Turquia quer chegar ao pódio no vestuário

Uma análise do Just Style revela que a Turquia está rapidamente a tornar-se num fornecedor de referência para as marcas e retalhistas europeias, antecipando tornar-se num dos três maiores produtores de vestuário do mundo.

[©MDG Achievement Fund]

Atualmente quinto maior exportador de vestuário do mundo, a seguir à China, UE, Vietname e Bangladesh, a Turquia tem conseguido recuperar do impacto da pandemia de Covid-19 e a sua indústria de vestuário está a investir em tecnologia e a capitalizar a tendência de aprovisionamento de proximidade com o objetivo de superar os rivais, refere um artigo do Just Style.

«A indústria de vestuário turca está a avançar para um ponto em que pretende ser um dos três maiores fornecedores do mundo. A indústria quer aumentar o nível de sustentabilidade do sector, aumentar o valor acrescentado na produção, melhorar o design e a capacidade de moda da indústria e subir o preço unitário nas exportações de vestuário», afirma Mustafa Gültepe, presidente da Associação de Exportadores de Vestuário de Istambul (İHKİB – İstanbul Hazır Giyim Ve Konfeksiyon İhracatçıları Birliği).

O sector foi fortemente atingido pela pandemia de covid no início de 2020, com cerca de 80% das unidades produtivas a pararem a produção durante cerca de três meses e um stock estimado em quase 3 mil milhões de euros em espera, segundo os dados da Associação Turca de Produtores de Vestuário (TGSD – Türkiye Giyim Sanayicileri Derneği). «Nos primeiros meses da pandemia, as exportações [em valor] da indústria de vestuário caíram cerca de 30%, mas depois recuperaram», indica Mustafa Gültepe.

No final do ano, a Turquia tinha conseguido recuperar, com as exportações a baixarem apenas 3% [em valor] em relação aos números de 2019.

A recuperação fez-se às custas, sobretudo, das encomendas de equipamentos de proteção individual (EPI), bem como de vestuário casual e em malha, que tiveram um melhor desempenho durante a pandemia do que o vestuário mais formal.

As exportações turcas de vestuário atingiram 17,7 mil milhões de dólares (cerca de 16,1 mil milhões de euros) em 2019, 17,1 mil milhões de dólares em 2020 e 20,3 mil milhões de dólares em 2021, representando uma taxa de crescimento de 18,3%, segundo dados da İHKİB.

«No geral, a indústria têxtil e vestuário da Turquia saiu-se muito bem em resultado das oportunidades criadas pela Covid e também devido a uma melhoria na sua competitividade devido à desvalorizada lira [turca]», explica Navdeep Sodhi, sócio da consultora Gherzi Textil Organization, com sede na Suíça. Em 2021, a lira turca perdeu 44% do seu valor em relação ao dólar americano, segundo a Reuters, o que foi uma bênção para as exportações para os EUA, bem como para o seu principal mercado de exportação, a Europa. «O que vimos é que os clientes da Gherzi [turcos] estão a investir e as suas taxas de produção subiram», revela Sodhi.

Nearshoring beneficia turcos

Os produtores turcos também têm aproveitado o aumento da procura pelo sourcing de proximidade, com os compradores europeus a preferirem comprar no país devido à curta distância e à vontade de reduzir a dependência dos produtores do sul da Ásia e do Extremo Oriente.

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«O impacto mais duradouro da pandemia na indústria de vestuário turca tende a ser positivo porque os países compradores e os compradores tendem a aprovisionar-se ainda mais junto de fornecedores de proximidade, o que irá aumentar a quota de mercado da Turquia na Europa. A interrupção nas cadeias de aprovisionamento e o declínio do aprovisionamento da China deverão ajudar a Turquia a aumentar a sua quota no mercado mundial de vestuário», antecipa Mustafa Gültepe.

A tendência mundial de longo prazo para diversificar a cadeia de aprovisionamento foi acelerada pela pandemia, bem como pelas recentes movimentações dos EUA contra a província chinesa de Xinjiang, que representa 20% da oferta mundial de algodão, devido a preocupações com trabalho forçado.

«Os compradores internacionais desejam substituir o algodão de Xinjiang e a Turquia oferece essa oportunidade», salienta o sócio da Gherzi Textil Organization, que enfatiza que os bloqueios da economia chinesa ligados à Covid são um incentivo fundamental para os compradores diversificarem o fornecimento.

A Turquia investiu no cultivo do algodão e adotou práticas mais sustentáveis. Para 2021/22, a produção de algodão deverá chegar às 825 mil toneladas, das quais 100 mil toneladas devem ser produzidas de acordo com os padrões da Better Cotton Initiative (BCI), que promovem uma maior e mais consistente qualidade e sustentabilidade. No entanto, o consumo geral de algodão na Turquia é muito maior, situando-se em 1,6 milhões de toneladas, de acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA, que antecipa que o consumo de algodão da Turquia em 2021/22 aumente para 1,8 milhões de toneladas, em comparação com 1,4 milhões de toneladas em 2019/20, 60% do qual será proveniente de importações.

ITV integrada verticalmente

O apelo da indústria turca para compradores e retalhistas é parcialmente impulsionado por este ser um dos poucos países que tem uma indústria têxtil e de vestuário integrada verticalmente, da fibra ao vestuário acabado. A indústria de vestuário turca desenvolveu infraestruturas e subsetores de fios, tecidos, malhas, não-tecidos, acabamentos e vestuário de todos os tipos e para todos os segmentos, destaca a İHKİB. A indústria tem sido tradicionalmente mais competitiva em malhas e denim do que nos outros sectores, mas os tecidos e outros subsetores estão a desenvolver-se. O país está ainda a produzir têxteis técnicos e inovadores.

A indústria tem vindo a modernizar-se na última década, incluindo com investimentos em tecnologia da indústria 4.0, como a implementada pela marca alemã Hugo Boss, na sua fábrica inteligente em Izmir, no oeste da Turquia. A unidade usa mais de 1.600 tablets para rastrear a produção em tempo real e está conectada via inteligência artificial com máquinas e robôs semi e totalmente automatizados. A indústria têxtil e vestuário do país está a alavancar a «indústria 4.0 e, nos têxteis técnicos, as empresas estão a explorar oportunidades», explica Navdeep Sodhi.

Com efeito, houve um aumento notável nas importações de máquinas têxteis nos últimos anos. Nas malhas circulares, as importações acumuladas da Turquia foram de cerca de 13.000 máquinas entre 2011 e 2020, das quais 2.300 em 2020. Na tecelagem, as importações acumuladas de teares sem lançadeira foram de cerca de 27.000 unidades, com 3.700 teares importados em 2020. Na fiação, as importações de fusos de anel entre 2011 e 2020 foram cerca de quatro milhões, com 400 mil fusos de anel importados em 2020, de acordo com os números da ITMF – International Textile Manufacturers Federation. «Tirando o subcontinente indiano, a Turquia é o mercado mais movimentado para remessas de novos fusos de anel», aponta Sodhi.

Esse investimento geral reflete-se nas vendas de maquinaria de fiação da Rieter, com sede na Suíça, para a Turquia, que cresceram 49% em 2021 em relação ao ano anterior, de 122 milhões de francos suíços para 182,3 milhões de francos suíços, de acordo com uma nota da Rieter citada pelo Just Style.

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«Em toda a cadeia de valor têxtil, em média, a Turquia está a instalar 400.000 novos fusos de anel, 3.000 teares sem lançadeira e 2.000 teares circulares todos os anos. E esses investimentos aumentaram após a Covid-19», destaca Navdeep Sodhi.

Na produção de têxteis primários – fiação, tecelagem, tricotagem e acabamentos – o sócio da Gherzi Textil Organization descreve a Turquia como «bastante forte». E «com este aumento do nível de automação e modernização, eles estão a manter uma vantagem em produtos de gama mais baixa, tanto em têxteis-lar como em pronto-a-vestir», acrescenta.

Estamparia digital na mira

A Turquia também está a investir em estamparia digital, com cerca de 350 a 370 impressoras multiscan no mercado e cerca de 3.000 equipamentos de impressão rotativa. O país pretende ultrapassar o Paquistão como líder em estamparia digital, se aumentar a capacidade nos próximos cinco anos, para atingir cerca de 500 impressoras digitais, de acordo com Cengiz Kahraman, diretor-executivo da Spot Textile, uma produtora e acabadora integrada de têxteis em Istambul.

O posicionamento e a tecnologia avançada da Turquia estão a atrair marcas de vestuário de elevada qualidade dos EUA e da Europa. Para o presidente da İHKİB, uma das transformações mais importantes atualmente em curso na indústria de vestuário para garantir encomendas a longo prazo com marcas e retalhistas de gama alta é a digitalização na cadeia de produção e aprovisionamento. Isso está a acontecer em paralelo com uma transformação “verde” para reduzir as emissões de carbono e o impacto ambiental da indústria, com projetos parcialmente financiados pela UE.

«Todos os esforços e novos investimentos dentro do sector estão a trazer dinamismo em linha com as tendências atuais da cadeia de valor global de vestuário. Estão a desenvolver-se novos projetos e, em 2021, os investimentos do sector duplicaram em comparação com os últimos anos e atingiram um pico», refere Mustafa Gültepe.

A reciclagem é outra tendência importante na indústria na última década. «Vemos empresas turcas a investir em têxteis circulares e a entrar nos materiais reciclados. Estão também a atualizar a sua infraestrutura, com menos resíduos e redução do uso de água. Isso deve ajudar a competitividade a longo prazo enquanto centro de aprovisionamento para a Europa e os EUA», acredita Navdeep Sodhi.

Indústria em expansão

Ao mesmo tempo que a indústria se está a modernizar no oeste da Turquia, onde a maior parte do sector está sediada, o leste do país está a desenvolver-se como um centro de produção de segundo nível, principalmente devido às exigências salariais mais baixas do que na outra ponta da Turquia. Empresas maiores estão a transferir máquinas mais antigas para o leste. «Existe um programa de apoio [do governo] para os novos investimentos do vestuário nas regiões menos desenvolvidas da Anatólia. Há também auxílios estatais para marketing, promoção e pesquisa», desvenda Mustafa Gültepe.

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Istambul é o centro do comércio, exportação, moda e design da indústria, enquanto os principais centros de produção estão no oeste da Anatólia, nas cidades de Bursa, Izmir e Denizli. No leste da Anatólia, a produção está concentrada em Diyarbakır, Malatya e Batman.

Existem cerca de 40 mil produtores de vestuário em todo o país, que empregam cerca de 669 mil trabalhadores. Combinado com o sector do retalho, o sector emprega cerca de 1,5 milhões de pessoas, de acordo com a İHKİB, que representa 10.000 empresas exportadoras.

Do lado da produção têxtil, há 497 mil postos de trabalho em 19.500 empresas. Cerca de 20% são especializadas em acabamentos, com outros produtores totalmente integrados, incluindo acabamentos, segundo a İHKİB.

As relações laborais têm-se mantido estáveis ​​na Turquia, com os trabalhadores a serem representados por vários sindicatos da indústria têxtil e de vestuário. Há um nível bastante alto de apoio governamental ao sector, principalmente através do Ministério do Comércio e do Ministério da Indústria e Tecnologia. Há também 61 associações semigovernamentais de exportadores, que atuam como uma ponte entre o governo e a indústria.

Olhando para o futuro, a Turquia está a posicionar-se para ser um importante fornecedor de vestuário não apenas para a Europa e os EUA, mas também para os mercados do Médio Oriente, Ásia Central e África, inclusive para as suas próprias marcas de retalho, que estão em crescimento, como a especialista em jeans Mavi e a mais abrangente Colin’s. «Em vários segmentos da cadeia de valor, a Turquia está a reposicionar-se. Vemos enormes oportunidades para a Turquia em têxteis convencionais, mas também nos têxteis técnicos», conclui o sócio da Gherzi Textil Organization.