Uma peça de vestuário, uma mensagem. Com a sua marca Global Concern, lançada em 2003, a criadora de moda austríaca Elisabeth Prantner, pseudónimo Lisa D. convida a reflectir sobre as contradições da mundialização.A sua formação em Sociologia repercute-se nas suas criações. Fome, trabalho infantil, guerras, repressão, minorias e outros temas de natureza social procuram, segundo Lisa D., chamar atenção para a forma como vivemos e tomar consciência de todas as nossas contradições.No seu escritório contíguo ao atelier, onde a estilista armazena as suas peças únicas, a grande senhora de cabelo roxo e olhos cintilantes mostra firmemente um vestido ornado com desenhos de criança que caracterizam meninos que choram enquanto sujeitos a trabalhos dolorosos. Esta imagem, demasiado provocante, tem como intenção mostrar a exploração do trabalho infantil. «Um vestido como este jamais passará em Hollywood», defende Lisa D. O "Le petit Noir" é um vestido cocktail feito em croché, que revela uma silhueta de um menino africano de barriga inchada, sinónimo de subnutrição. Toda a colecção de Lisa D. é comprometida e politicamente incorrecta. "Boat People" é mais uma das suas criações que visa atacar directamente os métodos de produção dignos de exploração na indústria do vestuário nos países em desenvolvimento.A sua sombra negra é o grupo de "moda barata" H&M. «Ele sempre foi meu inimigo, já que arruinou o mercado», desabafa a estilista consciente que terá que enfrentar uma «luta de David contra Golias». Por conseguinte, a criadora autodidacta abastece-se da linha de vestuário de bebé da cadeia sueca e, num espaço de uma semana, cria um modelo, onde deixa bem visível as etiquetas do país de fabricação e dos preços da H&M. De igual modo, a partir de 20 enxovais de recém-nascidos com múltiplos cortes feitos numa guilhotina, a criadora concebe um vestido de noite. «Aproveito, como todos nós, muito desta indústria de moda barata», reconhece Lisa D. que diz lutar também pela sua própria sobrevivência. «Cerca de 1.300 peças de vestuário de bebé adquiridas originam duas peças minhas» sublinha a estilista.Em Novembro, a criadora apresentará o "Boat People" em Tóquio, «onde a H&M ainda não está implantada», garante Lisa D. O grupo sueco parece não ter ficado insensível às provocações da estilista que revela ter recebido uma vez um e-mail do grupo, mas que não continha ameaças, nem insultos.Nascida em Klagenfurt, Lisa D. partiu aos 26 anos para Nova Iorque, onde se inicia no estilismo. Conhecida por escolher passerelles insólitas para os seus desfiles, a criadora crítica a admiração que existe pela alta-costura afirmando que celebra «a nostalgia de uma época onde a imagem da mulher assume o papel de objecto de desejo ou de contos de fada». Será por conseguinte feminista? Lisa D. responde com um gracejo: «sou um macho, é o meu marido que diz». Mais exactamente «uma mulher moderna» cujo espelho transporta a etiqueta «trust the girls».










