Vestuário de outro Mundo – Parte 2

Tal como a primeira, esta segunda parte revela novos e surpreendentes desenvolvimentos no domínio dos têxteis inteligentes, dignos de figurar nas melhores histórias de ficção científica. São, todavia, já pura realidade científica, e até comercial.Formas em movimentoOs materiais com memória de forma têm originado importantes avanços no domínio do vestuário inteligente. A empresa italiana Corpo Nove, por exemplo, criou uma camisa que encolhe e alonga as suas mangas em função da subida ou descida da temperatura. Esta camisa é fabricada a partir de nitinol (uma liga de níquel e titânio) intercalado com poliamida. O nitinol pode dobrar-se ou estender-se quando a temperatura dispara e pode inverter a sua mudança de forma se a temperatura retrocede.Os polímeros com memória de forma também apresentam grande potencial para têxteis e vestuário. Habitualmente, esses polímeros são utilizados em instrumentos médicos a fim de explorar as suas propriedades de mudança de forma. Também têm sido usados para produzir têxteis isoladores, destinados a aumentar ou a diminuir os volumes das bolsas de ar em função da variação da temperatura.Materiais singularesOs materiais auxéticos apresentam a invulgar propriedade de se expandirem quando são estirados e de se contraírem quando são comprimidos – por outras palavras, apresentam um coeficiente de Poisson negativo. Estes materiais possuem outras excepcionais propriedades, incluindo elevada tenacidade, resistência ao corte e absorção de energia. Por consequência, oferecem um vasto leque de potenciais aplicações em muitos campos, tais como em coletes à prova de bala, capacetes e produtos que exijam elevada resistência ao impacto. Alguns polímeros sintéticos bem conhecidos são de natureza auxética. Encontram-se já no mercado espumas auxéticas e, em breve, também as fibras auxéticas serão uma realidade comercial.Tratamentos superficiais inspirados pela NaturezaUm desenvolvimento interessante no domínio dos tratamentos superficiais de têxteis tem sido a aplicação da nanotecnologia. Por exemplo, a observação das folhas de lótus despertou o interesse dos cientistas pelas nanoestruturas e, por consequência, resultou na aplicação de um acabamento têxtil adequadamente baptizado “Efeito de Lótus”. As superfícies têxteis são tratadas de forma a criar nanoestruturas irregulares que não permitem a fixação de qualquer partícula à superfície. Manchas provocadas pelo derramamento de vinho, por exemplo, simplesmente deslizam pelo tecido, evitando assim qualquer nódoa. A aplicação do “Efeito de Lótus” e dos tratamentos plasma (envolvendo gases ionizados obtidos a partir de electrões, iões e fotões que modificam a superfície e as propriedades químicas dos têxteis) constituem actualmente o núcleo das mais recentes investigações no domínio dos acabamentos.Têxteis electrónicosA DARPA (Agência de Projectos de Investigação Avançada da Defesa dos EUA) tem estado envolvida no desenvolvimento de têxteis electrónicos (e-têxteis) que permitem localizar o inimigo num campo de batalha através de sinais acústicos. O vestuário actua como elemento de detecção super sensível, localizando fontes de sons imperceptíveis, especificamente os sons de veículos distantes. O projecto Stretch da DARPA conduziu ao desenvolvimento de um e-têxtil integrando minúsculas baterias para fornecer energia e fios de cobre para efectuar comunicações entre os sensores, a placa de alimentação e os nodos computacionais.Além disso, a DARPA está também envolvida no desenvolvimento de um circuito de refrigeração mesoscópico integrado – para arrefecer as forças de combate situadas em climas quentes. O sistema inclui um compressor, válvulas de uma via, válvulas de expansão, sensores térmicos e um condensador de canal micromilimétrico e evaporador integrado. O sistema global está integrado num quadro de circuitos flexíveis que constitui o suporte principal para os refrigeradores individuais, assim como a estrutura na qual são distribuídos.O desenvolvimento do blusão musical por uma equipa do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) demonstrou que era possível usar métodos decorativos tradicionais como os bordados para costurar os circuitos electrónicos, em vez do recurso a uma electrónica pesada. O blusão constitui um instrumento musical com teclado, sintetizador e altifalantes. O teclado está cosido com linha condutora média. Quando é tocado, envia um sinal para um outro processador, que por sua vez acciona um sintetizador. O som é projectado através de minialtifalantes colocados nos bolsos do blusão. Todo o conjunto pesa menos de 0,45 kg, correspondendo a maior parte do peso às baterias e aos altifalantes.Entretanto, Maggie Orth do MIT desenvolveu um vestido, apelidado de Pirilampo, que integra LEDs (díodos emissores de luz) que embelezam o movimento da sua portadora com um desfile de luzes em alternância permanente. O vestido é composto por duas camadas condutoras em organza, separadas por uma rede em poliamida.Geradores de energiaO conceito de utilização do vestuário como meio de geração de energia é encarado como uma panaceia para um importante problema encontrado pelos investigadores de computadores vestíveis. As fontes de alimentação tradicionais são geralmente volumosas e não renováveis. A integração de células solares pode efectivamente solucionar estes problemas.Na Alemanha, o Instituto Hohenstein e a Universidade de Estugarda criaram um protótipo de vestuário com células solares laminadas na zona do ombro. Estas células finas e flexíveis geram energia suficiente para operar um rádio de bolso. No entanto, as questões relacionadas com a flexibilidade das células, a durabilidade de um tal têxtil e a quantidade de energia que gera limitam presentemente o seu potencial comercial. Se estes problemas forem solucionados, as células solares podem ser integradas em têxteis para alimentar sensores médicos ou aparelhos electrónicos.Um têxtil que cobre o corpo humano pode ele próprio ser uma ferramenta geradora de energia. A ideia de geração de energia através da utilização do calor do corpo humano baseia-se no conceito do Efeito de Seebeck, que afirma que quando as junções de dois metais distintos são mantidas a um gradiente de temperatura, produzem corrente.Colocando um termogerador sobre a pele e utilizando a diferença entre o corpo e o ambiente exterior ao vestuário para gerar o gradiente de temperatura necessário, pode-se produzir uma corrente. O corpo humano produz uma quantidade de calor que depende da sua actividade mas que permite uma potência entre 2,4 e 4,8 watts., depois de se ter levado em conta a eficiência de Carnot e o calor perdido por transpiração.O inverso do Efeito de Seebeck é designado por Efeito de Peltier, que declara que quando a corrente passa entre as junções de dois metais distintos produz-se um gradiente de temperatura. Isto é, um dos lados do elemento está quente e o outro frio; o calor é transferido da superfície fria para a quente à medida que a corrente passa através do circuito. Os elementos de Peltier têm sido usados na indústria do vestuário para transferir peças de vestuário de uma mesa para outra por um método de congelação e descongelação. Os elementos de Peltier têm também sido utilizados, pelas suas propriedades de refrigeração, em coletes à prova de bala, em carros de corrida e nos capacetes dos seus condutores.Corantes inovadores O uso de corantes que mudam de cor com corantes termocrómicos (calor) ou fotocrómicos (luz) oferece oportunidades excepcionais para a criação de vestuário inovador. Até à data, estes têm sido amplamente utilizados em brinquedos de crianças. No entanto, se estes corantes puderem ter uma maior durabilidade e o fenómeno reprodutível com precisão sem efeitos de histereses, poderão ser então usados em vestuário médico. Tintas sensíveis à pressão (piezocrómicos) podem também ser estampadas por quadro em têxteis.