Trincheiras contra o medo

A indústria têxtil italiana ainda está envolta no manto negro da recessão. A crise arrisca-se a prejudicar irremediavelmente a nossa fileira, que é um dos elementos de ponta do “made in Italy” e, consequentemente, de toda a economia do país», afirma Michele Tronconi, eleito, em Dezembro passado, presidente da Sistema Moda Italia, a federação que agrupa os industriais do têxtil e do vestuário. O primeiro balanço provisório para o conjunto do sector, apresentado pela Camera Nazionale della Moda, indica uma baixa de 4% no volume de negócios global. Mais em detalhe, a situação deteriorou-se particularmente ao longo do último trimestre de 2008, com um recuo de 10% para o têxtil. Além disso, as perspectivas não são boas: as previsões para 2009 anunciam um novo recuo do volume de negócios (menos 5%) e das exportações (menos 3,4%). Todas as regiões e todos os sectores, da lã ao algodão, passando pela seda, estão a ser afectados. Resta um nicho qualificado, no segmento de gama alta e do luxo, que continua a trabalhar, mas o grosso do mercado está parado. Há uma enorme pressão sobre o preço e, o que é mais grave, alguns clientes já não se preocupam com a qualidade», constata Aldo Ardemagni, administrador da Testa. Federico Boselli, director-geral da Marioboselli Jersey, cujas vendas caíram 16% em 2008, é mais comedido: esperava pior. Na verdade, actualmente temos mais encomendas do que no ano passado por esta altura. Pode ser apenas fogo de vista, mas não deixa de ser um sinal encorajador». Confrontados com a tempestade económica e financeira, os industriais do sector tentam encontrar sinais positivos. As vendas de Natal foram melhores do que o que se esperava e com os saldos aconteceu a mesma coisa. Acredito que os consumidores estão prestes a reagir se lhes propusermos um bom e, sobretudo, um verdadeiro produto», argumenta Michele Tronconi. Até porque, para o conjunto dos industriais do sector, o produto ainda é essencial. Acredito que vai haver uma verdadeira selecção nos mercados. Os que, ao longo dos anos, propuseram verdadeira inovação e qualidade, produtos especiais, exclusivos, vão ser beneficiados. Os improvisadores, esses, vão desaparecer», acredita Luciano Donatelli, presidente da Associação de Industriais de Biella. Como prova disso mesmo está a Lanificio Colombo, cujas vendas de produtos finais (malha e vestuário em caxemira) continuam a aumentar. Sofremos também com os tecidos», reconhece o seu administrador delegado, Roberto Colombo. Contudo, as vendas de vestuário cresceram 20% em Dezembro e em Janeiro, sinal de que os bons produtos se continuam a vender». Esta estação, para a Primavera/Verão de 2010, anuncia-se, contudo, opaca. As feiras não nos fazem ver mais claramente. Participamos nas feiras sobretudo para recolher as crenças e incertezas dos nossos clientes», comenta Alberto Bertoni, director da Luigi Botto. No entanto, a resistência organiza-se, sob um novo mote lançado por Michele Tronconi: lutar contra o medo, que é actualmente o nosso pior inimigo». A curto prazo, o patrão da têxtil italiana insiste também na necessidade, para os seus actores, de se voltarem a centrar no consumidor italiano, através da colocação em prática de políticas fiscais que favoreçam o consumo, e de concentrar os seus esforços de exportação em alguns mercados, como a França, que, aos olhos de alguns industriais, se mantém como um cliente privilegiado dos fios e tecidos italianos. As grandes marcas francesas não alteraram a sua política. Continuam a procurar a melhor qualidade, como fazem há mais de 15 anos», constatam Roberto Colombo e Giuliano Coppini, presidente da Lineapiù. Cada empresa lança, por isso, a sua própria receita para desafiar a recessão que, em média, poderá oscilar entre os 10% e os 40%. São extremos; há aqueles que não terão quebras e outros que irão mesmo crescer», prevê Riccardo Marini, presidente dos industriais de Prato. Junto das fiações, que estão entre os mais afectados pela crise, a hora é de redução de custos. No entanto, há limites para além dos quais não podemos ir», sublinha Giuliano Coppini, que aponta, entre outras, para a aposta em produtos ecológicos. A fiação Cariaggi Fine Yarns Collection, que festejou em 2008 o seu 50.º aniversário, evoca também a necessidade de reduzir custos. Mas não devemos perder de vista os nossos objectivos e continuar a investir para melhorar o serviço e a qualidade», sublinha Piergiorgio Cariaggi, administrador da empresa. A fiação acaba de reforçar o seu gabinete de design, contratando um especialista para desenvolver novas cores. Em período de crise, estou convencido de que é um trunfo», sustenta Cariaggi. A especialista em viscose Filpucci também aposta na cor, com a instalação de um novo sistema informático que será testado no mercado americano. Esta nova tecnologia permitirá fornecer em tempo real as amostras da paleta seleccionada pelo cliente. O objectivo é acelerar todos os procedimentos», explica Federico Gualtieri que, em total oposição à morosidade geral, aponta para um bom aumento do volume de negócios da empresa para o corrente ano. Também na tecelagem as receitas variam. Massimo Angelico, da Lanificio Angelico, evoca a necessidade de estabelecer relações ainda mais estreitas com os clientes. Uma espécie de parceria para os fidelizar, mas também para vigiar de perto a sua saúde financeira, actualmente em risco. Devemos estar realmente à sua disposição, com um contacto constante e permanente», sublinha o responsável. Alberto Bertoni também acredita que é preciso ter visão para o futuro: estou convencido de que vai haver uma grande mudança estrutural no vestuário e uma redução no número de players no mercado. Temos de nos aproximar daqueles que acreditamos serem os protagonistas de amanhã». Cada vez mais produtores italianos de tecidos complementam a actividade com a confecção. Devemos propor um serviço chave na mão e tomar conta de toda a logística ligada à confecção. Até porque os nossos clientes procuram também novas soluções, tanto para vender como para comprar», revela Lorenzo Bonotto, director-geral do grupo Bonotto, que propõe, há duas estações, uma colecção completa de vestuário para a sua clientela da gama alta e do luxo. O momento será, assim, propício ao lançamento deste tipo de serviços, já que muitas marcas, decepcionadas com a sua experiência na China, trazem de volta a produção para a Europa. O mercado tem agora necessidade de respostas rápidas e claras. Acredito que vamos voltar a um sistema industrial europeu e euro-mediterrânico, o que é uma verdadeira oportunidade para a fileira italiana e que nos permitirá uma retoma mais rápida do que outros países europeus. Por enquanto, estamos nas trincheiras e temos de ganhar os combates», conclui Michele Tronconi.