Vestuário em segunda mão ganha mercado

Com um crescimento de 13% em 2025, o mercado global de vestuário em segunda mão deverá atingir cerca de 336,5 mil milhões de euros até 2030, impulsionado pela inteligência artificial, pressão económica e gerações mais jovens.

[©ThredUp]

O 14.º “Resale Report” da ThredUp, com base em dados da GlobalData, resultantes de um inquérito a 3.268 consumidores norte-americanos, e em informações de 50 marcas de moda, revela que, em 2025, o mercado de vestuário em segunda mão cresceu cerca de 13% face ao ano anterior e representa já aproximadamente 10% da despesa mundial em vestuário.

Nos EUA, o mercado de segunda mão cresceu também 13% em 2025 – quase quatro vezes mais do que o vestuário novo (3,6%) – e deverá atingir 78,8 mil milhões de dólares (aproximadamente 67,5 mil milhões de euros) até ao final da década, com um crescimento médio anual de 7,3%.

«A revenda já não está apenas a crescer, está a conquistar quota de mercado», afirma James Reinhart, cofundador e diretor executivo da ThredUp. «A próxima fase deste mercado será definida por quem conseguir melhor desbloquear a oferta e utilizar a inteligência artificial para ligar esse inventário à próxima geração de compradores», acrescenta.

A pressão macroeconómica surge como um dos catalisadores. Segundo o estudo,

59% dos consumidores compraram roupa em segunda mão em 2025, mais 7% do que há três anos e 72% dos inquiridos indicam que a subida generalizada dos preços está a impactar diretamente os seus gastos em vestuário, com 27% a afirmar que tencionam aumentar as compras em segunda mão para compensar. Do lado das marcas e retalhistas, 36% já encaram a revenda como uma cobertura contra a volatilidade das cadeias de abastecimento.

O relatório assinala uma mudança mais profunda nos padrões de consumo, com o vestuário a ser encarado cada vez mais como um ativo com valor de mercado e não como uma despesa. Relativamente a 2025, 57% dos vendedores afirmam ter recorrido à revenda para gerar rendimento, refletindo mais do que uma duplicação face ao ano anterior. Ao mesmo tempo, 60% dos consumidores apontam considerar o valor de revenda no momento de comprar vestuário novo, representando um aumento de 13 pontos percentuais num ano.

Motores de crescimento

A Geração Z e os Millennials são os principais motores desta expansão, responsáveis por 71% do crescimento previsto até 2030. Entre os mais jovens, 58% consultam o mercado de segunda mão antes de comprar vestuário novo e 52% tentam revender mais de metade do seu guarda-roupa.

A inteligência artificial é apontada como um fator decisivo para a próxima fase do mercado, não apenas como ferramenta de pesquisa, mas como agente autónomo. Seis em cada 10 compradores afirmam que utilizariam inteligência artificial para negociar preços e 69% estão dispostos a delegar a uma ferramenta a monitorização permanente de plataformas para encontrar peças específicas. Entre os utilizadores que já recorrem a estas soluções, 81% reportam uma experiência de compra significativamente melhorada.

A descoberta de artigos em segunda mão está também a migrar das plataformas especializadas para as redes sociais. Segundo o relatório, 46% das descobertas já acontecem fora das plataformas dedicadas, através de criadores de conteúdo, algoritmos e procura presencial. Entre a Geração Z e os Millennials, a adoção do comércio social é quase três vezes superior à das gerações mais velhas e 43% dos compradores em segunda mão já realizaram uma compra através de redes sociais ou em formato de transmissão em direto.

«A descoberta está a passar da pesquisa intencional para os resultados do algoritmo. A próxima década de revenda será ganha pelas plataformas que transformam a inspiração em descoberta curada, comunidade e uma experiência de compra mais envolvente», salienta Danielle Vermeer, diretora de produto da ThredUp.

Do lado das retalhistas, dois terços veem a revenda como uma resposta a crescentes exigências regulatórias em matéria de sustentabilidade e 32% estão já a recorrer a parceiros externos para contornar as dificuldades operacionais e acelerar a adaptação.

«O mercado global de artigos em segunda mão está a entrar numa fase mais competitiva e estruturalmente complexa», explica Neil Saunders, diretor-geral e analista de retalho da GlobalData. «Com a Geração Z e os Millennials a impulsionarem a grande maioria deste valor, a infraestrutura de descoberta tem de evoluir para as redes sociais onde estes consumidores vivem», conclui.