Uma década a fio – III

1. COMO TEM EVOLUÍDO A PRODUÇÃO DA VOSSA EMPRESA DE 1990 ATÉ 2001? 2. E O MIX E CARACTERÍSTICAS DOS PRODUTOS (MATÉRIAS-PRIMAS, FIBRAS) ? 3. QUE AVALIAÇÃO FAZ DA EVOLUÇÃO DO MERCADO (CLIENTES)? 4. CONJUNTURALMENTE COMO ESTÁ O MERCADO? 5. QUEM SÃO OS PRINCIPAIS CONCORRENTES E QUE AMEAÇAS COLOCAM? 6. A DESLOCALIZAÇÃO DE CONFECÇÃO É UMA AMEAÇA? 7. QUAL DEVERÁ SER A ESTRATÉGIA PARA A COMPETITIVIDADE ? 8. ESTE SUBSECTOR É VIÁVEL EM PORTUGAL? Tsuzuki: margens estão apertadas como nunca 1. Normalmente fechamos só cinco dias para manutenção, mas houve um ano em que estivemos fechados mais do que o habitual porque havia uma oferta grande de fio no mercado. Exceptuando essa alteração, a produção não tem sofrido alterações e o ano passado correu bem. 2. Compramos algodão de várias procedências, mas principalmente africanos e asiáticos, fazendo depois a mistura aqui. Estamos a falar em 100% algodão. 3. Em 2001 já começámos a notar a fuga de alguns clientes para os fios estrangeiros, que são os nossos concorrentes, principalmente os mercados turcos e os sírios. O mercado priveligiado é o mercado nacional, que ainda continua a ser o nosso maior consumidor. Mas desde há dois anos a esta parte alterou-se bastante porque representava 90% da nossa produção e agora representa cerca de 55% . Os mercados externos desde há dois anos que já representam muito para nós. 4. Muito complicado pelos preços reduzidos. É a única queixa que nós temos. Não temos falta de procura, só que os preços estão como nunca estiveram. E há pouca procura neste momento no mercado nacional, dá ideia que os nossos clientes, que serão as tecelagens e os malheiros, não terão encomendas. Sabemos que há algumas empresas grandes que tinham teares e venderam-nos, passando a comprar a própria malha. Portanto, está a haver uma alteração muito grande da procura este ano. No ano passado já tínhamos sentido, mas este ano está a ser muito pior. A Tsuzuki tem-se mantido estável devido à boa qualidade. 5. Os nossos principais concorrentes são os turcos e os sírios. 6. Pensamos que sim, porque se não há confecção aqui, o sector têxtil baixará cada vez mais em termos de produção. A nossa dúvida é se elas levam para lá a confecção e fazem aqui a malha, se levam para lá só para cortar, ou se fazem lá tudo. Se formos pela primeira hipotese, a situação não é muito grave. O problema é se começam também a consumir os produtos de lá e estaremos a falar de uma situação extremamente grave. A deslocalização é realmente uma grande ameaça. 7. Deve manter-se a qualidade de produtos, investir na gama alta. Na nossa empresa, atendendo às características do mercado, nós já praticámos de tudo: prazos de entrega curtos, entregas pequenas (100kg, 200kg, portanto não estamos a falar de grandes tonelagens). Depois o nosso cliente é que terá mais problemas do que nós. No que diz respeito à legislação laboral, estamos muito cépticos, pois deveria haver muito mais flexibilidade. Atendendo à concorrência e com esta deslocalização da produção, se os outros conseguem fazer, nós temos que ir atrás, senão este sector não terá viabilidade nenhuma. 8. Neste caso penso que haverá cada vez menos fiações em Portugal, atendendo ao grande volume de investimento necessário e atendendo a que os preços hoje em dia não diferenciam a compra em Portugal ou no estrangeiro, assim como a qualidade não será muito diferente. Podia-se optar pela especialização num determinado tipo de fio, há técnicos que conseguiriam fazer isso, mas não há empresários dispostos a investir para esse fim, e depois ficar à espera do retorno do investimento durante não sei quantos anos é complicado. Aliás, penso que as fiações estão todas a fechar, e as que não estão a fechar estão a passar para as mãos de outras empresas… Os têxteis técnicos é que têm futuro. Arcotêxteis: a chave está nos recursos humanos 1. A produção tem aumentado, e neste período considerado tem crescido por volta de uns 3% ao ano. 2. O que temos notado essencialmente é que o que tem funcionado mais no nosso tipo segmento de mercado são as fibras naturais, isto é, o algodão, as misturas com linho e também algumas misturas com lyocel e modal. Mas 80 ou 90% da produção é baseada no 100% algodão. São artigos de alta qualidade e as pessoas querem fibras naturais. Temos misturas, e para as quais tem havido alguma tendência, mas muito específicas, como seja o caso de poliesteres especiais com elasticidade… 3. Nestes 11 anos o número de clientes tem diminuído, o que não quer dizer que as quotas de mercado não tenham aumentado. O que acontece é que desapareceram vários clientes e apareceram clientes de maior dimensão. Portanto, há uma diminuição do número de clientes, deixando de haver uma grande dispersão de mercados, mas regista-se uma concentração de clientes de grande dimensão. À partida pode ser até um bocado perigoso, mas é essa a tendência de mercado. Hoje em dia, como se sabe, a tendência são as concentrações, aliás têm surgido a nível da distribuição autênticos gigantes. Com o aparecimento destas concentrações, a tendência dos pequenos é serem asfixiados e desaparecerem, e cada vez mais são os grandes que têm mais força. 4. Pessoalmente, acho que o mercado está muito complicado e toda a gente sabe isso. O mercado é difícil, mas existe mercado. Existe mercado para as empresas – como é o nosso caso – que tenham investido muito tecnicamente, que estejam bem apetrechadas no aspecto técnico, que tenham qualidade, que tenham grande rapidez no serviço e que sejam competitivas em termos de preço. Para estas empresas existe mercado. Mas é também um mercado altamente concorrencial, porque hoje não se pode falar de um mercado europeu, tem de se falar de um mercado aberto, global, porque embora só se fale nisso para 2005, ess já é a realidade de hoje em dia . 5. A concorrência vem de todo o lado, porque temos concorrência a vários níveis. Se formos para uma gama de produtos média/baixa, não temos hipóteses de concorrer porque aí temos os asiáticos, os turcos, a Índia, etc, que vendem por preços muito mais baixos do que nós. Se entramos na gama média/alta, temos essencialmente os italianos que são nossos concorrentes mais fortes, por vários motivos: primeiro porque têm uma grande tradição têxtil e têm vantagens comparativas importantes como a criatividade e o design, e o ‘made in Italy’, que é muito importante. 6. Pode ser, mas não acho que seja um factor determinante para o insucesso do sector no nosso caso. Como lhe referi na questão da concentração dos clientes, dada a sua grande dimensão eles já confeccionam praticamente em todo o mundo e não é por isso que vão deixar de nos comprar. Se tiverem interesse no nosso produto, pela proximidade, pela rapidez, pela qualidade, pelo preço, eles continuam a comprar-nos. Não é pelo facto da confecção estar instalada fora de Portugal que se vai deixar de fazer negócios. Obviamente que se a confecção fosse forte e competitiva isso ajudaria, porque facilitava a logística, mas não é impeditivo para que as empresas continuem a implantar-se. 7. Eu acho que o grande problema que continuamos a ter é o dos recursos humanos. Não chega só comprar máquinas e a empresa estar tecnicamente muito bem apetrechada, é preciso depois ter recursos humanos que saibam explorar os recursos que têm ao dispor, e que consigam de facto tirar vantagens competitivas. Era muito importante que as universidades e os institutos estivessem mais virados para a indústria, e que de facto houvesse uma formação adaptada às necessidades do sector. Mas também há outra questão importante que é a legislação la