Trimalhas redefine estratégia

A especialista em malhas investiu na aquisição e instalação de uma tinturaria em Famalicão e está a reforçar a aposta em artigos técnicos, numa estratégia de diversificação que inclui novos mercados, feiras e desenvolvimento de produto.

Carolina Pinto e Joseane Oliveira

A empresa, sediada em Guimarães, adquiriu uma tinturaria através de um leilão e realizou obras, instalou equipamentos e criou de raiz um laboratório e uma cozinha de cores. A unidade já está em funcionamento e certificada, permitindo à Trimalhas começar a produzir encomendas certificadas a partir deste mês. A empresa continuará, contudo, a recorrer à subcontratação nos acabamentos, nomeadamente nos produtos mercerizados.

«O ano passado foi de investimento», resume Carolina Pinto, do departamento comercial da Trimalhas e segunda geração da empresa, referindo também a aposta «nas pessoas, na qualidade, em engenheiros e no processo em si». «A empresa teve uma mudança de panorama, digamos assim, de objetivos, de visão e de futuro», sublinha.

A nova orientação passa por reforçar a relação direta com as marcas e desenvolver o segmento técnico. A Trimalhas contratou duas pessoas para reforçar a relação com os clientes e, através de um projeto de internacionalização com a duração de dois anos, participou pela primeira vez na Performance Days, em Munique, na Functional Fabric Fair, em Nova Iorque, e na Techtextil, em Frankfurt. «Vamos manter o segmento da moda, mas acrescentar o segmento técnico», indica Carolina Pinto.

A empresa tem ainda em desenvolvimento um projeto com o CITEVE, denominado Move to Work, para o desenvolvimento de uma peça funcional. Entre as características previstas está a recuperação muscular, embora o projeto se encontre numa fase inicial e possa vir a incorporar outras funcionalidades. «Sentimos que falta culminar várias coisas numa só malha», menciona Carolina Pinto, salientando o objetivo de juntar o «conforto, a parte estética e a parte funcional».

Coleção combina inovação e durabilidade

Na coleção Outlier, para o outono-inverno 2027/2028, apresentada na última edição da Première Vision, a Trimalhas trabalhou o conceito de cápsulas, desenvolvendo diferentes opções a partir dos mesmos fios e combinando fibras naturais, celulósicas e sintéticas.

«Quando utilizamos um fio, tentamos criar uma gama de opções utilizando o mesmo fio, mas com objetivos diferentes, mantendo sempre a coesão», detalha Joseane Oliveira, designer têxtil da Trimalhas. Entre as propostas estão interlocks de dupla face, um jersey desenvolvido com 50% de lã extrafina e 50% de algodão Pima, além de interlocks de algodão mercerizado e malhas com acabamentos concebidos para «libertar cápsulas de melatonina através da fricção, com o objetivo de promover o relaxamento» destinadas, por exemplo, ao sleepwear.

A partir do fio Umorfil, composto por péptidos de colagénio marinho obtidos a partir de escamas de peixe recicladas e utilizado na coleção anterior no desenvolvimento da malha Bionic, a Trimalhas apresenta agora uma malha jersey com «um design diferenciado que acaba por mudar o custo, claro, mas é um tipo de produto diferente. Na Alba quisemos acrescentar a ideia de funcionalidade ao casual, com um toque mais premium», explica a designer da Trimalhas.

O conceito da coleção assenta também na criação de malhas pensadas para permanecer para além de uma estação. «A ideia da coleção foi desenvolvermos malhas que têm um toque de inovação, mas não são malhas sazonais. São intemporais, mas sem perder a vertente da inovação que achamos que é importante inserir cada vez mais a cada coleção», destaca Joseane Oliveira.

Mercados e expectativas

O mercado francês continua a ser o principal mercado da Trimalhas, representando cerca de 70% do negócio. A empresa mantém, por isso, a presença na Première Vision, apesar de considerar que a edição de setembro «está mais reduzida», detalha Carolina Pinto. Entre os fatores apontados está o peso crescente da Turquia e a possibilidade de algumas marcas estarem a transferir a presença para Milão.

A empresa participou também na Milano Unica, cujo retorno, segundo Carolina Pinto, «foi muito bom». Ainda assim, a presença na feira parisiense continua a justificar-se pelo peso do mercado francês e pelas reuniões com clientes. «Na verdade, o mercado francês representa uma fatia grande nos nossos negócios. Então, estar aqui ainda compensa», refere.

2026 «não está a ser um ano muito bom. Está abaixo das expectativas», reconhece Carolina Pinto, que aponta a instabilidade do mercado, a alteração do comportamento das encomendas e a incerteza económica como fatores que estão a condicionar a atividade. «Foi essa instabilidade que nos fez querer apostar noutras direções, não só a moda. Captar outro tipo de clientes e não estarmos só num tipo de mercado e de segmento», revela Carolina Pinto.

Para o segundo semestre, a Trimalhas espera uma evolução mais positiva, suportada pela entrada em funcionamento da tinturaria, que deverá permitir melhorar a competitividade e os prazos de entrega, bem como pelos resultados dos investimentos realizados e da presença em novas feiras. «Se há um desafio que a nossa indústria tem é o de fazer coisas mesmo diferentes, porque se não, facilmente somos ultrapassados», conclui Carolina Pinto.