país, ocorridos no curto espaço de 3 dias, originou uma avalanche de pedidos de medidas estruturais imediatas para dar um fim em incidentes deste tipo. Ineke Zeldenrust, do secretariado internacional da Clean Clothes Campaing, uma rede internacional que tem vindo há vários anos a denunciar os riscos de segurança que “atormentam” a indústria de vestuário no Bangladesh, afirmou que «é inadmissível que ano após ano mulheres e homens faleçam enquanto produzem vestuário. Os últimos acontecimentos são um indicador claro da contínua incapacidade da indústria, tanto nacional como internacional, de garantir a segurança no local de trabalho. Apelamos a todos os que estão relacionados com estas unidades que avancem e assumam a responsabilidade de colocar um ponto final a esta perda de vidas sem sentido». A vaga de tragédias teve início a 23 de Fevereiro quando um incêndio, possivelmente originado por um curto-circuito, destruiu as instalações de quatro andares da KTS Textile Industries, na cidade portuária de Chittagong. As primeiras notícias anunciavam 54 mortes e pelo menos 60 feridos, enquanto outras fontes colocavam o número de óbitos em várias centenas num desastre que os sindicalistas do sector de vestuário estão a denominar de pior tragédia da indústria de vestuário do Bangladesh. No momento do fogo, que deflagrou às 7 horas da amanhã, deveriam estar 1.000 trabalhadores na fábrica e, de acordo com os mesmos, as saídas estavam fechadas. A fábrica produzia para empresas americanas Uni Hosiery, Mermaid International, ATT Enterprise e VIDA Enterprise Corp. Na sequência deste funesto incidente, as autoridades locais encerraram mais três unidades relacionadas com a empresa em questão (Vintex Fashion, Cardinal Fashion e Arena Fashion) apontando a construção de má qualidade e medidas de segurança inadequadas como factores que colocavam em risco a vida dos seus mais de 6.000 trabalhadores. Apenas alguns dias depois do incêndio da KTS, foi anunciada a morte de mais 19 pessoas e mais 50 feridos na sequência do colapso de um edifício de cinco andares na capital do país, Dhaka. O edifico Phoenix, na zona industrial de Tejgaon, ruiu no seguimento de renovações não autorizadas para reconversão dos andares superiores, onde funcionavam vários escritórios e fábricas, incluindo uma fábrica de vestuário. Pensa-se que 150 técnicos de construção civil e um número de trabalhadores têxteis até ao momento não revelado deveriam estar no edifício na manhã de sábado (25 de Fevereiro), quando ocorreu a tragédia. As operações de salvamento, dificultadas pela falta de equipamento, foram prolongadas até 28 de Fevereiro, uma vez que havia o risco de muitos sobreviventes estarem debaixo das várias toneladas de betão. Centenas de activistas dos direitos dos trabalhadores efectuaram uma marcha em Dhaka, no domingo de manhã, para exigir uma indemnização para as famílias das vítimas e uma condenação para os proprietários da fábrica. Actualmente, a polícia está a averiguar o paradeiro do proprietário do edifício, Deen Mohammad, presidente do grupo Phoenix e do City Bank de Bangladesh. A Phoenix Garments exporta vestuário, sobretudo para a Europa. Nesse mesmo dia, em Chittagong, 57 trabalhadores do Iman Group of Industries (que segundo informações acolhiam as fábricas de vestuário Moon Fashion Limited, Iman Fashion, Moon Textile, Leading Fashion e Bimon Inda) ficaram feridos quando um transformador explodiu, e, temendo um incêndio, tentaram abandonar o local por uma saída demasiado estreita. A Clean Clothes Campaing acredita que o acompanhamento destas tragédias por todos os investidores do sector, nacionais ou internacionais, deve incluir apoio para o salvamento eficaz e serviços de ajuda às vitimas, uma investigação completa, independente e transparente de todos os incidentes e medidas estratégicas imediatas para prevenir futuros incidentes similares. Segundo um estudo recente da responsabilidade do Instituto de Investigação de Trabalho de Bangladesh, só em 2005 morreram 130 trabalhadores na indústria de vestuário no seu posto de trabalho e 480 ficaram feridos.