Valores de luxo

Brunello Cucinelli é tudo menos um capitalista ortodoxo. A sua colorida marca de está a desafiar a contracção provocada pela recessão no sector do luxo – um feito conseguido ao mesmo tempo que cria as condições ideais para os seus trabalhadores. Cucinelli converteu a maior parte da cidade de Solomeo, na região de Umbria, do século XIV, numa fábrica onde ninguém pica cartão, as pausas para almoço são grandes e as únicas regras afixadas nas paredes são citações de filósofos e escritores. «Acredito no verdadeiro capitalismo. A empresa tem de ter lucro», afirma à Reuters, ressalvando, no entanto, que «quero fazê-lo com ética pela dignidade humana». A consultora Bain&Co prevê que as vendas mundiais do mercado de luxo para este ano caiam cerca de 8%, para os 153 mil milhões de euros. Mas Cucinelli, que pode receber mais de 2 mil dólares (cerca de 1.336 euros) por uma única peça em caxemira, ainda está em expansão. Em Setembro, o Gruppo Cucinelli abriu uma loja mono-marca na exclusiva Via Borgognona em Roma, perto da Escadaria Espanhola. Há planos para abrir mais 10 até ao final de 2010. A empresa antecipa um volume de negócios de 154 milhões de euros em 2009, mais cerca de 7% do que no ano passado. é uma tendência de abrandamento em relação aos aumentos de dois dígitos nas vendas e lucros dos anos anteriores, mas põe Cucinelli na companhia de grandes nomes como Hermès e Louis Vuitton, outras das marcas de luxo que vão crescer este ano. «Brunello Cucinelli é um produto discreto – não é uma logo-mania – e altamente sofisticado», explica Armando Branchini, presidente da Intercorporate, uma empresa de consultadoria de Milão. A combinação de um estilo clássico com um toque moderno, trabalho manual apurado e materiais de elevada qualidade está, segundo Branchini, a ajudar a Cucinelli e outra marca italiana também especialista na caxemira, a Loro Piana, a ganhar quota de mercado. Para Cucinelli, cujas peças de vestuário são vendidas em 29 lojas em locais como Nova Iorque, Paris, Beverly Hills, Londres, Saint Tropez e em department stores de referência como Saks, Neiman Marcus e Bergdorf Goodman, o sucesso é apenas parte do objectivo. A Cucinelli foi uma das primeiras em Itália a usar caxemira tingida com cores fortes em larga escala – semelhante ao que a Benetton fez com as camisolas mas para um consumidor de gama muito alta. O verde espargo é um dos seus tons e as camisas começam com o preço de 500 dólares. Em 1985 comprou um castelo em ruínas do século XIV na cidade de Solomeo, na região de Umbria, e moveu a sede da sua empresa para aí após as restaurações efectuadas em 1987. A empresa tem cerca de 500 empregados e cerca de 1.000 contratados externos. A caxemira da Mongólia é importada e preparada por outra empresa italiana sob as especificações rígidas de Cucinelli. Os funcionários a tempo inteiro trabalham quer na parte de cima da cidade, onde são desenhadas e criadas as amostras para a equipa de vendas, ou num novo edifício na parte baixa da cidade, onde é produzida a grande maioria das peças. As paredes perto da fábrica, que agora ocupa a maior parte de Solomeo, estão preenchidas com placas em cerâmica mostrando os aforismos que Cucinelli quer que os seus trabalhadores tenham em mente no seu dia-a-dia. Inclui citações de Sócrates (“A vida sem ciência é uma espécie de morte”), Aristóteles (“A Natureza não faz nada que seja inútil”) e Galileu (“Por detrás de cada problema está uma oportunidade”). «Em comparação com os anteriores trabalhos que tive, gosto muito», afirma Daniela Allumi, que trabalha na indústria de vestuário há 40 anos, à Reuters. «Nós, avós e mães, temos problemas familiares de tempos a tempos e quando os temos eles são muito flexíveis». Às 13h não toca nenhuma campainha nem buzina, mas os trabalhadores saem para o “restaurante” da empresa – ninguém lhe chama cantina – com direito a uma pausa de 90 minutos para almoço. «A questão que se impõe é o que fazer com os lucros», afirma Cucinelli. O empresário começou o seu primeiro negócio na caxemira em 1978, numa pequena oficina, e enviou as suas primeiras criações para a Alemanha e os EUA «porque pagavam imediatamente». Agora a viver numa “villa” confortável, Cucinelli joga numa equipa de futebol local e às vezes joga poker no bar. Construiu um teatro de 230 lugares para ser usado como teatro regional e os trabalhadores e residentes podem relaxar num jardim com oliveiras à volta da sua casa ou usar um complexo desportivo que construiu. «Parte dos lucros tem de ser para ajudar a Humanidade. Isso significa uma igreja, um teatro ou uma obra de caridade. é isso que eu penso que o sistema de negócios deve ser», considera. Ninguém em Salomeo verifica se um trabalhador chega do almoço a horas. Os que almoçam na fábrica pagam apenas 2,80 euros por uma refeição de três pratos cozinhada por uma senhora da cidade que usa ingredientes locais. «Quando as pessoas encontram condições favoráveis na vida são mais criativas», assegura Cucinelli. «Se quisermos fazer artigos de alta qualidade precisamos de pessoas. Para convencer as pessoas a fazer um trabalho humilde temos de fazer com que esse trabalho seja dignificado».