Uma nova era para a cadeia de fornecimento? – Parte 1

O objectivo da gestão da cadeia de fornecimento é a entrega de um produto no menor período de tempo e ao menor custo. No entanto, segundo David Birnbaum, o autor do Relatório Birnbaum – uma newsletter mensal para a indústria do vestuário –, a actual gestão da cadeia de fornecimento está a aumentar substancialmente tanto o tempo de entrega como os custos dos produtos, porque o conceito da cadeia de fornecimento está profundamente viciado. Deste modo, Birnbaum propõe uma nova abordagem para o aprovisionamento do vestuário. Mudar não é fácil, mesmo quando os tempos são bons. Quando os tempos são maus, a mudança é difícil e assustadora, mas também necessária. A mudança estrutural – através da reorganização departamental, fusão ou downsizing – é particularmente difícil e assustadora, porque a empresa tem de escolher quem, de entre os seus empregados, tem a maior competência para executar cada tarefa específica. No entanto, a mudança sistémica é ainda mais difícil e mais assustadora porque coloca em causa o saber se essas competências possuem qualquer valor ou mesmo relevância. Estamos geralmente habituados a pensar em mudanças sistémicas como algo que apenas afecta os trabalhadores fabris, que são substituídos por máquinas automatizadas, ou os empregados de escritório e gestão inferior, que são substituídos por computadores. Não pensamos na mudança sistémica a afectar a direcção, porque não só possuem maior qualificação e, portanto, supostamente são mais difíceis de substituir mas, mais importante ainda, são eles que geralmente decidem quem não é mais relevante e quem deve ser eliminado. No entanto, de longe a longe, os problemas sistémicos tornam-se tão fundamentais que os próprios gestores são os que devem ser substituídos. Chegando a este ponto, os que orientam a empresa devem tomar uma decisão: mudar o sistema e despedir os seus colegas que não têm a capacidade de se adaptar ou ver a empresa morrer. A indústria atingiu um ponto em que a gestão de muitas empresas tem de decidir entre escolher a mudança ou morrer. No entanto, a resposta não é de todo evidente. Por exemplo, na indústria temos um processo chamado gestão da cadeia de fornecimento, onde cada importador ou retalhista tem um aparentemente indispensável departamento de aprovisionamento, que é responsável pela gestão da cadeia de fornecimento. A própria razão de existência de algumas (grandes e bem sucedidas) empresas é a gestão da cadeia de fornecimento. No entanto, esta é uma área onde devem ser feitas mudanças sistémicas fundamentais, pois o conceito de cadeia de fornecimento está profundamente e irremediavelmente viciado. O objectivo da gestão da cadeia de fornecimento é entregar o produto no menor período de tempo e ao menor custo. A realidade é que, na indústria de hoje, o sistema da cadeia de fornecimento aumenta substancialmente tanto o tempo de entrega dos produtos como os custos. Mas o problema não é nem a estrutura do departamento, nem o conjunto de competências dos seus membros. Na realidade, quanto melhor é a estrutura do departamento de aprovisionamento e mais experientes são os seus membros, e maiores são as suas competências de gestão da cadeia de fornecimento, mais longo é o prazo de entrega do produto e maior é o custo. O sistema da cadeia de fornecimento tornou-se disfuncional – e, em determinado sentido, todos os profissionais sabem disso. Um retalhista de preço moderado exige 48 semanas para entregar um par de jeans, contando desde o primeiro esboço até à entrega no interior da loja. Trata-se de mais tempo do que a empresa Boeing necessita para entregar um jacto 747. O que os profissionais não compreendem é que o custo dos seus jeans de 60 dólares no retalho é superior ao de um par de jeans da marca Diesel com um preço no retalho de 150 dólares. O responsável do aprovisionamento no retalhista de preço moderado não é obtuso, nem incompetente. Ele está simplesmente aprisionado num sistema disfuncional que o obriga a pagar demasiado por um produto de má qualidade, com prazos de entrega irracionalmente longos. Na maioria das vezes ele tem a noção de que este sistema disfuncional da cadeia de fornecimento está lentamente a asfixiar a empresa, mas não há nada que possa fazer. Como é que isto aconteceu? E quais são as alternativas? Para compreender exactamente o que aconteceu, temos de voltar aos conceitos básicos. O sistema da cadeia de fornecimento possui duas componentes: – O processo de fornecimento, constituído por uma sequência de passos onde são referidas as responsabilidades associadas. O processo da cadeia de fornecimento começa no momento em que o cliente tem um produto que quer e termina quando esse produto chega ao seu destino final. – A ficha de custo do produto, que é uma repartição dos custos associados com as matérias e os passos do processo de fornecimento. A cadeia de fornecimento passou por três fases de evolução: – Integrada: a fase inicial, quando o processo da cadeia de fornecimento e a ficha de custo do produto incluíam os passos importantes do processo e estavam suficientemente bem alinhadas para fornecer o produto necessário ao menor custo. – Desintegrada: o período intermédio no qual o processo da cadeia de fornecimento expandiu-se para incluir outras funções que não foram incluídas na ficha de custo do produto. Daqui resultou que as duas partes ficaram desalinhadas, originando uma discrepância negativa para as melhores empresas fornecedoras. – Disfuncional: o período actual, em que o processo da cadeia de fornecimento e a ficha de custo do produto estão ambos errados. O processo exclui passos importantes, ao mesmo tempo que a ficha de custo do produto exclui custos significativos. Daqui resulta que a empresa fornecedora que aparentemente proporciona o menor custo é muitas vezes associada ao custo mais elevado. Na segunda parte deste artigo, David Birnbaum analisa como ocorreu esta desintegração entre o processo e a ficha de custo.