Vestuário lidera fusões e aquisições no Japão

A indústria de moda do Japão está a registar um frenesim de alianças e aquisições que modificou consideravelmente a paisagem dos retalhistas e dos produtores de vestuário, conforme nos relata o presente estudo elaborado pelo just-style.com. O Japão estava em tumulto quando um recente escândalo financeiro bloqueou aparentemente uma recuperação económica que há muito tempo era esperada e que aparentava estar a ganhar alguma dinâmica. No centro do escândalo encontrava-se a preferência do empreendedor Takafumi Horie pelas fusões e aquisições. Metade do país estava contra Horie (fundador da bem sucedida Livedoor Co.) e as suas agressivas tácticas de aquisição, que eram consideradas por muitos como “não japonesas”. No mundo de negócios tradicional japonês, os gestores preferiam dar prioridade aos funcionários, enquanto que as fusões e aquisições eram consideradas quase tabu. Mas muitos não consideraram o facto da indústria de moda do Japão já ter registado um significativo número de fusões e aquisições, as quais modificaram significativamente a paisagem do retalho e dos produtores de vestuário. A Japan Consuming, empresa especialista no retalho e na moda sedeada no Japão, refere que muitas das fusões são efectivamente um resultado de políticas governamentais cujo objectivo era o de estimular novamente a economia japonesa. «As fusões e aquisições foram sempre um tópico pouco confortável no Japão. Mas assim como acontece no sector tecnológico, o vestuário japonês, os cosméticos e o mercado de moda registaram um aumento nas iniciativas de aquisição de empresas», refere o relatório mensal da Japan Consuming de Janeiro de 2006. «Originalmente despoletadas pelas directrizes do ministério da economia para solucionar a situação das empresas falidas e em vias de falência, as fusões e aquisições são agora consideradas como uma estratégia legítima para o crescimento. Outro conceito “não japonês” acaba por tornar-se efectivamente muito japonês», refere a Japan Consuming. Fusões e aquisições na indústria de vestuário As fusões e aquisições relevantes na indústria de vestuário começaram inicialmente em 2002, quando o produtor de vestuário de senhora PAL, sedeado em Tóquio, adquiriu uma marca designada por Nice Claup. Com mais de 37 aquisições apenas em 2004 e 2005, esta opção que há apenas uma década atrás seria impensável, tornou-se uma prática corrente no mundo dos negócios japonês. À medida que a frequência de fusões e aquisições continuou, algumas empresas japonesas tornaram-se suficientemente corajosas para ir atrás de empresas no mercado externo. A Onward Kashiyama Co. adquiriu o grupo britânico Joseph, liderado pela marca britânica de moda Joseph Ltd., por 17 mil milhões de ienes em Maio de 2005. Um mês depois, a empresa japonesa obtém os direitos de administração do produtor italiano de calçado Íris Srl., que vende marcas conhecidas como Chloe e Marc Jacobs, pagando para o efeito 630 milhões de ienes por 60% das acções da empresa italiana. As fusões e aquisições vindas do exterior do Japão também se tornaram menos raras, apesar do governo demonstrar ainda alguma cautela sobre a entrada de agregados estrangeiros no comércio de vestuário, restringindo o acesso até à data. Os retalhistas de moda e os produtores de vestuário no Japão têm sido considerados como potenciais aquisições vantajosas, na medida em que possuem capital suficiente para mais do que contrabalançar os seus preços no mercado, de acordo com os rankings do jornal The Nikkei Financial Daily. «A quantidade de capital de fusões e aquisições que anda espalhado pelo mercado é inacreditável, e estamos conscientes de um número de “roll-ups” e fusões desfeitas que ocorrem actualmente e que são financiadas por agências de investimento especulativo que apoiam empreendedores destemidos», refere Terrie Lloyd que escreve sobre negócios no Japão na sua newsletter semanal Terrie’s Take. Lloyd acrescenta que «Na medida em que a saúde financeira do Japão é cada vez mais dependente do investimento estrangeiro… O Primeiro-ministro Koizumi vai anunciar a duplicação do investimento directo estrangeiro permitindo aos estrangeiros a fusão e aquisição de empresas japonesas». Spin-offs sinergéticas Basicamente, o governo japonês procura alcançar uma política de encorajamento de algumas fusões e aquisições na medida em que quer ver as empresas assumirem o controlo de outras entidades devido às spin-offs sinergéticas que resultam desta integração. O governo também considera as fusões e aquisições como uma forma estratégica de conseguir com que algumas empresas saiam de um problema que é comum a muitas empresas de pequena dimensão no Japão: a desagregação da empresa devido à falta de sucessores para gerir os negócios. A quebra na taxa de natalidade japonesa resulta na inexistência de pessoas suficientes para gerir os negócios actuais, situação que ocorre com as diversas empresas de pequena e média dimensão que desenvolvem a sua actividade no sector de vestuário. As fusões e aquisições são uma das poucas opções disponíveis a estas empresas para a sua sobrevivência, refere a Organization for Small & Medium Enterprises and Regional Innovation, Japan (SMRJ), organização independente que promove a criação e o desenvolvimento de novas iniciativas e apoia em diversas áreas as pequenas e médias empresas japonesas. A SMRJ refere que mais de 80% das empresas de média e pequena dimensão com menos de 20 trabalhadores são forçadas a interromper o negócio ou encerrar quando os gestores se retiram. Considerando que as fusões e aquisições são um meio poderoso para a sobrevivência da empresa quando não existem sucessores, o SMRJ decidiu inaugurar um fundo de “sucessores de negócio” a iniciar na Primavera de 2006. Em conjunto com as iniciativas governamentais, isto significa que as fusões e aquisições vieram para o Japão para ficar. Alguns analistas referem que o resultado de todas estas novas pequenas fusões e aquisições podem ser positivas para a indústria. De acordo com a Japan Consuming, o efeito de toda esta actividade no mercado de vestuário tem sido benéfica até ao momento, a consolidação criou lideres claros em cada categoria, eliminando as empresas menos competitivas e criando o espaço e as condições necessárias para o crescimento das empresas saudáveis. A Japan Consuming refere ainda que a procura de gestores competentes, capazes de gerir as suas novas aquisições, por parte dos fundos de investimento também originou uma maior movimentação de talentos entre empresas, resultando na divulgação de ideias e no aumento do ritmo de modernização.