Tunis dá festival de moda

Ao mesmo tempo que os designers revelaram as suas mais recentes criações no primeiro desfile de moda de Tunis, especialistas do sector têxtil debateram ideias para revitalizar uma indústria em declínio. «O nosso principal objetivo é melhorar a imagem do sector e oferecer um local acolhedor para as pessoas trocarem ideias de como iniciar parcerias… e encorajar novos talentos criativos», revelou Samir Ben Abdallah, organizador do festival. No evento de dois dias, as modelos desfilaram em criações de jovens designers tunisinos em frente a especialistas da indústria, artistas e adeptos de moda internacionais. Mas nas salas de conferências, a conversa voltou-se para a economia, já que a indústria têxtil e vestuário da Tunísia tem sido severamente afetada pela crise financeira da Europa que afastou os seus principais clientes, nomeadamente a França. Em combinação com o clima de insegurança que se seguiu à revolução de janeiro de 2011, os investidores estrangeiros mostraram-se relutantes em alocar novos fundos para a Tunísia. «Uma mão-cheia de investidores estrangeiros está preparada para lançar projetos aqui, mas estão à espera de ver a estabilidade a regressar às ruas», explicou Samir Houet, diretor-geral do Centro de Têxteis Técnicos (CETTEX). Cerca de 70 empresas têxteis tunisinas fecharam as portas desde a revolução, acrescentou. A atual estrutura da indústria trouxe novos desafios, com a Tunísia a não ser capaz de se manter a par das mudanças no sector, como os custos de mão de obra mais baixos noutros países e flutuações na procura por parte da Europa. «A indústria tuniina está hoje num estado muito frágil. A sua principal falha é a dependência das exportações e dos seus principais clientes, que têm sofrido convulsões», considera François-Marie Grau, do sindicato francês da indústria de vestuário. Das mais de 2.000 empresas de têxteis e vestuário do país, 1.700 apenas trabalham para exportação, funcionando basicamente como subcontratadas para os distribuidores maiores. Além disso, o modelo esgotou-se, como mostra a quebra de 7,9% nas exportações em 2012 em comparação com o ano anterior, segundo as estatísticas oficiais. Grau afirmou ainda que os negócios tunisinos «devem procurar oportunidades de crescimento onde elas estão: nos mercados fora da Europa, onde o crescimento é ainda forte». Os produtores têxteis da Tunísia devem igualmente alargar a gama de produtos que oferecem, afastando-se do vestuário barato, apontou Daniel Harari, diretor-geral da multinacional Lectra. «A Tunísia não deve apenas competir nos custos de produção, mas deve trabalhar para melhorar a qualidade do seu serviço e desenvolver novas capacidades», sustentou. Para Harari, a criatividade e iniciativa da indústria são essenciais para afastar-se da simples subcontratação. Seyf Dean Laaouiti, um designer taiwanês-tunisino de 25 anos, quer exatamente isso. Laaouiti impressionou com um desfile com 14 coordenados desenhados à volta do tema do “choque cultural” e sonha em conseguir o reconhecimento mundial para a sua gama Narcisso Domingo Machiaveli. «Este festival é uma oportunidade para os jovens talentos saírem das sombras e expressarem-se e mostrarem a sua visão», afirmou Laaouiti, que vestia com uma roupa inspirada numa garrafa de Coca-Cola: calças vermelhas, casaco em couro, sapatos em couro e um penteado ao estilo de James Dean. «Na Tunísia há beleza, moda, criatividade, alegria e esperança, não apenas problemas políticos e preocupações económicas», acrescentou Naziha Nemri, diretor artístico e técnico do desfile de moda.